Tecnologia & Inovação
Semicondutores testam nova fronteira da Zona Franca
Setor deve movimentar US$ 2,5 bilhões no Brasil em 2026, segundo a Abisemi, com importantes empresas instaladas em Manaus. Desafio local envolve mão de obra e logística
A indústria de semicondutores voltou ao centro da disputa tecnológica global. No Brasil, a estimativa da Associação Brasileira da Indústria de Semicondutores (Abisemi) é de que o setor movimentará cerca de US$ 2,5 bilhões em 2026, impulsionado pela digitalização, inteligência artificial, automação industrial, conectividade e busca por segurança nas cadeias de suprimentos.
Em Manaus, o segmento ainda é um nicho dentro do polo eletroeletrônico, mas já movimenta cifras relevantes. Segundo Rogério Nunes, fundador e presidente da Abisemi, não há um levantamento fechado, mas a estimativa é que entre US$ 700 milhões a US$ 800 milhões sejam vendidos a partir de Manaus. Só a Zilia projeta faturamento superior a R$ 3 bilhões.
A produção ligada a semicondutores instalada na capital amazonense está concentrada principalmente em circuitos integrados do tipo memória em produtos baseados nesses componentes, como módulos de memória e unidades de armazenamento SSD, utilizados em diferentes segmentos da economia digital e da indústria eletroeletrônica.
No mundo, a cadeia de semicondutores pode ser dividida, de forma simplificada, em três grandes etapas: o desenvolvimento e design dos chips; a fabricação dos circuitos sobre wafers, ou lâminas de silício, conhecida como front-end; e o back-end, que reúne processos como encapsulamento e testes dos componentes.

Produção de wafers é complexa e não ocorre no Brasil | Foto: Divulgação
Ao fim dessas etapas, o chip está pronto para ser incorporado a módulos de memória, unidades de armazenamento, smartphones, computadores, veículos e uma ampla variedade de equipamentos eletrônicos.
Rogério Nunes, que também é fundador da Zilia, defende que o debate sobre semicondutores precisa partir de uma leitura realista da cadeia produtiva. Uma das lacunas está na produção dos próprios wafers de silício utilizados como base para a fabricação dos circuitos, que ainda vêm do exterior.
“Não conseguimos ter isso ainda, o que é feito na Ásia. Em torno de 70% vem de lá”, explica Nunes.

Arte: Suellen/PIM Amazônia
A iniciativa mais próxima de uma estrutura integrada de fabricação de chips no país é o Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec), no Rio Grande do Sul, que passa por processo de retomada.
Na etapa de back-end, segundo Nunes, há cinco empresas atuando no país: duas em São Paulo, uma em Minas Gerais, uma no Rio Grande do Sul e a Tera, em Manaus.

Fábrica da Zilia em São Paulo | Foto: Divulgação/Zilia
Todas também mantêm operações em Manaus, mas apenas a Tera realiza Back-end na capital amazonense. As demais — Zilia, Adata, Hana Electronics e Multi — atuam localmente em outras etapas ou produtos relacionados à cadeia, como montagem, testes, módulos de memória e SSDs.
“Pode parecer pouco, mas no mundo não temos mais do que 12 ou 15 empresas desenvolvendo este processo”, afirma Rogério Nunes.
A terceira grande etapa reúne processos de encapsulamento e testes. É nessa fase que os circuitos produzidos no wafer são preparados para utilização pela indústria. No Brasil, mais de 20 empresas atuam em diferentes áreas da cadeia, de acordo com informações da associação do setor.
Arte: Suellen/PIM Amazônia
Janela de oportunidade
Para a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) e especialistas ouvidos pela reportagem, é possível dizer que existe uma janela de oportunidade de médio e longo prazo para atrair novas empresas e ampliar etapas de manufatura de semicondutores.
Segundo levantamento da PIM Amazônia, além das empresas já citadas, compõem este segmento as empresas Song, Boardtec e Boreo, totalizando oito empresas. Para a Suframa, o peso dessa indústria é maior do que sua participação quantitativa sugere e o setor tem relevância estratégica porque está conectado à base eletroeletrônica já existente no Polo Industrial de Manaus.
Além disso, pode abrir caminho para investimentos de maior intensidade tecnológica, ampliação de atividades de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I), formação de mão de obra especializada e maior agregação de valor local.
Estratégia
Manaus conta com uma indústria de semicondutores em pleno desenvolvimento. Em setembro, por exemplo, a Adata colocou em funcionamento um segundo prédio, movimento que dobrou a área fabril na cidade, e está preparando a transferência da produção de servidores de alta potência para a capital do Amazonas. A iniciativa é uma parceria da gigante do setor com a Giga Computing.

Adata se prepara para transferir produção para Manaus | Foto: Divulgação
A pergunta agora é se Manaus conseguirá transformar operações ainda concentradas em determinadas etapas da cadeia em uma plataforma mais robusta de tecnologia, produção e inovação em um mercado que, segundo projeções do setor, pode alcançar mais de US$ 2,0 trilhões em 2030.
Para o presidente da Abisemi, a Zona Franca já reúne empresas que atuam no segmento e tem vantagens competitivas importantes. Embora ainda esteja distante de dominar todas as etapas da cadeia, a região tem espaço para ser competitiva.
“É uma visão errada quando alguém diz: queremos ter o domínio total dos semicondutores. Nenhum país é independente hoje no mundo, nem os Estados Unidos”, afirma.
A estratégia, segundo ele, deve ser inserir o Brasil em partes relevantes da cadeia global, especialmente onde o país já tem mercado interno, base industrial e instrumentos de incentivo.
“O importante é que a gente faça parte desse sistema mundial. E nós já fazemos parte”, diz.
Vantagens da Zona Franca
A competitividade de Manaus no setor passa por uma combinação de incentivos. O Programa de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Semicondutores (Padis) é nacional, sem recorte regional, e foi criado para atrair e ampliar investimentos em semicondutores, displays, células fotovoltaicas e áreas relacionadas.

Arte: Suellen/PIM Amazônia
Na Zona Franca, esse regime se combina com outros mecanismos ligados ao modelo industrial de Manaus, à Lei de Informática, aos Processos Produtivos Básicos (PPBs) e aos incentivos regionais.
Para Nunes, essa combinação torna Manaus a região mais competitiva do país para determinados produtos do setor.
“Manaus tem competitividade muito grande. É a região mais competitiva do Brasil. Além do Padis, os clientes, quando compram produtos oriundos daqui, têm crédito de IPI e de ICMS, que quando compram em outra região não têm”, afirma.
A reforma tributária aparece como um fator de mudança. Na avaliação do presidente da Abisemi, se o desenho atual for mantido, a Zona Franca tende a ganhar competitividade em relação a outras regiões, inclusive para atrair empresas de eletroeletrônicos e semicondutores.
A economista Michele Lins Acaraty vê uma janela de oportunidade, mas faz ressalvas. Para ela, Manaus ainda não pode ser considerada um polo consolidado de semicondutores, embora tenha ganhado protagonismo nas etapas finais da cadeia, especialmente no fornecimento para linhas de smartphones, TVs e computadores.
“Sem dúvida, a reforma tributária cria uma janela de oportunidade histórica para o PIM ao consolidar sua blindagem jurídica e ampliar sua atratividade econômica em relação ao restante do país”, afirma.
Desafios da Zona Franca
Se há oportunidades, de um lado, é imperativo destacar os entraves, de outro. O primeiro deles é a formação de mão de obra especializada.
Empresas de maior intensidade tecnológica exigem engenheiros, técnicos e profissionais com experiência em processos industriais mais sofisticados. Para Nunes, esse é um dos principais pontos de atenção caso novas empresas decidam se instalar em Manaus.
“O que falta é justamente o desenvolvimento de mão de obra qualificada para certos setores da indústria”, afirma.
A economista Michele Lins Acaraty segue na mesma direção. Para ela, a Zona Franca precisa avançar no desenvolvimento e na fabricação de parte da tecnologia incorporada aos bens produzidos no Polo. Isso exige investimento privado, política pública e integração com centros de pesquisa.
“Acredito que temos um gargalo na capacidade de desenvolvimento e fabricação de parte da tecnologia incorporada aos bens fabricados no PIM, sendo imprescindível investimento ou mesmo uma política pública assertiva para elevar o valor tecnológico ao longo da cadeia”, avalia.
O segundo gargalo é logístico. Manaus é uma base industrial desenhada historicamente para abastecer o mercado interno brasileiro. Para o setor de semicondutores, esse desenho pode ser insuficiente.
Empresas que venham a se instalar na região precisam não apenas produzir para o Brasil, mas também avaliar modelos de exportação. Isso exige regularidade logística, previsibilidade no transporte e integração com mercados globais.
“Manaus é conhecida como área de manufatura desenhada para produzir produtos dentro do Brasil. É importante que se tenha olhos para que empresas possam exportar a partir de Manaus, e aí temos as questões logísticas”, diz Nunes.
Para Michele, esse é um ponto decisivo. Ela afirma que a infraestrutura antecede a atividade econômica e que, sem uma base logística adequada, a atração de investimentos fica limitada.
“Sem dúvida que esses fatores são os maiores limitadores reais da competitividade de Manaus, o chamado Custo Amazônia”, afirma.
Automóveis entram no radar
No mercado global, os maiores vetores de demanda hoje estão em data centers para inteligência artificial, computadores, comunicações, celulares e automóveis. No Brasil, segundo a Abisemi, celulares e computadores ainda aparecem como os principais segmentos consumidores.
Esse recorte é importante para Manaus. A cidade já abriga fabricantes de eletroeletrônicos, bens de informática, celulares, TVs e componentes. Essa base instalada pode ajudar a atrair novas etapas da cadeia, desde que o ambiente tecnológico, regulatório e logístico avance.
Uma nova frente de expansão pode vir do setor automotivo. Segundo Nunes, uma mudança no Processo Produtivo Básico no fim de 2025 abriu espaço para o desenvolvimento de produtos voltados a essa cadeia.
Arte: Suellen/PIM Amazônia
A Zilia já trabalha em processos de qualificação para fornecimento ao setor automotivo. Esse caminho, no entanto, é mais longo. Segundo o presidente da Abisemi, a qualificação de componentes para veículos pode levar um ou dois anos.
“A Zilia está com processos para qualificar para o setor automotivo. Estamos na preparação desse caminho”, afirma.

Unidade da Zilia em Manaus | Foto: Divulgação/Zilia
Nova fronteira industrial
A Suframa avalia que a crescente demanda mundial por semicondutores pode representar uma oportunidade de atrair investimentos de maior intensidade tecnológica e aumentar a agregação de valor local.
A disputa, no entanto, não será simples. A cadeia global é concentrada, exige capital elevado, escala, conhecimento técnico, fornecedores especializados e inserção internacional. O Brasil não parte do zero, mas também não parte de uma posição dominante.
O ponto a favor de Manaus é contar com uma base industrial eletroeletrônica consolidada e um modelo de incentivos que pode ganhar força no novo sistema tributário.

