Economia
Petroleira chinesa Cnooc sinaliza interesse na Foz do Amazonas após descoberta da Petrobras
Gigante estatal chinesa pede acesso integral ao processo de licenciamento no Amapá
Foto: Cezar Fernandes/Divulgação/ Petrobras
A petroleira chinesa Cnooc Petroleum Brasil solicitou ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) acesso integral ao processo administrativo referente ao licenciamento ambiental na Bacia da Foz do Amazonas.
A movimentação, confirmada por documentos obtidos pela CNN Brasil, foi protocolada pelo diretor-geral da companhia no país, Yehua Huang, e formaliza o interesse da indústria internacional nos desdobramentos operacionais da Margem Equatorial brasileira.
O requerimento foi apresentado dias após a Petrobras anunciar a identificação de hidrocarbonetos no poço exploratório Morpho, localizado no bloco FZA-M-59, a cerca de 175 quilômetros da costa do Amapá.

O bloco atua sob lâmina d’água de 2.886 metros, onde a estatal brasileira detém 100% de participação operadora desde a 11ª Rodada de Licitações da ANP, em 2013. Embora a presença de hidrocarbonetos confirme a tese geológica da bacia, análises complementares e novas perfurações ainda são necessárias para comprovar a viabilidade comercial das reservas.
Geopolítica da energia e expansão na margem equatorial
A iniciativa da Cnooc reflete um movimento estratégico mais amplo de multinacionais do setor de energia em direção à Margem Equatorial, considerada a principal nova fronteira exploratória do Brasil.
A Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) projeta que a região receba cerca de US$ 196 milhões em investimentos exploratórios em 2026, montante que corresponde a 22% do orçamento total destinado à exploração em bacias marítimas no país.
Além da Foz do Amazonas, a ANP aprovou a indicação de outros 86 blocos exploratórios distribuídos pelas bacias Pará-Maranhão e Barreirinhas para futuros estudos no modelo de Oferta Permanente.
A Petrobras obteve a licença do Ibama para a pesquisa no bloco FZA-M-59 no final de 2025, encerrando um rigoroso e longo processo de licenciamento ambiental antes de confirmar a descoberta recente.
Presença chinesa em águas profundas no Brasil
A busca por dados da Foz do Amazonas consolida a expansão contínua da Cnooc em ativos de alta produtividade no território nacional. A companhia estatal chinesa já participa de empreendimentos de grande porte no pré-sal brasileiro, como o campo de Mero, e arrematou recentemente o bloco Ametista em consórcio com a Sinopec no 3º Ciclo da Oferta Permanente de Partilha.
Pressão do MPF sobre o Ibama
Enquanto o interesse de grandes multinacionais cresce, a exploração na Foz do Amazonas enfrenta questionamentos regulatórios e jurídicos. No dia 17 de agosto deste ano, o Ministério Público Federal (MPF) enviou um ofício ao Ibama estipulando um prazo de cinco dias para que a autarquia preste esclarecimentos sobre o pedido da Petrobras para ampliar a Licença de Operação (LO) nº 1684/2025.
Emitida originalmente para um único poço, a licença agora é alvo de uma solicitação de expansão pela estatal para incluir três novos poços contingentes (Manga, PAD Morpho e Crotalus), além de testes de formação.
Segundo o MPF, a liberação de novas perfurações por meio de simples aditivo ou autorização administrativa descumpre as normas vigentes ao ignorar a soma dos impactos socioambientais cumulativos sobre a fauna, a flora e as comunidades tradicionais da zona costeira.
Além disso, o órgão ministerial aponta contradições entre os cronogramas divulgados publicamente, que previam seis meses de operação, e documentos internos que apontam atividades programadas até 2029. O posicionamento do MPF é respaldado por pareceres do próprio Ibama, que citam pendências técnicas não sanadas pela Petrobras, incluindo dúvidas sobre um incidente registrado durante a perfuração do poço Morpho e a necessidade de adequação no plano de resgate de fauna.
