Meio Ambiente
Fumaça mantém Manaus em alerta, e El Niño reduz expectativa de alívio
Manaus registrou novamente a pior qualidade do ar entre as capitais brasileiras nesta sexta (16); ar está ruim desde o início de setembro
Manaus enfrenta episódios recorrentes de fumaça desde o início de setembro de 2026 - Foto: Bruno Kelly/Reuters
Manaus voltou a registrar a pior qualidade do ar entre as capitais brasileiras nesta sexta-feira (16), devido à fumaça provocada por queimadas no Amazonas e em outras áreas da região. Por volta das 6h, a plataforma internacional IQAir registrou índice de 167 pontos, classificado como insalubre. Com isso, a capital amazonense voltou ao topo do ranking nacional de poluição atmosférica, após uma melhora temporária nos indicadores na véspera.
Segundo a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), grande parte da fumaça que chega a Manaus tem origem na Região Metropolitana e nas regiões do Médio e Baixo Amazonas. O estado contabilizou 1.558 focos de calor entre 1º e 12 de outubro, dos quais 53% estavam concentrados nas regiões de Manaus e Parintins.
Entre os municípios com maior número de focos no entorno da capital estão Autazes, com 181 registros; Itacoatiara, com 90; Novo Aripuanã, com 51; Manaquiri, com 48; Boa Vista do Ramos, com 45; e Borba, com 41. No acumulado de 1º de janeiro a 12 de outubro, o Amazonas registrou 7.815 focos de calor.
Defesa Civil registra 376 alertas relacionados a incêndios
Em nota enviada à PIM Amazônia, a Defesa Civil do Amazonas informou que mantém o monitoramento contínuo das condições meteorológicas, dos focos de calor e dos índices de qualidade do ar em todo o estado, por meio do Centro de Monitoramento e Alerta (CEMOA). No período analisado, foram registrados 376 alertas relacionados a incêndios florestais, associados ao agravamento das condições de qualidade do ar. Segundo o órgão, o levantamento específico sobre a quantidade de alertas de qualidade do ar emitidos desde o início de outubro e os municípios contemplados ainda está em fase de consolidação.
A emissão dos avisos considera as concentrações de material particulado fino (MP2,5) em períodos de 24 horas, conforme os parâmetros estabelecidos pelo Ministério do Meio Ambiente, além dos focos de calor, das condições meteorológicas e do grau de exposição e vulnerabilidade da população.
Entre os fatores que contribuem para a concentração de fumaça em Manaus estão a baixa ocorrência de chuvas, o transporte de poluentes pelos ventos provenientes de outras regiões e as condições de estabilidade atmosférica, que dificultam a dispersão dos poluentes.
Monitoramento aponta piora em diferentes municípios
Dados do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), indicaram que grande parte de Manaus apresentava qualidade do ar nas categorias muito ruim e péssima nesta sexta-feira. No bairro Aleixo, na zona centro-sul, a concentração de partículas chegou a 139,6 microgramas por metro cúbico (µg/m³). No Tarumã, na zona oeste, o registro foi de 39 µg/m³, classificado como moderado.
O monitoramento também identificou episódios de elevada concentração de partículas em outros municípios. Entre 1º de setembro e 1º de outubro, 13 dos 14 sensores com dados disponíveis registraram pelo menos um dia com média de 24 horas superior a 50 µg/m³. Em Manaus, foram quatro dias nessa condição.
No mesmo período, picos acima de 125 µg/m³, classificados como péssimos, foram registrados em Autazes, Careiro Castanho, Itapiranga, Manacapuru, Manaquiri e Urucurituba.
Para comparação, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que a concentração média de MP2,5 em 24 horas não ultrapasse 15 µg/m³.

O estado contabilizou 1.558 focos de calor entre 1º e 12 de outubro -Foto: Vinícius Mendonça/Ibama
El Niño pode dificultar a melhora
A Sema não vê sinais de melhora significativa no curto prazo. Em nota enviada à PIM Amazônia, a secretaria destacou a influência do El Niño, que, segundo os dados citados pelo órgão, superou 2 °C em 14 de setembro. As projeções acompanhadas pela pasta indicam a possibilidade de persistência do fenômeno até o início de 2027.
A previsão de temperaturas acima da média e chuvas abaixo da média em partes da Amazônia entre outubro e dezembro também preocupa. Além disso, órgãos de monitoramento climático apontam risco elevado ou muito elevado de incêndios em áreas do estado.
“A melhora sustentada depende do início regular das chuvas, que o El Niño pode atrasar ou tornar irregular”, informou a Sema.
A meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Andrea Ramos, explica que a poluição registrada na capital não depende apenas das queimadas próximas à área urbana. O transporte de fumaça por correntes de vento pode levar partículas de outras regiões até Manaus.
“A fumaça não precisa estar sendo produzida em Manaus para piorar o ar da cidade: basta haver uma corrente de baixos níveis favorável ao transporte a partir das áreas de queimadas”, afirma.
Segundo a especialista, a chuva pode reduzir temporariamente a concentração de partículas suspensas, mas o resultado depende da intensidade e da duração da precipitação, da circulação do ar e da continuidade das emissões.
“Uma pancada curta pode reduzir o PM2,5 temporariamente, mas se o fluxo de fumaça persistir, a concentração volta a subir rapidamente. Chuvas mais contínuas e abrangentes tendem a ser muito mais eficientes na remoção das partículas. Não há um volume fixo de chuva que garanta a limpeza satisfatória da atmosfera; é a combinação entre chuva persistente, ventilação e interrupção do aporte de fumaça que produz uma melhora mais efetiva.”, complementou.

A fumaça no Centro Histórico de Manaus – Foto: Divulgação / Fiocruz Manaus
Estado e governo federal reforçam ações de combate
O governo do Amazonas mantém a Operação Tamoiotatá 6, voltada ao combate ao desmatamento ilegal, com 15 fases previstas até 5 de dezembro. Segundo o balanço das oito primeiras etapas, foram fiscalizados 382 alvos, emitidos 451 autos de infração, que somam R$ 209,8 milhões em multas, e embargadas 253 áreas, totalizando 30.057 hectares.
O estado também publicou decretos com medidas de enfrentamento à crise ambiental, incluindo a proibição do uso do fogo por 120 dias e a declaração de emergência relacionada aos incêndios florestais em municípios afetados. Além disso, foram contratados temporariamente 153 brigadistas para atuar em 13 municípios.
Na esfera federal, o Ibama informou ter combatido e extinguido 303 focos de incêndio no Amazonas desde o início das operações. A atuação conta com 11 aeronaves destinadas ao combate direto ao fogo, ao transporte e ao apoio logístico. O Ministério da Defesa também mobilizou seis aviões Air Tractor e uma aeronave KC-390 para operações de lançamento de água.
O monitoramento segue sob coordenação de órgãos estaduais e federais, com acompanhamento de focos de calor, áreas queimadas e indicadores de qualidade do ar. Entre as próximas medidas previstas pelo governo estadual estão a estruturação do Centro Integrado Multiagências de Coordenação Operacional Estadual (CIMAN Estadual) e o fortalecimento das ações de prevenção e combate a incêndios.
As metas ambientais do estado para o período de 2026 a 2028 incluem reduzir o desmatamento em 10% ao ano e diminuir em 15% o total acumulado de focos de calor.
Denúncias de incêndios podem ser feitas ao Corpo de Bombeiros, pelo telefone 193, ou à Defesa Civil, pelo 199.
Impactos na saúde e suspensão de aulas
Diante da piora na qualidade do ar, as aulas presenciais da rede municipal de ensino foram suspensas nesta sexta-feira como medida preventiva. A Universidade do Estado do Amazonas (UEA) também suspendeu as atividades acadêmicas presenciais em todas as unidades da capital e do interior, nos três turnos. Parte das atividades administrativas passou a ser realizada remotamente.
A exposição ao material particulado fino (MP2,5), presente na fumaça, pode agravar problemas respiratórios e cardiovasculares. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas estão entre os grupos mais vulneráveis.
O Ministério da Saúde informou que 12 municípios amazonenses foram identificados como prioritários para receber algum tipo de apoio aos serviços de saúde. Equipes da Força Nacional do SUS atuam em conjunto com as autoridades estaduais e municipais para avaliar a capacidade de atendimento, incluindo o abastecimento de oxigênio nas unidades de saúde e nos Distritos Sanitários Especiais Indígenas.
Para reduzir a exposição à fumaça, os órgãos de saúde recomendam permanecer em ambientes fechados sempre que possível, evitar atividades físicas ao ar livre durante os períodos de pior qualidade do ar, manter a hidratação e utilizar máscaras PFF2 ou N95 ao sair. Em caso de agravamento dos sintomas respiratórios, a orientação é procurar atendimento médico.

