Economia
Greve dos petroleiros: paralisação em Urucu já dura três dias
Movimento já conta com a adesão de 100% dos trabalhadores de Coari, diz sindicato
Foto: Sindipetro Amazônia
Após três dias, a Província Petrolífera de Urucu, localizada em Coari, no Amazonas, já conta com a adesão de 100% dos petroleiros à greve nacional iniciada na madrugada de segunda-feira (15/12). A informação foi repassada pelo Sindicato dos Petroleiros da Amazônia (Sindipetro Amazônia) . Os trabalhadores entregaram, na ocasião, os postos e operações às equipes de contingência, o que provocou paralisação imediata da produção local.
O movimento foi convocado pela Federação Única dos Petroleiros (FUP) após impasse nas negociações do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT). Entre as reivindicações estão revisão do plano de salários, defesa da empresa pública, garantias sobre o fundo de previdência Petros, e ajustes nas regras de remuneração e regimes de trabalho, pontos que, segundo lideranças sindicais, não foram atendidos pelas propostas apresentadas pela direção da Petrobras.
As orientações e diretrizes específicas para a mobilização na região amazônica foram publicadas pelo Sindipetro Amazônia, entidade que representa os trabalhadores na região, na véspera da greve. Segundo o sindicato, o movimento reflete “insatisfação com a resposta da gestão da Petrobras às demandas da categoria”, sobretudo em relação a salários e condições de trabalho.
A paralisação não se restringe ao Amazonas, mas trata-se de uma greve nacional aprovada em assembleias de trabalhadores em 28 plataformas da Petrobras. A FUP e seus sindicatos afirmam que a contraproposta da estatal, apresentada no dia 9 de dezembro, foi considerada insuficiente por não resolver pontos centrais do pleito da categoria.

As principais demandas envolvem soluções definitivas para déficits nos planos de previdência complementar (PEDs) da Petros (fundo de pensão da categoria), recomposição salarial adequada, manutenção de direitos e defesa de um modelo de empresa pública forte, temas que vinham sendo negociados há semanas.
Em nota oficial, a Petrobras afirmou que o início da greve “não afeta a produção de petróleo e derivados” devido à adoção de medidas de contingência que asseguram a continuidade das operações e garantem o abastecimento ao mercado”. A companhia destacou que dispõe de planos para manter atividades essenciais e que os canais de negociação com as entidades sindicais seguem abertos.
No entanto, essa afirmação esbarra em relatos sindicais de paralisação total no terminal de Coari e adesões significativas em múltiplos elos da cadeia produtiva, incluindo plataformas, refinarias e campos terrestres.
Segundo a Petrobrás, o Polo de Urucu é a maior reserva provada terrestre de óleo equivalente (petróleo e gás natural) do Brasil.
Ato em Manaus
****Funcionários da Petrobras que tinham embarque previsto para Urucu interromperam a rotina de viagens nesta quarta-feira (17) e promoveram um protesto no Aeroporto Internacional Eduardo Gomes, em Manaus. Encerrada a manifestação no terminal aeroportuário, o grupo seguiu em ato até o prédio da Petrobras na capital amazonense, que fica na avenida Darcy Vargas, no bairro Parque 10, onde os protestos continuaram ao longo do dia.

De acordo com a representação dos trabalhadores, a mobilização marca o início de uma greve geral por tempo indeterminado. “A categoria cobra um acordo coletivo que reconheça o desempenho e a produtividade demonstrados recentemente pelos trabalhadores”, disse, mais cedo, o representante da Sindipetro Amazônia, Bruno Terribas.
Possíveis impactos
Embora a Petrobras informe que não houve impacto global na produção, a paralisação em Urucu, um dos maiores polos terrestres de produção nacional, tem potencial para afetar a logística de gás e derivados no Amazonas e na região Norte, caso a greve se estenda nos próximos dias.
Segundo a economista Denise Kassama, associada do Conselho Regional de Economia do Amazonas e Roraima (Corecon-AM/RR), o terminal de Coari tem papel estratégico no transporte fluvial de insumos e produtos, e sua paralisação sinaliza riscos concretos a operações que já vinham enfrentando desafios logísticos históricos na Amazônia.
“O Gasoduto Coari-Manaus, que transporta o gás produzido em Urucu ao longo de cerca de 660 quilômetros, tem extrema importância para a região amazônica, levando em conta a sua matriz energética limpa, não poluente. Hoje, cerca de 1 milhão e 800 mil pessoas se beneficiam do gás local. Se o Gasoduto parar, pode prejudicar o abastecimento de Manaus e adjacências, além de empresas do Distrito Industrial que o utilizam como matriz energética”, comenta.

“A gente olha com certa preocupação, embora haja equipe de contingência da Petrobras. Uma paralisação pode interferir em uma série de atividades que dependam de gás, visto que a produção em Urucu abastece parte da malha de gás regional. Um exemplo é o fornecimento de combustíveis. Eventuais interrupções prolongadas podem repercutir sobre o abastecimento energético e sobre a economia local e até mesmo regional, a depender da duração”, completa a economista.
A greve caminha para o seu quarto dia de mobilização, sem sinais de recuo por parte dos trabalhadores. As negociações entre a Petrobras, a FUP e representantes sindicais seguem em andamento, em um contexto de tensões acentuadas entre as demandas dos petroleiros por melhores condições de trabalho e as tentativas da estatal de manter a estabilidade operacional.
