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Como o petróleo multiplica a economia da Guiana e atrai interesse de empresas brasileiras

PIB nominal ficou quase cinco vezes maior em cinco anos, enquanto companhias brasileiras avaliam investimentos no mercado vizinho

A economia da Guiana ficou quase cinco vezes maior entre 2020 e 2025, período marcado por uma pandemia e por conflitos bélicos que afetam os mercados globais. Somente no ano passado, a economia guianense cresceu 19%, corando um avanço iniciado em 2019 com a exploração de petróleo. Neste ano, o crescimento real foi de 33% no primeiro semestre, o que tem atraído a atenção de empresas brasileiras.

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Georgetwon, capital da Guiana | Foto: Divulgação/DPI Guiana

O milagre econômico da Guiana tem números que impressionam e tem origem na descoberta de grandes reservas de petróleo no bloco Stabroek, pela ExxonMobil, em 2015. A produção comercial começou quatro anos depois, com a entrada da primeira plataforma em águas profundas do Atlântico.

O Produto Interno Bruto (PIB) nominal, que era de US$ 5,47 bilhões em 2019, passou para US$ 27,1 bilhões em 2025, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI).

No mesmo período, a força de trabalho aumentou. Segundo relatório semestral do governo, nove em cada dez pessoas na força de trabalho estavam empregadas no quarto trimestre de 2025, enquanto a taxa de desemprego havia caído para 6,2%. A próxima pesquisa da força de trabalho está prevista para o último trimestre de 2026 e vai trazer números atualizados sobre o emprego no país.

O mesmo relatório destaca que a principal restrição que o país enfrenta “já não é a criação de empregos, mas a oferta e a composição das competências disponíveis para preencher as vagas existentes”.

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Arte: Suellen/PIM Amazônia

Em 2026, de janeiro a junho, o desempenho foi puxado pelo setor de petróleo e gás, cuja atividade cresceu 41,3%, mas a economia não petrolífera avançou 10,1%, com destaque para a construção civil, que registrou expansão de 24,7%. Os serviços cresceram 7,2%, enquanto a indústria de transformação teve alta de 3%, segundo o Ministério das Finanças.

Com base nestes números, o crescimento real do PIB do ano foi revisto para 20,8% e o crescimento do setor não petrolífero foi projetado em 10,2%. Já o FMI projeta alta de 22,3%, de acordo com o World Economic Outlook de outubro.

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Taxa de desemprego caiu significamente de 2020 a 2025 | Foto: Divulgação/DPI Guiana

O ministro sênior do Gabinete da Presidência responsável pelas Finanças, Ashni Singh, ressaltou o avanço em um contexto crítico globalmente.

“O forte desempenho econômico sustentado da Guiana ocorre em um contexto de economia global que é melhor caracterizada por um crescimento desigual e perspectivas incertas”, disse em entrevista reproduzida pelo Departamento de Informação Pública (DPI).

A transformação da Guiana atrai olhares de empresas brasileiras, mas a participação no conjunto das importações guianenses permanece limitada, o que aponta para um potencial ainda a ser explorado na relação entre os dois países.

Segundo o Bureau of Statistics, órgão oficial de estatística, o Brasil respondeu por 4,1% das compras externas do país entre janeiro e junho de 2026.

A riqueza e os riscos

No ano passado, a produção de petróleo da Guiana ultrapassou 900 mil barris por dia, com quatro projetos em operação no bloco Stabroek. A ExxonMobil prevê ampliar a capacidade instalada para aproximadamente 1,7 milhão de barris diários até 2030, com oito empreendimentos offshore.

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Arte: Suellen/PIM Amazônia

A companhia planeja iniciar a produção no projeto Uaru até o fim de 2026. Whiptail está previsto para 2027 e Hammerhead, para 2029. As novas unidades deverão elevar a capacidade produtiva do país, que começou a explorar comercialmente petróleo há menos de sete anos.

No primeiro semestre de 2026, as exportações de petróleo somaram US$ 15,05 bilhões, aumento de 82,1% em relação ao mesmo período de 2025, segundo o Ministério das Finanças. O volume exportado passou de 116,1 milhões para 162,4 milhões de barris.

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Arte: Suellen/PIM Amazônia

Parte da receita recebida pelo Estado é destinada ao Natural Resource Fund (NRF), fundo soberano criado para administrar os recursos petrolíferos. Segundo demonstrativo do Banco da Guiana, o saldo alcançou US$ 5,47 bilhões em 30 de setembro de 2026, ante US$ 4,29 bilhões no fim de junho.

O valor exportado pelas petroleiras, porém, é diferente da receita recebida pelo governo. Os contratos estabelecem mecanismos de recuperação de custos pelas operadoras e de repartição da produção. As condições dessa divisão são objeto de questionamentos no país, especialmente quanto à parcela que efetivamente permanece com o Estado.

As receitas petrolíferas têm permitido ao governo ampliar os investimentos públicos. No orçamento de 2026, foram reservados G$ 196,1 bilhões, equivalentes a aproximadamente US$ 940,5 milhões, para estradas e pontes. Para habitação, a dotação alcança G$ 159,1 bilhões, cerca de US$ 763 milhões.

Entre os projetos estão a construção e recuperação de rodovias que conectam o interior à região costeira, onde se concentram Georgetown e parte da infraestrutura portuária. O governo também executa programas habitacionais e obras de abastecimento de água.

O Ministério das Finanças atribui a expansão da construção civil no primeiro semestre tanto aos investimentos públicos quanto aos empreendimentos privados. Para o fechamento de 2026, o governo projeta crescimento de 27,6% no setor.

A concentração no petróleo mantém a economia exposta às oscilações dos preços internacionais e ao calendário de entrada de novos projetos de produção. Ao mesmo tempo, o governo utiliza parte das receitas petrolíferas para financiar obras públicas e ampliar a capacidade produtiva de outros setores.

Guiana

Ministro Sênior do Gabinete da Presidência, Ashni Singh | Foto: Divulgação

Importações ultrapassam US$ 10 bilhões

As importações de mercadorias da Guiana passaram de US$ 2,24 bilhões em 2020 para US$ 10,18 bilhões em 2025, segundo dados provisórios do Bureau of Statistics. Somente no ano passado, as compras externas cresceram 49,4%.

Os grandes projetos petrolíferos têm peso expressivo nesses números. Em 2025, as importações de navios, barcos e estruturas flutuantes somaram US$ 2,56 bilhões, aproximadamente um quarto do total. Combustíveis e lubrificantes responderam por US$ 1,31 bilhão, enquanto artigos de ferro e aço alcançaram US$ 763,7 milhões. Outros US$ 500,3 milhões foram destinados à compra de máquinas e equipamentos para engenharia e construção.

O ritmo das importações varia conforme a execução dos projetos. No primeiro semestre de 2026, as compras externas recuaram 23,4%, para US$ 4,52 bilhões. Segundo o Ministério das Finanças, a redução está relacionada principalmente à ausência de novas plataformas flutuantes de produção no período, diferentemente dos primeiros seis meses de 2025, quando a plataforma One Guyana chegou ao país.

Entre os produtos mais importados no primeiro semestre de 2026 estavam combustíveis e lubrificantes, com US$ 852,7 milhões; artigos de ferro e aço, com US$ 377,1 milhões; e máquinas e equipamentos para engenharia e construção, com US$ 336,7 milhões.

Participação brasileira recuou em 2025

A expansão das importações guianenses não foi acompanhada por um crescimento equivalente da participação brasileira. Segundo as estatísticas por país de origem do Bureau of Statistics, a Guiana importou US$ 299,1 milhões em mercadorias brasileiras em 2025, ante US$ 456,9 milhões em 2024, queda de 34,5%.

A participação do Brasil nas compras externas caiu de 6,7% para 2,9% no período.

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Arte: Suellen/PIM Amazônia

No primeiro semestre de 2026, o Brasil respondeu por US$ 184,5 milhões das importações guianenses, equivalentes a 4,1% do total. O percentual supera o registrado no fechamento de 2025, mas a comparação entre um semestre e um ano completo não permite afirmar que houve recuperação da participação brasileira.

As estatísticas de exportação também apresentam resultados diferentes conforme a fonte. Pela série da UN Comtrade utilizada para acompanhar as vendas brasileiras, as exportações do Brasil à Guiana cresceram 17,4% em 2025, alcançando US$ 450,2 milhões. A divergência em relação às importações registradas pelo governo guianense não foi esclarecida pelas fontes consultadas.

A indústria brasileira de equipamentos para petróleo está entre os segmentos que ampliaram suas relações comerciais com o país vizinho. Segundo levantamento da Associação Brasileira das Empresas de Bens e Serviços de Petróleo (ABESPetro), baseado em dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as exportações brasileiras totais para a Guiana acumularam aproximadamente US$ 1,8 bilhão entre 2020 e junho de 2026.

O presidente-executivo da associação, Telmo Ghiorzi, avalia que os equipamentos para exploração e produção de petróleo representam parcela expressiva desse comércio. Entre os produtos fornecidos pela indústria brasileira estão válvulas industriais, equipamentos submarinos e tubulações utilizadas nas operações offshore.

Para Ivan Gonzalo, analista de comércio exterior da Federação das Indústrias de Roraima e ex-coordenador-geral de Comércio Exterior da Suframa, há espaço para ampliar a presença dos produtos fabricados em Manaus no mercado guianense.

“As indústrias de Manaus demonstram pouco interesse pelo mercado exportador e, especificamente, pela Guiana”, afirmou em entrevista publicada pela PIM Amazônia em julho.

Segundo Gonzalo, empresas do Polo Industrial de Manaus produzem bens que já são comercializados na Guiana, como motocicletas e condicionadores de ar, mas ainda possuem uma estrutura de vendas direcionada principalmente ao mercado brasileiro.

Prospecção de investimentos

O crescimento da economia guianense também levou grupos empresariais brasileiros a avaliar oportunidades de investimento no país.

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Arte: Suellen/PIM Amazônia

Em março de 2026, representantes da Limppano, Ageo Terminais, Carpa Family Office, Arc Capital e Starboard participaram de reuniões com a agência de investimentos GO-Invest. A delegação incluiu representantes da família ligada ao grupo Cosan e executivos do setor financeiro.

Segundo comunicado da agência divulgado pela imprensa guianense, os encontros trataram de projetos de infraestrutura portuária, logística, serviços vinculados à energia e exploração de recursos naturais. Também foram discutidas possibilidades de investimento no corredor rodoviário entre Brasil e Guiana. Não houve anúncio de instalação de unidades industriais.

Em Roraima, o Sebrae promove missões empresariais para aproximar companhias locais do mercado guianense. Em abril, a analista de mercado Carol Schueng informou que participantes de missões anteriores haviam fechado negócios e que um dos empresários atendidos avançava na abertura de uma empresa na Guiana, com sócio identificado e preparativos para iniciar as operações. O Sebrae não divulgou o nome do empreendimento nem o valor do investimento.

Entre os participantes dessas iniciativas está Flávio Gomes, proprietário da Pau Brasil, que relatou ter conhecido as condições tributárias e os procedimentos para abertura de empresas durante visita ao país.

Em agosto, a Missão Empresarial Conexão Amazônia, organizada pela Editora Balponte, responsável pela PIM Amazônia, também realizou reuniões com a GO-Invest, o Ministério de Obras Públicas e representantes de empresas portuárias e logísticas.

No início de outubro, a estatal brasileira Infra S.A. anunciou entendimentos com a Embaixada da Guiana para apoiar a estruturação de projetos logísticos. A iniciativa envolve articulações com empresas brasileiras de infraestrutura e poderá facilitar a participação em futuras concorrências no país.

Ligação terrestre

O principal acesso terrestre entre o Norte do Brasil e a Guiana passa por Boa Vista, Bonfim e Lethem, seguindo pelo interior guianense até Georgetown. Embora a conexão exista, o percurso ainda possui trechos sem pavimentação e limitações que dificultam o transporte regular de cargas.

O governo guianense prevê intervenções no eixo Linden–Lethem, incluindo pavimentação e construção de pontes. A melhoria desse corredor é considerada importante para ampliar as ligações comerciais com Roraima e Amazonas.

Na infraestrutura marítima, o orçamento de 2026 reservou aproximadamente US$ 30,2 milhões para dragagem da foz do rio Demerara, onde estão localizados terminais que atendem Georgetown.

Brasil e Guiana mantêm o Acordo de Alcance Parcial de Complementação Econômica nº 38, assinado em 2001 e em vigor desde maio de 2004. O instrumento concede preferências tarifárias para determinados produtos, mediante cumprimento das regras de origem, mas não estabelece livre comércio integral.