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Sem gestão hídrica, Manaus corre risco de escassez de água até 2040, alerta estudo

Levantamento do Trata Brasil revela que 80% dos poços da capital operam sem controle e aponta a indústria como peça-chave para a segurança do sistema

Foto: Divulgação/Log-In Endurance

Apesar de estar localizada no centro da maior bacia hidrográfica do planeta e banhada pelo Rio Negro, Manaus caminha para um cenário de vulnerabilidade hídrica nas próximas duas décadas. Um estudo inédito do Instituto Trata Brasil, divulgado pela revista Exame, revela que, sem mudanças estruturais e urgentes no modelo de gestão dos recursos hídricos, o abastecimento de água na capital amazonense pode atingir níveis críticos já em 2040.

A reportagem destaca que o foco central da fragilidade hídrica da cidade está no subsolo. Atualmente, Manaus possui mais de 27 mil poços subterrâneos em operação — utilizados por residências, comércios e indústrias para captação direta no lençol freático. Desse total, apenas 5 mil contam com registro junto aos órgãos de controle, o que significa que mais de 80% da extração de água subterrânea na capital ocorre sem qualquer tipo de monitoramento.

A exploração descontrolada dos aquíferos, somada ao avanço de eventos climáticos extremos como as recentes secas históricas registradas na Amazônia, coloca o ecossistema hídrico local sob forte pressão.

O papel estratégico da indústria e o subsídio cruzado

Outro achado central do levantamento é a relação entre o setor industrial e a sustentabilidade do sistema público de distribuição. Boa parte das fábricas instaladas no Polo Industrial de Manaus (PIM) ainda depende da captação própria via poços, operando fora da rede oficial.

A migração do setor produtivo para a rede pública é vista como peça-chave para o equilíbrio financeiro e social do saneamento na cidade. A conexão de grandes consumidores aumenta o volume de água faturado pela concessionária, diluindo os custos fixos operacionais. Esse movimento viabiliza o subsídio cruzado, mecanismo regulatório que permite manter tarifas reduzidas para famílias de baixa renda e áreas de vulnerabilidade social.

A presidente executiva do Instituto Trata Brasil, Luana Pretto, adverte que a abundância natural de água na Amazônia não garante segurança de abastecimento:

“A cidade depende fortemente do Rio Negro, mas também recorre a poços que muitas vezes operam sem outorga e sem controle adequado. Medidas como reúso, uso racional dos poços e monitoramento de mananciais precisam ser tratadas como prioridade, e não como resposta a uma crise já instalada.”

O diretor-presidente da concessionária Águas de Manaus, Pedro Freitas, corrobora o diagnóstico trazido pela publicação e defende uma ação coordenada entre o poder público e as empresas:

“O saneamento é um desafio coletivo. Se as indústrias derem o primeiro passo rumo à rede pública, outros setores tendem a seguir o mesmo caminho, criando um ciclo de adesão que fortalece o sistema como um todo e reduz a pressão sobre os poços.”

O estudo conclui que a ameaça ao futuro do abastecimento de Manaus não decorre da escassez do recurso na natureza, mas sim da ausência de governança e de um planejamento regulatório integrado entre a indústria, a população e os órgãos ambientais.