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Críticas da Shineray à Zona Franca provocam reação da indústria do Amazonas

Montadora instalada em Pernambuco vê “desequilíbrio” na reforma tributária; Fieam e Cieam afirmam que competitividade da ZFM vai além de benefícios fiscais

Fábrica da Shineray, localizada no Complexo Industrial Portuário de Suape, em Pernambuco | Foto: Divulgação/Shineray

A expansão da Shineray Brasil no Complexo Industrial Portuário de Suape, em Pernambuco, reacendeu o debate sobre os incentivos fiscais da Zona Franca de Manaus (ZFM) e os impactos da reforma tributária sobre a competitividade industrial fora do Amazonas.

Em entrevista ao portal Movimento Econômico, o diretor da montadora, Paulo Perez, criticou o que classificou como um “desequilíbrio” criado pela manutenção de benefícios fiscais ao modelo amazonense, enquanto incentivos destinados ao Nordeste caminham para redução.

Ao apresentar a data de conclusão da ampliação de sua unidade industrial — que deve ficar para setembro deste ano, acrescentando 27 mil metros quadrados à planta —, Perez afirmou que a competitividade da operação pernambucana depende hoje da eficiência logística e operacional da fábrica para enfrentar as vantagens fiscais da ZFM.

“A posição logística e a eficiência operacional de Suape nos ajudam a ser competitivos, o grande desafio é manter-se competitivos com o fim dos incentivos do Nordeste e o aumento dos incentivos da Zona Franca. Essa, na nossa opinião, é um dos absurdos aprovados nessa reforma que precisam urgentemente serem corrigidos”, disse ao portal no último dia 4.

Paulo Perez Criticas da Shineray a Zona Franca de Manaus provocam reacao de entidades industriais Foto Divulgacao Shineray PIM AMAZONIA

Paulo Perez, diretor da Shineray Brasil | Foto: Divulgação/Shineray

O executivo também demonstrou preocupação com uma possível migração de investimentos industriais para a Região Norte caso não haja revisão das regras aprovadas na reforma tributária.

“Não tem como acabar com os incentivos do Nordeste e crescer o da Zona Franca, esse desequilíbrio não é salutar e muito menos justo”, comentou Perez, defendendo, inclusive, a mobilização de parlamentares nordestinos para reduzir o que chamou de “desigualdade fiscal”.

As declarações da Shineray ocorrem em um momento em que o Polo Industrial de Manaus mantém protagonismo nacional no setor de Duas Rodas, concentrando praticamente toda a produção brasileira de motocicletas. Em 2025, as 15 associadas da Abraciclo produziram 1,98 milhão de motocicletas na capital amazonense, crescimento de 13,3% na comparação com 2024, e também o melhor desempenho desde 2011.

Reação no Amazonas

Procurado pela reportagem da PIM AMAZÔNIA, o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Antonio Silva, avalia que narrativas que buscam colocar regiões do país em disputa, como a apresentada por Paulo Perez, revelam uma incompreensão da realidade local e das diretrizes do desenvolvimento regional.

“O Norte e o Nordeste compartilham desafios históricos em infraestrutura, logística e atração de capital. Fomentar uma rivalidade entre áreas que tanto necessitam de políticas de Estado robustas é uma postura contraproducente e que não agrega ao crescimento nacional. O foco das lideranças industriais deve estar na união de esforços para a neoindustrialização do Brasil, fortalecendo as vocações de cada estado em vez de tentar fragilizar modelos de sucesso já consolidados”, ressalta o presidente, lembrando que o modelo não representa privilégio regional, por se tratar de uma política de desenvolvimento prevista na Constituição Federal.

Antonio Silva FIEAM Criticas da Shineray a Zona Franca de Manaus provocam reacao de entidades industriais Foto Divulgacao Shineray PIM AMAZONIA

Antonio Silva, presidente da Fieam | Foto: Divulgação/Fieam

Também em defesa da Zona Franca, o presidente executivo do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam), Lúcio Flávio Morais, lembra que a competitividade da indústria de Duas Rodas instalada no Amazonas é resultado não apenas dos incentivos fiscais, mas de décadas de consolidação de um ecossistema industrial robusto, com elevada capacidade produtiva, cadeia de fornecedores estruturada, mão de obra especializada, investimentos contínuos em tecnologia e ganhos de escala.

“O Polo de Duas Rodas de Manaus concentra fabricantes nacionais e internacionais e responde pela maior parte da produção nacional de motocicletas, sendo referência em eficiência industrial e integração produtiva. A tentativa de atribuir exclusivamente aos incentivos fiscais a competitividade do Amazonas ignora fatores relevantes como produtividade, maturidade industrial, segurança jurídica e capacidade logística integrada da cadeia produtiva já instalada na região. A livre concorrência entre regiões deve ocorrer com respeito às especificidades constitucionais e às políticas de desenvolvimento regional definidas pelo Estado brasileiro”, destaca.

Morais frisa que críticas ao modelo ZFM desconsideram que os incentivos fiscais concedidos ao Amazonas existem para compensar desvantagens estruturais severas, como o isolamento geográfico, os elevados custos logísticos, a ausência de integração rodoviária plena com o restante do país e as limitações de infraestrutura típicas da região amazônica. “O PIM foi concebido justamente para reduzir desigualdades regionais e promover desenvolvimento econômico sustentável em uma área estratégica para o Brasil”, comenta.

Antonio Silva destaca ainda que todo o arcabouço da reforma foi construído e aprovado pelo Congresso Nacional com base no princípio da neutralidade. “O objetivo central das discussões e do texto constitucional promulgado foi, estritamente, a manutenção do tratamento diferenciado que é garantido à ZFM. Não houve, portanto, qualquer ampliação de benefícios ou criação de vantagens adicionais que desequilibrassem a concorrência nacional, mas sim a garantia de que a competitividade do polo não fosse mitigada pelas novas regras do sistema de impostos”, acrescenta.

Reforma Tributária

Lúcio Flávio Morais também rebateu a ideia de que a manutenção das vantagens comparativas da ZFM na Reforma Tributária configura desequilíbrio federativo.

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Lúcio Flávio Morais, presidente executivo do Cieam | Foto: Band/YouTube

“A reforma configura o cumprimento de uma garantia constitucional que assegura competitividade mínima às empresas instaladas na Amazônia Ocidental diante dos custos adicionais enfrentados pela região. A reforma trouxe instrumentos específicos para assegurar a continuidade do modelo e proteger milhares de empregos diretos e indiretos gerados pelo Polo Industrial”, diz.

Floresta de pé

A ZFM possui ainda importância estratégica ao contribuir para a arrecadação tributária, fortalecimento da indústria nacional e, sobretudo, para a preservação da floresta em pé.

“O desenvolvimento socioeconômico gerado pelo Polo Industrial de Manaus é o principal vetor que permite ao Amazonas manter a imensa maioria de sua cobertura vegetal intacta, ao oferecer alternativas viáveis de renda, tecnologia e emprego formal para a população”, pontua Antonio Silva, citando que os 132 mil empregos diretos e os mais de 500 mil indiretos ajudam na redução de atividades ilegais e predatórias.

Um dos estudos mais famosos e consultados, “Zona Franca de Manaus: Impactos, Efetividade e Oportunidades”, coordenado pelo economista Márcio Holland, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), confirma que “quanto maior o emprego na indústria da região, menor o desmatamento”. Segundo o autor, o estado do Amazonas mantém cerca de 97% da cobertura florestal preservada.

Também procurada pela PIM AMAZÔNIA para comentar o assunto, a Abraciclo preferiu não se manifestar.