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Projeto brasileiro de conservação de sementes ganha destaque global pela ONU

Liderada pela Embrapa, a iniciativa conecta o conhecimento tradicional à pesquisa científica na proteção de culturas essenciais

Foto: Stock Adobe

O projeto ConservaIn ganhou projeção internacional ao ser publicado no portal oficial da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), destacando-se pela integração entre o campo e os laboratórios públicos na proteção e conservação de sementes tradicionais.

A veiculação na página do Fundo de Repartição de Benefícios (FRB) do Tratado Internacional sobre Recursos Fitogenéticos para Alimentação e Agricultura (Tirfaa), concede à iniciativa da Embrapa destaque na vitrine global da entidade internacional, validando um modelo de gestão participativa que alia o conhecimento tradicional das comunidades ao trabalho científico de preservação genômica.

Identificado pelo código PR-154-S e intitulado “Rede de apoio à conservação local (in situ/feita diretamente nas propriedades rurais, roças e florestas por agricultores locais) de recursos genéticos vegetais no Brasil e integração com os bancos de germoplasma da Embrapa”, o projeto conta com um orçamento aprovado de US$ 198.716 (aproximadamente R$ 1 milhão).

Além do aporte internacional, a iniciativa mobiliza um cofinanciamento estimado em US$687.942, composto principalmente pela alocação de tempo de trabalho de 35 pesquisadores e por orçamentos institucionais.

A pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia e líder do ConservaIn, Marília Burle, observa que a relevância de figurar na página oficial da instituição internacional consolida uma estratégia: conectar duas pontas vitais da preservação agrícola que historicamente atuavam de forma isolada.

“De um lado está a conservação in situ, e do outro a conservação ex situ (realizada fora do ambiente natural, por meio do armazenamento refrigerado em bancos de germoplasma mantidos por instituições públicas). A visibilidade concedida impulsiona o projeto a servir de referência para outros países em desenvolvimento que buscam soluções sustentáveis para a segurança alimentar e adaptação às mudanças climáticas”, disse.

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Foto: Divulgação/Embrapa

Rede multidisciplinar e alcance nacional

A estrutura do projeto baseia-se em uma equipe multidisciplinar que conecta desde os pequenos agricultores e povos indigenas, até pesquisadores e organizações não governamentais, e abrange geograficamente dez estados brasileiros, alcançando os cinco principais biomas do país:
  • Rio Grande do Sul;
  • Bahia;
  • Pernambuco;
  • Alagoas;
  • Sergipe;
  • Amapá;
  • Roraima;
  • Tocantins;
  • Mato Grosso;
  • Mato Grosso do Sul.

Segundo Marília Burle, o planejamento prevê o apoio direto a pelo menos 400 famílias e 20 comunidades locais, além do engajamento de dezenas de organizações sociais.

As ações em campo do projeto já estão em execução com a primeira realização de uma visita comunitária em junho de 2026 e duas atividades adicionais em setembro, com cerca de dez novas iniciativas junto a comunidades tradicionais e agricultores programadas até o final do ano.

Resgate de culturas essenciais e segurança alimentar

O principal foco das atividades de campo do projeto ConservaIn é a preservação e o resgate de culturas essenciais para a alimentação, geração de renda e soberania alimentar de populações rurais.

A líder do ConservaIn explica que as culturas-alvo prioritárias enquadradas, incluídas no Anexo I do Tratado Internacional, são arroz, milho, feijão-comum, fava (feijão-lima), feijão-fradinho (feijão-caupi), mandioca, batata, batata-doce e inhame.

Por outro lado, como os guardiões rurais mantêm sistemas agrícolas altamente diversificados, o projeto também abrange espécies que não constam na lista prioritária do tratado mundial, mas possuem valor inestimável para a sociobiodiversidade e alimentação local, como abóboras, pimentas, amendoim, açaí e frutas nativas.

No bioma Pampa, no extremo sul do País, as ações voltam-se ainda para a conservação e mapeamento de parentes silvestres de plantas cultivadas, como batata-doce silvestre, ervilhaca, berinjela nativa e cevada, em interação direta com as populações locais.

A conservação in situ permite que as plantas continuem evoluindo no campo, adaptando-se continuamente às pragas, secas e variações de temperatura impostas pelas mudanças climáticas.

Já a conservação ex situ, realizada nas coleções geladas mantidas nos centros de pesquisa públicos, garante a salvaguarda de segurança caso uma praga ou desastre natural elimine as lavouras rurais. A integração entre as duas formas de preservação assegura um fluxo contínuo de envio e devolução de materiais genéticos.