Indústria
Rumo a R$ 2 bi: Manaus acelera ofensiva no setor farmacêutico
Levantamento da PIM Amazônia identifica cerca de R$ 850 milhões entre investimentos realizados e valores previstos em projetos industriais aprovados; nova fábrica anunciada pela EMS pode levar movimento a R$ 1,85 bilhão
Manaus já reúne cerca de R$ 850 milhões entre investimentos realizados e valores previstos em projetos aprovados para a indústria farmacêutica. Entram nessa conta a expansão recém-concluída da Novamed e empreendimentos de Brainfarma, Vitamedic, Bioamazonas e Quanturion identificados em decisões do Conselho de Administração da Suframa (CAS) e do Conselho de Desenvolvimento do Estado do Amazonas (Codam).
Há outro R$ 1 bilhão no horizonte. A EMS confirmou neste ano o plano de construir uma nova fábrica de comprimidos na capital amazonense, anexa à Novamed. Se o investimento avançar nos valores anunciados, a carteira associada ao setor chegará a aproximadamente R$ 1,85 bilhão. A empresa pretende ampliar novamente sua capacidade de produção até 2028.

Novamed foi incorporada pela EMS em 2014 | Foto: Divulgação
A soma não significa que Manaus já tenha um polo farmacêutico consolidado. Hoje, entre os projetos para medicamentos sólidos reconhecidos pela Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), apenas a Novamed está em operação. Brainfarma, controlada pela Hypera Pharma, e Vitamedic estão em implantação, segundo informação da autarquia à PIM Amazônia.
Bioamazonas e Quanturion ampliam a carteira quando são incluídos no levantamento os projetos aprovados no âmbito estadual, aqueles aprovados pelo Codam.
A maior fatia entre os novos projetos é da Bioamazonas. A empresa obteve aprovação estadual para implantação em 2024, quando o projeto estava dimensionado em R$ 358,6 milhões. Uma atualização aprovada pelo Codam no ano seguinte reduziu o valor para cerca de R$ 333,7 milhões, com previsão de 46 postos de trabalho. O projeto é destinado à fabricação de medicamentos de uso humano.
A Brainfarma teve o projeto original de implantação aprovado pelo Codam em agosto de 2024 e recebeu posteriormente a aprovação federal da Suframa para produção de medicamentos sólidos. A atualização mais recente apresentada ao conselho estadual dimensiona o empreendimento em aproximadamente R$ 81,9 milhões, com 30 empregos previstos. A Suframa confirma que a fábrica ainda está em implantação.
A Vitamedic recebeu em agosto de 2025 a aprovação do CAS para instalar uma fábrica de medicamentos sólidos. O projeto prevê R$ 91,2 milhões e 52 empregos. A resolução de implantação continua entre os atos vigentes publicados pela Suframa.
Mais recente, a Quanturion Latam Pharma entrou na pauta do Codam em junho deste ano. O projeto de implantação soma cerca de R$ 42,9 milhões, com 30 empregos previstos e linhas que incluem medicamentos sólidos e preparações destinadas a outros segmentos. A empresa recebeu os incentivos estaduais, mas ainda não aparece entre os projetos de medicamentos sólidos que a Suframa informou considerar aprovados na esfera federal.
Completa a primeira parte dessa conta a Novamed. A empresa do Grupo EMS concluiu em setembro um pacote de R$ 300 milhões, dos quais R$ 270 milhões foram destinados à ampliação industrial e R$ 27,5 milhões ao novo Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação.

Arte: Suellen/PIM Amazônia
A expansão elevou em 30% a área fabril e a companhia projeta aumentar a produção dos atuais 1,7 bilhão para até 2,5 bilhões de comprimidos por mês. A unidade emprega 1.160 pessoas e prevê aproximadamente 840 novas contratações nos próximos dois anos.
Somados, esses cinco empreendimentos chegam a aproximadamente R$ 849,7 milhões.
O aporte de R$ 1 bilhão anunciado pela EMS fica em uma categoria diferente. A nova fábrica ainda não aparece na carteira de projetos aprovados utilizada neste levantamento. O grupo confirmou à PIM Amazônia que pretende instalar uma nova planta em Manaus e ampliar a produção de comprimidos até 2028.

Arte: Suellen/PIM Amazônia
Movimento
A Suframa afirma que seus indicadores industriais não possuem um subsetor oficialmente denominado “Polo Farmacêutico”. O enquadramento é feito de acordo com os produtos cadastrados na autarquia, conforme as regras da Portaria Suframa nº 1.701/2024.
Mas o termo “polo” descreve neste momento uma estratégia de formação de cadeia com forte potencial de expansão.
Para a autarquia, os projetos atuais podem abrir espaço para fornecedores e serviços especializados. A expectativa oficial é que, em uma etapa posterior, a produção industrial se aproxime das competências científicas instaladas na Amazônia, com pesquisa em biotecnologia, química fina e produtos associados à biodiversidade.

Se implantados, projetos atuais podem abrir espaço para fornecedores | Foto: Divulgação
Reforma Tributária entra na decisão
A nova rodada de projetos coincide com a transição para o sistema tributário criado pela Reforma Tributária.
A Lei Complementar nº 214 estabeleceu redução de 60% nas alíquotas de IBS e CBS para medicamentos registrados na Anvisa, além de prever alíquota zero para determinadas situações. Como o tratamento dos medicamentos tem alcance nacional, essa redução isoladamente não explica por que uma fábrica escolheria Manaus em vez de São Paulo, Goiás ou Paraná.
O diferencial, segundo Gustavo Faviero, advogado e sócio da AMFF, aparece quando o regime nacional dos medicamentos é combinado com as regras específicas preservadas para a Zona Franca de Manaus.
“O diferencial competitivo da ZFM reside nos benefícios fiscais inerentes à instalação da empresa na região. Redução de alíquota não garante o tratamento diferenciado”, afirma.
Faviero cita entre os instrumentos o tratamento do IPI, os créditos presumidos de IBS e CBS e as regras aplicáveis às operações destinadas à Zona Franca. A regulamentação da reforma manteve mecanismos próprios para as indústrias incentivadas de Manaus, ao mesmo tempo em que inicia a retirada do IPI do restante da economia a partir de 2027, ressalvados os produtos com fabricação na ZFM.
A existência do incentivo não permite, porém, fixar uma vantagem única para toda farmacêutica. Faviero afirma que é necessário analisar cada operação para saber o ganho efetivo com a instalação em Manaus. Neste caso, entram no cálculo o medicamento produzido, os insumos utilizados e os créditos presumidos que a empresa poderá aproveitar.
“É importante que seja feito um estudo comparativo para a instalação da empresa para a quantificação do ganho real”, diz.
A cronologia dos projetos também não permite atribuir toda a movimentação atual plenamente à reforma. A Bioamazonas teve a implantação aprovada pelo Codam em abril de 2024. O projeto estadual da Brainfarma veio em agosto do mesmo ano. A Vitamedic recebeu a aprovação federal em 2025. A Novamed produz em Manaus desde 2014.
O novo sistema tributário entra agora na análise de investimentos de longo prazo, principalmente daqueles que ainda estão sendo prospectados.
Prospecções
Em setembro, o Amazonas realizou em São Paulo a primeira edição do Amazonas Invest Farma, encontro voltado diretamente à apresentação da Zona Franca para empresas do setor. O evento reuniu cerca de 160 participantes e representantes de aproximadamente 30 indústrias farmacêuticas, segundo o balanço divulgado pelos organizadores.
Incentivos, infraestrutura logística, pesquisa, bioeconomia e áreas para instalação industrial estão entre os pontos apontados como atrativos da capital do Amazonas.
Um estudo sobre o perfil das cargas movimentadas pelo Aeroporto Internacional Eduardo Gomes aponta que a área farmacêutica aparece como um dos segmentos de interesse por depender de velocidade, rastreabilidade e estruturas com controle de temperatura.
A concessionária passou a apresentar também áreas disponíveis dentro do sítio aeroportuário para atividades industriais e de distribuição. Atualmente, 82% dos insumos que chegam a Manaus por via aérea têm origem na Ásia.
A estratégia levou representantes do Amazonas à FCE Pharma em São Paulo a partir de 2024. Neste ano, a agenda foi ampliada e desembocou no Amazonas Invest Farma.
Por enquanto, os números mostram capital entrando e uma carteira de projetos maior do que havia há poucos anos. Eles também mostram a distância entre aprovação e produção. Dos três projetos de medicamentos sólidos reconhecidos hoje pela Suframa, dois ainda estão sendo implantados.

Brainfarma está com planta em fase de instalação em Manaus | Foto: Divulgação
Os próximos movimentos serão decisivos. A nova fábrica anunciada pela EMS, se confirmada nos valores previstos, leva sozinha a carteira para perto de R$ 2 bilhões. Brainfarma e Vitamedic precisam transformar projetos aprovados em produção. Bioamazonas e Quanturion ainda têm etapas a cumprir além da aprovação estadual.

