Logística
Arco Norte movimenta 58,6 milhões de toneladas e amplia participação nas exportações de grãos
Região já responde por quase 40% dos embarques brasileiros de grãos e concentra 48% das exportações de milho
O Arco Norte movimentou 58,6 milhões de toneladas em 2025, já responde por quase 40% dos embarques brasileiros de grãos e concentra 48% das exportações nacionais de milho. Em quatro anos, entre 2021 e 2025, o volume movimentado pela região avançou 59%. Os dados foram apresentados nesta quinta-feira (20), em Belém, durante o fórum “Horizontes da Economia Azul: Portos, Hidrovias e Agronegócio na Integração da Amazônia”, realizado pela Marinha do Brasil, com apoio da Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA).
O encontro colocou em perspectiva uma transformação que já altera a geografia logística brasileira: o avanço da produção agrícola em direção ao Centro-Oeste e a consolidação dos portos do Norte como alternativa cada vez mais competitiva para o acesso aos mercados internacionais.
Para o presidente da FIEPA, Alex Carvalho, os números apresentados ao longo do fórum também evidenciaram a falta de eficiência nos serviços de logística, o excesso de burocracia, a precariedade da infraestrutura portuária e os atrasos em novos investimentos em manutenção e ampliação.
“Na Amazônia, o aumento dos fluxos encontra uma infraestrutura que ainda convive com restrições de calado, períodos de interrupção da navegação e limitações de capacidade portuária. Ao mesmo tempo, a perspectiva de desenvolvimento da Margem Equatorial começa a acrescentar uma nova demanda por bases de apoio offshore, portos especializados, embarcações, armazenagem, serviços e profissionais qualificados”, explicou Carvalho.


Foto: Divulgação/Fiepa
Entre 2021 e 2025, a entrada de fertilizantes pelo Arco Norte cresceu 62,7%. O fluxo é estratégico para o agronegócio porque o Brasil importa aproximadamente 90% dos fertilizantes que utiliza. Dentro dessa estrutura, dois corredores amazônicos têm peso decisivo.
O Madeira e o Tapajós movimentaram juntos cerca de 34 milhões de toneladas de soja, milho e farelo em 2025, segundo dados apresentados no fórum por Eliezé Bulhões de Carvalho, diretor do Departamento de Gestão Hidroviária do Ministério de Portos e Aeroportos. O volume corresponde a aproximadamente 60% da movimentação dessas cargas pelo Arco Norte.
Barcarena tem custo 10,87% menor que Santos
Outro dado apresentado ajuda a explicar a expansão do Arco Norte: a competitividade logística. Comparativo mostrado aponta que o custo para colocar uma tonelada de commodities em Barcarena é atualmente 10,87% menor do que pela rota de Santos, mesmo com a cadeia amazônica ainda dependendo de aproximadamente mil quilômetros de transporte rodoviário.
“Essa dependência da rodovia, porém, pesa sobre as emissões. Na configuração atual, a operação pelo Norte é 6,75% mais poluente do que a alternativa rodoferroviária até Santos”, explicou Flávio Acatauassú.
No entanto, o engenheiro garante que as projeções mudam com a Ferrogrão. “Com a ferrovia em operação, o custo logístico pelo Arco Norte poderia ficar 27,17% abaixo do Porto de Santos, enquanto as emissões seriam 44,39% menores. É competitividade. É isso que está fomentando todo o resto”, afirmou.
Os dados mostraram, entretanto, que o ganho econômico esbarra na capacidade dos rios de manter a navegação durante todo o ano. Em 2024, houve cerca de 45 dias de interrupção da navegação em períodos críticos da estiagem. Em 2025, foram aproximadamente 28 dias.
Em alguns pontos, segundo Acatauassú, poucos centímetros podem definir se uma embarcação consegue ou não prosseguir. Trechos com menor profundidade funcionam como “lombadas” no leito dos rios e acabam limitando corredores inteiros. A Amazônia possui cerca de 7,5 mil quilômetros de vias efetivamente navegadas, diante de um potencial estimado em aproximadamente 20 mil quilômetros. No Tapajós, foram apontados sete pontos para dragagem; no Madeira, 14.
Margem Equatorial acrescenta nova demanda à logística
A Margem Equatorial foi outra frente analisada durante o encontro. Se o agronegócio já amplia a pressão sobre a infraestrutura hidroviária e portuária do Norte, a perspectiva de desenvolvimento da atividade de petróleo e gás adiciona uma nova cadeia à equação.
Levantamentos mostram que a movimentação de petróleo e derivados pelo Arco Norte cresceu 15,49% entre 2024 e 2025. Uma eventual expansão da exploração de petróleo e gás na costa amazônica exigirá, no entanto, uma estrutura diferente daquela utilizada para os grandes volumes de grãos e minérios.
Fabiano Prata Souza, gerente de Operações Norte e Nordeste da Logística de Exploração e Produção (E&P) da Petrobras, afirmou que a própria preparação das operações da companhia na região já revelou limitações, principalmente na disponibilidade de portos adequados e de áreas para armazenar cargas destinadas às embarcações de apoio.
Nesse tipo de atividade, o desafio não está necessariamente no volume movimentado, mas na velocidade da operação. As embarcações offshore precisam encontrar berços disponíveis, receber suprimentos e retornar rapidamente ao mar. Durante a preparação das atividades, foram articuladas soluções com a Companhia Docas do Pará (CDP) e a Marinha do Brasil. Em determinado momento, no entanto, a operação precisou ser transferida para o porto da Linave. “Ainda carece de porto offshore. Claro que é natural, porque a gente não operava aqui”, afirmou Fabiano.
O gargalo também alcança a mão de obra. Grande parte das tripulações mobilizadas para as operações veio de outras regiões brasileiras. Segundo Fabiano, apenas sete ou oito embarcações de maior porte já representam, considerando suas tripulações, mais de 200 trabalhadores.
Caso a atividade ganhe escala, a formação de profissionais no Norte tende a se tornar parte estratégica da nova cadeia, tanto pela possibilidade de reduzir custos de deslocamento quanto pela geração de empregos e pela formação de trabalhadores familiarizados com as condições específicas da região.
A importância do mar para exportações brasileiras
Cerca de 95% da produção brasileira de petróleo e 70% da produção de gás natural estão associados ao mar. A via marítima também responde por aproximadamente 95% do comércio exterior brasileiro, em um fluxo da ordem de 1,5 bilhão de toneladas. Segundo os dados apresentados no encontro, a Economia Azul corresponde a 19,4% do PIB brasileiro.
O vice-almirante André Coronha Macedo, da Marinha do Brasil, destacou que portos, hidrovias, mar e agronegócio precisam ser tratados de forma integrada.
“A Margem Equatorial pode alterar significativamente a dinâmica econômica e logística do Norte, criando demanda por bases portuárias, embarcações de apoio, transporte de equipamentos, profissionais especializados e estruturas de resposta a emergências”, explicou. Para ele, há uma oportunidade estratégica para o Brasil de transformar a extensa rede hidrográfica amazônica e o mar que abriga as atividades offshore em uma infraestrutura de integração nacional, conectando produtores, comunidades, centros urbanos, indústrias e mercados internacionais.
A expansão das atividades econômicas também aumenta a necessidade de monitoramento. O vice-almirante Marcelo da Silva Gomes, diretor de Gestão de Programas da Marinha do Brasil, apresentou o Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz), que integra sensores, inteligência artificial, centros de comando e informações de diferentes instituições.
Entre os projetos está a ampliação da capacidade de detecção de embarcações e ocorrências no mar, inclusive na área próxima ao Oiapoque, estratégica para a Margem Equatorial. Além da defesa e da soberania, a tecnologia pode ser empregada no monitoramento de poluição, na proteção de infraestruturas críticas e na segurança da navegação.
