Conexão Amazônia
Guiana abre rota logística para Roraima e entra no radar do Polo de Manaus
Setor produtivo estima redução de 30% no custo logístico de Roraima, enquanto Suframa vê corredor como alternativa complementar para cargas do PIM
A expansão econômica da Guiana, impulsionada pelo petróleo, abriu uma nova discussão logística no Norte do Brasil. Na fronteira com Roraima, o país vizinho já é visto como alternativa para escoamento de produtos agrícolas e entrada de insumos. Para o Amazonas, a possibilidade de acesso aos portos guianenses abre espaço para uma rota complementar para o Polo Industrial de Manaus (PIM) em direção ao Atlântico, ao Caribe, à América do Norte e à Europa.
A rota ainda depende de infraestrutura e escala comercial, por exemplo, mas já existem investimentos em curso. A ligação terrestre pela BR-401, a partir de Bonfim, em Roraima, permite chegar a Lethem, na Guiana, e avançar em direção a Georgetown. A conclusão dos trechos ainda não pavimentados no lado guianense e a definição de regras para o transporte internacional de cargas são consideradas etapas centrais para transformar o corredor em alternativa regular.
Para Murilo Ferrari, da Associação Brasileira de Produtores de Soja (Aprosoja), a possibilidade de utilizar Georgetown como saída para a produção agrícola representa uma oportunidade especialmente relevante para Roraima. Segundo ele, a localização geográfica do Estado cria vantagem em relação às rotas hoje utilizadas.

“Nós, produtores de soja, temos uma dificuldade logística muito grande. E com essa saída pela Guiana vai ser a nossa salvação aqui com relação à logística. Nós estamos, na verdade, mais próximos de Georgetown do que de Manaus e com uma vantagem muito grande em relação às embarcações, então vai ser a nossa salvação logística aqui”, afirma Ferrari.
A estimativa apresentada pela Aprosoja é de que a utilização da rota pela Guiana possa representar redução de aproximadamente 30% nos custos logísticos de Roraima. O cálculo considera tanto o transporte de produtos destinados à exportação quanto a entrada de fertilizantes e outros insumos usados pelo setor agrícola.
“Em termos de custo e tempo, a gente estima que esse tempo e o custo, a gente economizaria 30% hoje do custo logístico do Estado. Com certeza, tanto para exportação dos nossos produtos quanto para importação de fertilizantes, insumos agrícolas, haverá uma redução do custo logístico muito grande e isso vai aumentar a rentabilidade do produtor aqui do Estado”, diz.

Foto: PIM Amazônia
A projeção, por enquanto, é uma estimativa do setor produtivo e depende da conclusão da infraestrutura e da criação de condições comerciais para a operação regular da rota. Ferrari pondera que a vantagem não se aplica da mesma forma a todos os estados da Região Norte.
“Rondônia está a 800 quilômetros de Manaus, ou seja, está a 1.600 quilômetros de Boa Vista e a 2.250 quilômetros de Georgetown. Então não compensaria vir até Georgetown para fazer escoamento. Ele já tem uma logística fluvial muito boa, via Rio Madeira, que deságua lá no Amazonas, e daí faz a logística toda por Itacoatiara”, exemplifica.
Roraima já usa a rota
A relação comercial entre Roraima e Guiana já ultrapassou a fase de potencial. Segundo Ilaine Henz, da Câmara de Comércio Brasil-Guiana, empresas do Estado utilizam a estrutura portuária guianense para movimentar produtos como farelo, carne, bebidas e frutas.
O desafio, segundo ela, está em criar fluxo também no sentido contrário. A carga de retorno é considerada fundamental para que o transporte seja economicamente sustentável.
“Hoje Roraima exporta farelo, carne, já alguma bebida. Nós temos exportação de frutas. Hoje Roraima está utilizando essa estrutura portuária e marítima disponível. Qual é o gargalo e o grande desafio? É o caminho de volta. Quando a gente estrutura a questão logística, você tem a logística; um caminhão indo carregado e ele precisa voltar carregado”, afirma Henz.
Dados apresentados pelo Governo de Roraima mostram que as exportações do Estado para a Guiana passaram de US$ 1,6 milhão em 2018 para US$ 36,4 milhões em 2024. No primeiro semestre de 2025, o volume já havia alcançado US$ 21,7 milhões. Derivados de soja, carnes, milho e máquinas estão entre os produtos exportados, enquanto fertilizantes aparecem com destaque nas importações.
Para a representante da Câmara de Comércio, é nesse ponto que o Amazonas pode ganhar importância. O aumento do fluxo de mercadorias entre o Polo Industrial de Manaus e a Guiana poderia ajudar a equilibrar a movimentação de cargas e ampliar a utilização da infraestrutura portuária guianense.
“A longo prazo, o caminho é a gente viabilizar, e aí eu penso que realmente o porto junto com a indústria do Amazonas será vital nesse processo de estruturação. Então é um corredor logístico. É matéria-prima indo de Roraima ou vindo do Amazonas levando até o porto. Só que esse caminho inverso precisa acontecer”, afirma.
Suframa vê rota complementar para o PIM
A Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) avalia que a Guiana pode se tornar uma rota complementar para o Polo Industrial de Manaus, hoje dependente principalmente do transporte fluvial pela Bacia Amazônica e de conexões marítimas por portos como Vila do Conde, no Pará.

Polo Industrial pode se beneficiar de rota complementar | Foto: Secom
A leitura da autarquia é que a ligação com Georgetown abriria uma saída adicional para o Atlântico, o Caribe, a América do Norte e a Europa. A rota também poderia reduzir a exposição da indústria aos impactos das estiagens, que nos últimos anos passaram a afetar com mais intensidade a navegação nos rios amazônicos.
“A principal vantagem desse corredor é a redução do tempo de trânsito. Estima-se que a saída via Georgetown possa reduzir em até quatro a sete dias o tempo de viagem até portos nos Estados Unidos e na Europa”, avalia a Suframa.
Segundo a autarquia, os segmentos de eletroeletrônicos e informática, duas rodas, agroindústria e alimentos pro
cessados estão entre os que poderiam se beneficiar da nova conexão. Embora o transporte rodoviário possa ter custo por tonelada superior ao fluvial, a redução do tempo de viagem e o ganho de previsibilidade podem compensar a diferença para determinados produtos.
Na avaliação da Suframa, Boa Vista e Bonfim podem assumir papel de eixo logístico entre o PIM e a Guiana, compotencial para concentrar centros de distribuição, armazenagem e estruturas de processamento. A consolidação do corredor, porém, ainda depende da conclusão da pavimentação entre Lethem e Linden, de melhorias na infraestrutura brasileira e na ponte sobre o Rio Tacutu, além da harmonização de procedimentos aduaneiros e sanitários.
A Suframa informa que acompanha as discussões da Rota Ilha das Guianas, no âmbito das Rotas de Integração Sul-Americana, e articula o tema com os governos do Amazonas e de Roraima e entidades do setor produtivo.
Infraestrutura ainda limita escala
A transformação da rota em corredor comercial de maior escala depende de avanços em infraestrutura e regulamentação. O trecho entre Lethem e Mabura Hill, na Guiana, ainda demanda obras de pavimentação. A conclusão da ligação até Linden é apontada como etapa importante para conectar Georgetown à rede rodoviária que chega a Boa Vista e, posteriormente, a Manaus.
Em 2025, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) informou que Brasil e Guiana avançavam na regula mentação das licenças necessárias para que transportadoras de cargas e passageiros pudessem operar legalmente nos dois territórios. Em dezembro, a agência informou que ainda havia entraves relacionados principalmente ao licenciamento complementar.

Petroleiro na Guiana. Economia cresce puxada pela riqueza natural | Foto: Porto Tristar/Divulgação
Para Ferrari, a regulamentação é tão importante quanto a conclusão das obras.
“Hoje o grande impeditivo para você fazer exportação e importação é a questão ainda da barreira da Guiana e da fronteira brasileira e fronteira guianense. A gente precisa ter um acordo bilateral muito funcional, como acontece com o Paraguai e o Brasil, para que facilite. Hoje, uma grande dificuldade é a língua. A gente precisa fazer esse acordo, evoluir entre a federação brasileira e a guianense para utilizar depois que esse asfalto ficar pronto”, afirma.
A movimentação para viabilizar o transporte internacional já começou. Em 2025, a ANTT realizou reuniões com autoridades guianenses para detalhar a emissão das licenças originárias e complementares. Também foram habilitadas empresas brasileiras para o transporte rodoviário internacional de cargas entre os dois países.
Portos em expansão
Enquanto a ligação terrestre avança, a estrutura portuária da Guiana passa por expansão. De acordo com a Câmara
de Comércio Brasil-Guiana, o país possui atualmente três estruturas de maior porte, Manishwa, John Fernandes e Tristar, além de terminais menores e do projeto de um porto de águas profundas.
A Tristar, por exemplo, pretende ampliar sua estrutura com novos berços, armazéns e o chamado Gateway Park, voltado a armazenagem, manufatura leve, processamento de alimentos e armazenamento refrigerado. O terminal prevê capacidade para receber navios com até 12 metros de calado no berço, após a conclusão do programa de dragagem, além de 60 acres de área estabilizada.
Para a empresa, o mercado do Norte brasileiro é estratégico pelo potencial de geração de cargas. Segundo Cristóbal
Schlaubitz, CEO da Tristar, a região representa oportunida de para ampliar a utilização da infraestrutura do terminal.
“É uma área de grande interesse para nós devido aos volumes significativos de cargas necessários, o que nos permitiria utilizar plenamente nossa infraestrutura”, afirma Schlaubitz.
Entre os produtos apontados pela Tristar com maior potencial de movimentação estão contêineres, produtos agríco las, fertilizantes e gás comprimido. A empresa também pretende investir na ampliação do terminal e em estruturas com plementares.
“Continuaremos investindo na expansão do porto, incluindo novos berços, armazéns e outras estruturas. Também investiremos no Gateway Park, que poderá ser utilizado para armazenagem, manufatura leve, processamento de alimentos e armazenamento refrigerado”, diz o executivo.
Para Schlaubitz, a conexão com o Norte brasileiro já faz parte da estratégia de longo prazo do empreendimento. “Acreditamos fortemente que isso seja possível, e esse foi um fator importante para a realização do nosso investimento. O maior entrave neste momento é a conclusão da estrada e do acordo aduaneiro”, afirma.
Petróleo acelera demanda
A expansão logística ocorre em paralelo à transformação econômica provocada pelo petróleo. A Guiana passou, em poucos anos, de uma economia de pequena escala a um dos novos polos de produção offshore do mundo.
Em 2026, no balanço do segundo trimestre, a Exxon Mobil informou que o quinto FPSO destinado à Guiana havia deixado o estaleiro, com início da produção previsto para o quarto trimestre. A nova unidade deverá acrescentar 250 mil barris por dia à capacidade produtiva. A projeção da companhia é chegar a 1,7 milhão de barris de óleo equivalente por dia de capacidade na Guiana até 2030.
O crescimento da indústria petrolífera também aumenta a necessidade de infraestrutura, fornecedores e profissionais especializados.

Foto: PIM Amazônia
O presidente da companhia na Guiana, Alistair Routledge, afirmou que a transformação econômica do país dependerá da formação de mão de obra qualificada. A empresa anunciou um programa de US$ 100 milhões em dez anos para educação em áreas STEM.
“Mas o mais importante gasoduto para o futuro da Guiana não transportará petróleo ou gás natural. Ele transportará talentos”, afirmou Routledge, em declaração sobre a estratégia de formação de profissionais para áreas como robótica, geociência, materiais avançados e computação.
Roraima como porta de entrada
Para a Câmara de Comércio Brasil-Guiana, Roraima ocupa posição central no novo corredor por sua localização geográfica e pela ligação direta com o país vizinho. Henz avalia, porém, que a consolidação da rota precisa ser tratada como agenda de interesse federal.
“Roraima sempre foi protagonista nesse processo de aproximação com a Guiana. Porque Roraima só se viabiliza economicamente com esse corredor logístico, através da Guiana. Nós estamos muito longe do Brasil. O Norte do Brasil, na verdade, fica muito longe do Brasil. E nós estamos muito mais próximos do Caricom e, ao mesmo tempo, muito mais próximos do Canal do Panamá”, afirma.
Segundo ela, a consolidação do corredor depende de uma articulação que envolva governos estaduais, setor privado e governo federal.
“Nós precisamos também do governo federal, que o governo federal entenda o tamanho da importância que tem para nós esse corredor logístico. Então existem, sim, ainda hoje, oportunidades que não estão sendo aproveitadas por uma falta de uma logística mais robusta”, diz.
Além da pavimentação e do transporte terrestre, a representante da Câmara aponta a necessidade de ampliar conexões aéreas e resolver entraves de infraestrutura que limitam a comercialização de produtos de Roraima.

Colheita de soja em Roraima | Foto: Divulgação
Nesse cenário, Henz reforça que a participação do Amazonas pode ser determinante para ampliar o fluxo de cargas e dar escala à conexão. Para ela, a Zona Franca de Manaus deve estar entre os setores considerados na construção do novo corredor comercial.
“Eu penso que esse hub de distribuição tem que incluir o Norte do Brasil, produtos produzidos tanto matéria-prima, processados, manufaturados, e aí inclui-se a Zona Franca de Manaus, e a Guiana ser esse hub que distribui tanto para o Caricom como para o resto do Brasil. Então, com certeza, a Guiana deve funcionar para isso”, afirma.
