Indústria
O modo de produzir na Amazônia mudou
Previsão dos rios entrou no radar da indústria de Manaus após secas severas
Secas de 2023 e 2024 trouxeram grandes lições para a indústria, comércio e poder público |
Ler revista“O modo de produzir na Amazônia mudou.” A avaliação é de Rafael Lourenço, de Relações Institucionais da Yamaha, ao explicar como a estiagem passou a interferir de forma mais direta no planejamento da indústria instalada em Manaus.
Depois das secas severas de 2023 e 2024, acompanhar o nível dos rios deixou de ser apenas uma preocupação dos operadores logísticos e entrou no radar das fábricas que dependem da navegação para receber insumos, manter estoques e programar a produção.
Na Yamaha, a estiagem já faz parte do planejamento industrial. Segundo Lourenço, a fabricante elaborou um plano para compra de insumos e preparação para o período de seca. A companhia também montou uma equipe para acompanhar a questão climática, analisando dados de diferentes fontes, como Labclim, Defesa Civil e outros órgãos técnicos.

“Hoje estamos em um momento em que o histórico que tínhamos pode não ser mais tão útil. A indústria está se adaptando”, afirma Lourenço.
A fala resume uma mudança de percepção no setor produtivo. A sazonalidade dos rios sempre fez parte da operação amazônica, mas os eventos recentes ampliaram o grau de incerteza. O histórico de cheias e vazantes continua relevante, mas já não basta, sozinho, para orientar decisões de estoque, compras, transporte e programação fabril.
Modelos hidrológicos, boletins técnicos, painéis de acompanhamento dos rios e dados de órgãos como Labclim, Defesa Civil, Serviço Geológico do Brasil (SGB) e Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) passaram a ter mais importância para empresas do Polo Industrial de Manaus (PIM). Essas informações podem ajudar a planejar estoques, fretes, embarques e alternativas operacionais durante a estiagem.
O uso, porém, ainda não ocorre de forma homogênea em todo o Polo. Há empresas que acompanham o tema com equipes próprias, outras que dependem de entidades setoriais, boletins públicos ou informações compartilhadas por autoridades. O ponto comum é que a seca deixou de ser tratada apenas como um risco eventual e passou a pesar mais no planejamento logístico.

Indústria projeta novo recorde de faturamento; estiagem é monitorada para evitar perdas | Foto: Divulgação
Duas Rodas monitora rios e navegação
No setor de Duas Rodas, um dos mais relevantes do PIM, a preocupação é direta. Segundo a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo), todas as associadas monitoram, em conjunto com as autoridades, o nível dos rios e as condições de navegação.
A entidade afirma que esse acompanhamento contínuo é fundamental para mitigar eventuais impactos na logística de transporte e no abastecimento dos centros de produção. A experiência adquirida durante a seca de 2023, segundo a Abraciclo, contribuiu para aprimorar o planejamento e a preparação da indústria diante de novos cenários de estiagem.
Naquele ano, o período se aproximava do fim com 20% da capacidade de produção afetada pelas restrições de navegação, que limitaram o acesso a peças e insumos. Também em 2023, os portos privados de Manaus ficaram mais de 70 dias sem receber navios com contêineres, gerando prejuízos para a indústria, o comércio e o poder público.
Segundo a Abraciclo, medidas adotadas pelos governos federal e estadual e pela iniciativa privada, como desburocratização, dragagens e instalação de portos flutuantes, ajudaram a melhorar a infraestrutura local e foram fundamentais para minimizar impactos da estiagem.
“Estamos mais preparados para antecipar riscos e avaliar as medidas necessárias para manter a continuidade das operações”, informou a entidade.
Cada fabricante, segundo a associação, tem seu próprio plano de contingência para minimizar os impactos da seca e garantir a continuidade do abastecimento, conforme as necessidades de sua operação.
Informação ainda chega de forma desigual
De acordo com o coordenador da Comissão de Logística do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam), professor doutor Augusto César Barreto Rocha, cada empresa acompanha o tema da estiagem por ferramentas próprias ou por meio de entidades setoriais, como o próprio Centro da Indústria.
“Cada empresa usa ferramentas próprias de monitoramento. Nós, do Cieam, trazemos os principais atores desse setor, em especial da ciência, para compartilhar informações com os associados, e com isso cada empresa toma sua decisão de maneira muito particular”, afirma Rocha.
Segundo ele, os setores industriais mais expostos são aqueles que dependem de grande volume de importação por contêiner. Duas Rodas, Eletroeletrônico e ar-condicionado estão entre os exemplos citados.
“A indústria se prepara para a estiagem fazendo estoques para que atendam às necessidades dos clientes e mantenham a prontidão do atendimento à demanda do comércio”, afirma.
Rocha diz que a possibilidade de transferência de estruturas portuárias para Itacoatiara é considerada provável, mas a decisão cabe aos terminais portuários em articulação com os órgãos reguladores.
O Cieam também tem mantido interlocução com órgãos como a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e a Capitania dos Portos, com foco na mitigação dos efeitos da seca sobre a navegabilidade.
“O que temos feito é uma interação muito forte com os reguladores, com a Antaq, com o DNIT, com a Capitania dos Portos, para em alguma medida mitigar os efeitos da seca em relação à condição de navegabilidade”, diz Rocha.
Para o especialista, a complexidade hidrográfica da região exige mais pesquisa aplicada e maior capacidade de antecipação.
“Nós temos a confiança de que há uma possibilidade forte de gestão do setor público em relação ao que se faz nas hidrovias da nossa região. Nossa região é muito grande, muito complexa, mas há uma possibilidade de fazermos trabalhos de pesquisa e desenvolvimento para compreender melhor a condição de navegabilidade”, afirma.
Modelos para prever rios e gargalos
Uma das fontes técnicas nesse ambiente de monitoramento é o Laboratório de Modelagem do Sistema Climático Terrestre (Labclim), ligado à Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Criado para estudar variações climáticas, mudanças climáticas, desmatamento e impactos ambientais, o laboratório passou a desenvolver modelos matemáticos, climáticos, hidrológicos e de inteligência artificial voltados à previsão de eventos extremos na Bacia Amazônica.
O Labclim faz previsões climáticas e hidrológicas com horizonte de três a quatro meses e integra o Comitê Técnico-Científico de Enfrentamento à Estiagem e Mudanças Climáticas. A cada 15 dias, o laboratório roda modelos que acompanham variáveis como chuva, temperatura, nível dos rios, vazão, armazenamento de água, umidade do solo e evaporação.
Segundo Francis Wagner, professor de Meteorologia da UEA e coordenador do Labclim, a proposta é transformar informação científica em ferramenta de apoio para governos, instituições públicas e empresas privadas.
“Quem usa nossos dados tem uma boa precisão para o planejamento do transporte fluvial, dos insumos do Polo Industrial”, afirma Francis.
O laboratório desenvolveu o HIRA, modelo hidrológico de resposta antecipada, usado para prever o nível dos rios em horizonte de até 60 dias. Também trabalha com modelos de inteligência artificial e prepara um aplicativo próprio, com lançamento previsto para setembro.
Uma das apostas do centro é o boletim logístico, que cruza informações de chuva, temperatura, níveis dos rios, modelos de previsão e cenários de navegação. Segundo Leonardo Vergasta, meteorologista e doutor em Clima e Ambiente, o produto foi construído com base em cenários validados em comparação com secas extremas anteriores e com informações obtidas em reuniões com práticos, armadores, empresas de cabotagem e agentes ligados à navegação.

Estruturas provisórias devem ser adotadas novamente em 2026 | Foto: Divulgação
“Esse tipo de informação traz para você um planejamento estratégico, não somente pela questão de navegação, mas de você pagar um frete a mais ou fazer um tipo de alívio de carga, ou deslocamento de balsa, como aconteceu em 2024”, afirma Vergasta.
Seca prevista, mas não como 2023 e 2024
A leitura dos pesquisadores é que 2026 deve ter seca, mas sem repetir, até o momento, os níveis extremos registrados em 2023 e 2024. A avaliação exige cautela porque o sistema hídrico amazônico é complexo e diferentes rios da bacia podem se compensar.
O El Niño já aparece como fator relevante. Segundo o Labclim, a anomalia de temperatura no Pacífico chegou a cerca de 1,8 grau acima da média, condição classificada tecnicamente como El Niño forte. A expectativa é que, a partir da segunda quinzena de setembro, o fenômeno entre em categoria muito forte.
Ainda assim, Wagner e Vergasta apontam que outras variáveis hidrológicas estão em situação melhor do que em anos extremos. O Madeira e o Juruá, por exemplo, vêm sendo monitorados dentro da normalidade. O Solimões também segue com descida dentro do padrão esperado.

Arte: PIM Amazônia
O ponto de atenção está no Rio Negro e em gargalos específicos da navegação entre Itacoatiara e Manaus, especialmente Tabocal e Enseada do Madeira.
Segundo Vergasta, os modelos indicam que, a partir da segunda quinzena de setembro, os navios devem começar a sofrer restrições de calado nessas regiões. O laboratório projeta que, em determinado momento de setembro, o Tabocal poderá apresentar calado inferior a nove metros.
“Hoje nós estamos em uma condição, tanto com relação às chuvas quanto em termos hidrológicos, bem melhores do que esses anos que foram extremos”, afirma Vergasta. “Mas, possivelmente, a partir de setembro, vai ter restrição de calado.”
Marinha vê incerteza operacional
A Capitania dos Portos da Amazônia Ocidental também acompanha o cenário com atenção. O capitão de Mar e Guerra André Lysâneas Teixeira Carvalhaes afirma que a vazante do Rio Negro, em agosto, estava mais intensa do que a observada em 2023 no mesmo período. Mas ressalta que isso não significa, por si só, uma repetição das secas extremas de 2023 e 2024.

Capitania dos Portos projeta restrições na navegação a partir de setembro | Foto: Divulgação
“Pela observação dos fatos, nossa previsão é de que, provavelmente, na segunda quinzena de setembro, comecem as primeiras restrições”, afirma.
Segundo ele, alguns centímetros a menos no calado já podem obrigar armadores a aliviar carga. A decisão, muitas vezes, precisa ser tomada antes mesmo de o navio chegar ao Brasil.
“Muitas vezes, quem vem da China precisa tomar a decisão 40 dias antes. Como eu não consigo garantir se haverá ou não restrição, o operador precisa considerar essa possibilidade e talvez aliviar a carga ainda na China ou em outros portos, porque a viagem leva cerca de 40 dias”, explica.
A dragagem é uma das variáveis que pode alterar o cenário. Segundo Carvalhaes, mesmo com uma vazante mais acentuada, a realização de dragagens pode reduzir ou evitar restrições em determinados pontos.
“Por enquanto, há, sim, um cenário de incerteza. Estamos esperando uma definição sobre a dragagem e acompanhando também o comportamento do clima e dos rios, para saber se vamos continuar com esse ritmo intenso de vazante”, afirma. “Se continuar, teremos uma situação pouco favorável para a navegação e para o comércio aqui em Manaus.”
Fontes oficiais e boletins técnicos
A Abraciclo afirma que suas associadas acompanham atentamente as condições climáticas e os possíveis impactos sobre a operação do Polo de Duas Rodas. Para isso, utilizam fontes oficiais, como os relatórios da Defesa Civil do Amazonas.
Segundo a entidade, esses documentos apresentam análise do comportamento das chuvas, das condições oceânicas e dos prognósticos climáticos para o trimestre seguinte à emissão. As informações são baseadas em dados de instituições como Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres (Cenad), SGB, Censipam, UEA e ANA.
A Defesa Civil do Amazonas também atua no monitoramento permanente das condições meteorológicas e hidrológicas do Estado. O trabalho utiliza informações próprias e dados produzidos por instituições parceiras.
Atualmente, a Defesa Civil produz um Boletim de Estiagem, compartilhado em grupos de trabalho criados para acompanhar o período de seca. Nesses grupos, empresas e instituições indicam representantes.

Arte: PIM Amazônia
As informações subsidiam articulações conforme a necessidade e o cenário hidrológico. Segundo a Defesa Civil, os dados podem contribuir para o planejamento logístico de empresas que dependem do transporte fluvial, da movimentação de insumos e combustíveis e de outras operações sensíveis aos ciclos de cheia e vazante dos rios.
Como resultado de reuniões técnicas e do repasse antecipado de informações sobre o comportamento dos rios, foi reativado neste ano o porto provisório na região do Tabocal, em Itacoatiara. A medida permite ao setor produtivo se antecipar aos impactos da estiagem e adotar alternativas logísticas para reduzir prejuízos e manter operações.
A Defesa Civil também mantém o Painel de Monitoramento Hidrometeorológico, que reúne dados de estações meteorológicas e fluviométricas, níveis dos rios, precipitação, temperatura, umidade relativa do ar e séries históricas hidrológicas.
Neste momento, porém, algumas ferramentas e canais de divulgação institucional, incluindo o Painel do Clima, estão temporariamente desativados por causa das vedações previstas para o período eleitoral. A Defesa Civil informou que já solicitou à Procuradoria-Geral do Estado autorização para publicar boletins e reativar o painel, em razão do caráter técnico, preventivo e de interesse público das informações.
Portos provisórios e decisões antecipadas
A possibilidade de transferência de estruturas portuárias para Itacoatiara voltou ao centro da discussão neste ano. Em 2024, durante a seca histórica, a operação foi adotada para permitir a continuidade da movimentação de cargas, com uso de estruturas provisórias e transbordo para balsas.
O Labclim chegou a enviar nota técnica ao Super Terminais indicando 15 de agosto como data limite para a transferência segura de um píer flutuante, considerando o tempo necessário para o processo operacional.
Para a Marinha, a operação pode ser feita durante o período da seca, quando as correntes são menores, mas exige avaliação específica no momento da execução.
“Existe uma margem boa para isso ser realizado. É claro que, no momento em que os portos disserem que vão fazer o que têm intenção de fazer, nós vamos avaliar a situação. A questão será decidir se haverá necessidade do apoio de um, dois, três ou quatro rebocadores para dar mais segurança à manobra”, afirma Carvalhaes.
Segundo ele, a transferência não é, por si só, uma restrição do ponto de vista da segurança. Quanto mais adversas forem as condições, maior será a necessidade de medidas de mitigação de risco.
Laboratório busca financiamento
Apesar do avanço no uso de tecnologia climática, o Labclim ainda busca recursos para manter e ampliar suas atividades. Hoje, segundo Vergasta, o laboratório é financiado principalmente pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), com apoio previsto até o fim deste ano ou início do próximo.
O laboratório tenta viabilizar convênios com empresas do Polo Industrial, companhias de navegação, comércio e instituições públicas. Também apresentou ao Cieam um projeto de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I), já protocolado na Suframa e enquadrado na Lei de Informática.

Laboratório de Modelagem do Sistema Climático Terrestre (Labclim) | Crédito: Kamilly Pequeno
O projeto, segundo Vergasta, prevê cerca de R$ 6,5 milhões para manter o Labclim funcionando por 24 meses, incluindo equipe, data center e monitoramentos.
“Estamos tentando conseguir convênios, tanto pela Suframa, pelas empresas do Polo Industrial com PD&I, quanto por qualquer empresa do comércio e navegação para apoiar o Labclim, manter a equipe trabalhando, manter o data center e os monitoramentos”, afirma.
O dado expõe o distanciamento entre a tecnologia disponível e sua incorporação direta por parte do setor produtivo. O laboratório já coopera com Super Terminais, Atem e Defesa Civil Municipal, mas ainda não tem empresas do Polo Industrial entre seus parceiros diretos.
