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Insegurança transforma proteção de cargas em “custo invisível” na logística fluvial da Amazônia

Gastos com segurança dobraram em cinco anos em alguns operadores logísticos, enquanto transportadoras mantêm escoltas em rotas de maior risco e relatam dificuldades com seguros

Escolta armada, rastreamento por satélite, telemetria, câmeras e gerenciamento de risco deixaram de ser medidas excepcionais em parte da navegação comercial na Amazônia. Depois de uma sequência de ataques a embarcações, principalmente no transporte de combustíveis, empresas passaram a incorporar gastos com segurança à estrutura regular de determinadas operações.

O tamanho dessa conta varia conforme a rota, o tipo e o valor da carga, o grau de exposição ao roubo e as exigências de seguradoras.

Também não existe um único responsável pelo custo. Enquanto uma parcela é suportada pelo transportador, outra pode caber ao proprietário da mercadoria e parte entra na composição do frete. No final, o impacto sobre o preço depende de como esses custos são distribuídos ao longo da cadeia.

O aumento da preocupação com a segurança ganhou força em 2022, segundo o Sindicato das Empresas de Navegação Fluvial do Amazonas (Sindarma). Naquele ano, os prejuízos com roubo de combustíveis e outras mercadorias superaram R$ 20 milhões.

Entre as empresas associadas que comunicaram os casos ao sindicato e apresentaram boletins de ocorrência, foram registrados dez episódios em 2022, sete em 2023, três em 2024 e dois em 2025. A série não representa a totalidade dos crimes ocorridos no Amazonas, mas indica queda entre as transportadoras acompanhadas pela entidade.

A redução dos registros, porém, não encerrou o problema. Durante a TranspoAmazônia, realizada em maio deste ano, o presidente do Sindarma, Galdino Alencar Jr., afirmou que as escoltas reduziram a capacidade de ação das quadrilhas, mas não eliminaram as tentativas.

“Hoje são as empresas que estão arcando, com recursos próprios, essas escoltas que reduziram o sucesso das quadrilhas, mas não acabaram com as tentativas que seguem diárias e em todos os lugares, até na frente de Manaus”, afirmou.

Segundo Alencar, a escalada da insegurança chegou a levar seguradoras a recusar a renovação de contratos para determinadas operações de maior distância. A consequência foi a transferência de uma parcela maior da proteção diretamente para as empresas de transporte.

Da escolta à telemetria

A resposta ao risco não é igual em todas as rotas. Fábio Gobeth, assessor da Presidência da Federação das Empresas de Logistica, Transporte e Agenciamento de Cargas da Amazônia (Fetramaz), afirma que os gastos da companhia relacionados à segurança praticamente dobraram nos últimos cinco anos.

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Combate à criminalidade ganhou estruturas, mas desafio ainda é grande | Foto: Divulgação

Parte desse aumento veio de investimentos em telemetria, câmeras online, sistemas de monitoramento e comunicação via satélite, inclusive por meio da Starlink.

A empresa recorreu à escolta armada, mas suspendeu o serviço recentemente em algumas operações nos rios Amazonas e Solimões após avaliar uma redução do risco nesses trechos.

Situação é diferente no Madeira

“Para quem opera no Rio Madeira não é possível fazer isso, precisa de escolta armada. E isso vale principalmente para as cargas de combustíveis”, afirma Gobeth.

A diferença entre as operações mostra uma característica central desse custo: não há uma tarifa única de segurança. A despesa é determinada pela combinação entre carga, rota, histórico de ocorrências e medidas exigidas para reduzir o risco.

Gobeth estima que os sistemas de segurança representem entre 0,5% e 1% do valor do frete em determinadas operações da transportadora Bertolini, sem considerar o ad valorem, parcela calculada em função do valor da mercadoria transportada e dos riscos associados à operação.

Para as transportadoras, esses gastos entram na formação do preço do serviço. “Nenhuma transportadora absorve custo nenhum. As margens de transporte são sempre apertadas, então seja segurança, seja pedágio, seja o que for, isso é sempre automaticamente repassado para o preço”, diz.

O repasse ao frete, no entanto, não significa que cada real gasto em segurança seja transferido integralmente ao consumidor final. Entre a transportadora e o preço de venda de uma mercadoria existem contratos, margens e diferentes elos da cadeia.

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Transporte de combustíveis ganhou reforço armado para reduzir número de roubos | Foto: Divulgação

O que a insegurança faz é acrescentar uma despesa que passa a integrar a equação econômica do transporte.

Combustível concentra exposição

O transporte de combustíveis reúne alguns dos maiores riscos. Além do valor da carga, ataques armados colocam a tripulação em perigo e podem gerar acidentes com consequências ambientais.

Madison Nóbrega, proprietário da Navegação Nóbrega, afirma que a adoção de segurança armada pelas transportadoras e distribuidoras contribuiu para reduzir os roubos, mas não encerrou as tentativas.

A preocupação aumenta durante confrontos em embarcações carregadas com gasolina e diesel. Para Nóbrega, operações policiais pontuais não são suficientes para oferecer segurança às principais rotas.

“Não adianta o governo do Estado fazer uma operação um dia aqui, outra ali. Isso não resolve o problema. Tinha que ter umas bases, como tem a Base Arpão, ao longo do rio. Pelo menos três bases dessas”, afirma.

O executivo cita Nova Olinda do Norte, Manicoré e Humaitá, no interior do Amazonas, como pontos onde estruturas permanentes poderiam reforçar o policiamento fluvial.

A estiagem acrescenta outra variável. Com a redução do nível dos rios, a navegação fica concentrada em canais mais restritos e as viagens podem se tornar mais lentas.

Segundo o Sindarma, essas condições ampliam a necessidade de proteção em determinadas operações, sobretudo no transporte de combustíveis.

Custo do seguro

A insegurança também chega à estrutura de seguros, embora não exista um percentual que possa ser aplicado indistintamente a todas as operações.

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Fonte: PIM Amazônia

Luís Fernando Resano, diretor-executivo da Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem (ABAC), explica que é preciso separar pelo menos três frentes: o seguro de casco e máquinas da embarcação; a proteção e indenização, conhecida no setor como P&I, relacionada às responsabilidades do armador; e o seguro da própria carga.

O custo depende do valor da mercadoria, das características da operação, da rota e das medidas de monitoramento exigidas.

“É bastante difícil indicar um percentual devido a inúmeras variáveis”, afirma Resano.

Em condições normais, segundo ele, os custos relacionados aos seguros não ultrapassam 10% do custo operacional do navio, embora a participação varie conforme a operação e o tipo de cobertura.

O período de estiagem pode modificar essa equação. Resano afirma que alternativas utilizadas durante as secas severas, como píeres flutuantes e transbordo para barcaças, contribuíram para elevar o custo do seguro da carga.

Na cabotagem, essa cobertura é geralmente contratada pelo proprietário da mercadoria. Isso ajuda a explicar por que a despesa provocada pela insegurança não aparece necessariamente concentrada no frete cobrado pelo transportador. Ela pode estar distribuída entre diferentes participantes da operação logística.

Quanto custa uma escolta

A expansão das medidas de proteção também criou demanda para empresas de segurança privada. Vanney de Queiroz, diretor-executivo da Kadosh Segurança Privada, afirma que a procura por escolta armada cresceu nos últimos anos, impulsionada pelo roubo de cargas e pela pirataria fluvial.

Não existe, porém, uma tabela capaz de representar todas as operações. A empresa informou, como referência, cobrar cerca de R$ 2,5 mil por uma diária em determinados serviços. Uma escolta fluvial de maior porte exige orçamento próprio.

“Não existe tabela fixa. O preço é calculado por diária, quilometragem ou operação, somando equipe, veículos ou embarcações, armamento e planejamento”, afirma.

No transporte fluvial, o serviço pode envolver a proteção de comboios, balsas e navios durante a navegação, o fundeio e operações portuárias. A definição da estrutura necessária começa pela análise da rota, do valor e das características da carga.

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Operadores logísticos pedem aumento no número de bases fluviais | Foto: Divulgação

O Sindarma defende ainda a criação de uma Polícia Fluvial Federal, nos moldes da Polícia Rodoviária Federal, além da instalação de bases permanentes, investimentos em inteligência e equipamentos adequados ao enfrentamento das quadrilhas.

No Amazonas, o governo estadual mantém estruturas de segurança nos rios, com as chamadas Bases Arpão. Em março, a Secretaria de Segurança Pública anunciou o envio da Base Fluvial Arpão 1 para Jutaí, no interior do Estado. A unidade tem atuação mais ampla, direcionada ao combate ao narcotráfico, crimes ambientais, biopirataria e patrulhamento de comunidades ribeirinhas.

Mesmo com a redução das ocorrências comunicadas ao Sindarma desde 2022, parte das empresas continua mantendo uma estrutura privada de prevenção.

Com a medida, o custo entra na conta somando escolta, monitoramento, equipamentos, seguro, planejamento da rota e gerenciamento de risco.

Seca adiciona etapas à operação e encarece o seguro

A estiagem não aumenta apenas o tempo de viagem ou restringe o calado dos navios. Quando o nível dos rios impede que embarcações de maior porte cheguem a Manaus com segurança, a operação logística pode ganhar etapas adicionais, com reflexos também sobre o seguro da carga.

A Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem (ABAC) explica que soluções alternativas adotadas durante períodos de seca, como o uso de píeres flutuantes e o transbordo para balsas, contribuem para uma elevação do custo do seguro da carga.

A razão está na própria complexidade da operação. Em vez de seguir diretamente até o terminal de destino, a carga precisa ser movimentada novamente.

Contêineres são retirados do navio, transferidos para balsas e seguem em embarcações de menor calado até Manaus. Cada movimentação acrescenta manuseio, equipamentos, pessoal e uma nova etapa de transporte, ampliando a exposição operacional que precisa ser considerada pelas empresas e seguradoras.

Esse modelo foi colocado em prática em grande escala pela primeira vez durante a seca de 2024. Chibatão e Super Terminais deslocaram estruturas flutuantes para Itacoatiara, onde a profundidade do rio ainda permitia a atracação dos navios. A partir dali, cargas eram transbordadas para balsas que completavam o percurso até Manaus.

Segundo a Antaq, entre setembro e novembro de 2024, o píer flutuante instalado em Itacoatiara respondeu por 57,9% da movimentação total de Chibatão e Super Terminais no período.
Para 2026, uma segunda mobilização desse tipo está sendo preparada, caso a evolução da vazante torne novamente necessário o transbordo em Itacoatiara.

O Grupo Chibatão informou que mantém sua estrutura disponível para deslocamento, enquanto o Super Terminais também trabalha com essa possibilidade. A operação, portanto, funciona como uma alternativa para manter o fluxo de cargas durante períodos críticos, mas acrescenta etapas e custos a uma cadeia logística que, em condições normais de navegabilidade, seria mais direta.

Por: Silvio Lima