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Seis em cada 10 famílias manauaras pretendem gastar acima de R$ 600 com material escolar em 2026

Alta de preços e endividamento pressionam gastos com itens escolares na capital

Fotos: Divulgação

O orçamento de famílias manauaras com mais de um filho em idade escolar está no limite. É o que aponta a pesquisa de Intenção de Compras de Material Escolar para 2026, realizada pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas (Fecomércio-AM).

Segundo o levantamento, 65% dos consumidores da capital estimam gastar acima de R$ 600 com a lista.

Desse total, 41% projetam desembolsos entre R$ 601 e R$ 700, enquanto 24% acreditam que os gastos vão ultrapassar os R$ 700, números considerados estáveis, tendo em vista que a alta no preço dos itens é uma tendência recorrente, puxada principalmente pela elevação dos custos de matérias-primas como papel, tinta e insumos atrelados ao dólar.

O levantamento ouviu 1.049 consumidores maiores de 18 anos, residentes na zona urbana de Manaus, nos dias 3 e 4 de dezembro de 2025, abrangendo todas as classes econômicas. Um dos fatores que ajuda a explicar os valores mais elevados é o perfil das famílias, já que, na pesquisa, 65% dos entrevistados têm dois ou mais filhos, sendo 48% com dois filhos, 13% com três e 4% com quatro ou mais. A concentração das compras para todos os filhos, em um curto intervalo de tempo, amplia o impacto financeiro no início do ano.

Esse é o caso de Joana Cruz, designer e produtora de conteúdos audiovisuais, mãe de dois filhos, Ryan e Ronald, que cursam, na rede pública, o 7° ano do ensino fundamental e o 1° ano do ensino médio, respectivamente. Em sua ocupação, Joana trabalha com contratos por demanda, o que, segundo ela, não oferece tanta segurança quando o assunto é consumo. Por isso, seu planejamento de compras de material escolar começa já em novembro, na tentativa de prever quanto vai conseguir reservar do orçamento de janeiro. Até o momento, ela estima gastar por volta de R$1.500 reais.

Seis em cada 10 famílias pretendem gastar acima de R$ 600 com material escolar em 2026

“Eu trabalho com prazos e projetos que nem sempre entram de forma regular. Então, quando vejo uma pesquisa dizendo que a maioria das famílias vai gastar acima de R$ 600, eu me reconheço ali. No meu caso, esse valor acaba dobrando, porque são dois filhos e listas diferentes, ainda mais agora que são demandas diferentes, já que o meu filho mais velho está indo para o ensino médio em 2026. Não é um gasto pequeno, é uma despesa que disputa espaço com as contas de água e luz, internet e cartão de crédito”, relata.

Em um cenário levemente diferente, a assistente administrativa Liliane Sousa, mãe de Brian, que vai cursar o 8º ano, na rede privada, em 2026, estima gastar cerca de R$ 2 mil com itens escolares, incluindo livros didáticos e fardamento. Mesmo tendo apenas um filho em idade escolar no momento, ela afirma que o valor, apesar de representar uma fatia significativa da renda familiar, não é novidade.

“Esse valor [R$ 2 mil] está dentro da média do que gastei no último ano. Como meu filho é menino, não me preocupo com itens muito enfeitados, o que acaba ajudando a controlar um pouco os custos. Minha filha, de três anos, eu optei por colocá-la na escola apenas em 2027. Creio que aí sim vou ver diferença nos valores”, explica.

Liliane faz parte dos 70% de consumidores que pretendem comprar todo o material escolar de uma só vez. Segundo ela, a decisão está diretamente ligada à possibilidade de parcelamento. “Comprando tudo junto, consigo dividir em mais vezes no cartão. Se eu comprar aos poucos, não tenho essa mesma facilidade”, diz.

Outros 23% preferem comprar aos poucos, diluindo o impacto financeiro e comparando preços entre lojas, enquanto 7% deixam parte dos itens para depois do início das aulas, geralmente à espera de promoções ou para confirmar a real necessidade dos produtos, informou a pesquisa.

Seis em cada 10 famílias pretendem gastar acima de R$ 600 com material escolar em 2026

As compras, segundo Liliane, costumam ficar para o fim de janeiro, período em que se consegue organizar melhor as contas antes do início das aulas, previsto para a primeira semana de fevereiro. “Não percebo tanta diferença de preços entre dezembro e janeiro, então prefiro esperar um pouco mais para me planejar”. O levantamento mostra que 65% dos consumidores pretendem realizar as compras em janeiro, sendo 39% no início do mês e 26% ao longo do período.

Outros 14% planejam antecipar as compras para dezembro, estratégia associada à busca por preços mais baixos e menor concorrência, enquanto 16% deixam para comprar apenas no início das aulas, quando a variedade tende a ser menor e os preços mais altos.

Cartão de crédito lidera entre as formas de pagamento

Dos entrevistados pela Fecomércio-AM, 52% pretendem utilizar cartão de crédito como forma de pagamento, sobretudo para parcelar despesas elevadas em um período marcado por outros compromissos financeiros, como impostos e contas acumuladas no início do ano. Por outro lado, 46% optam pelo pagamento à vista, por meio de cartão de débito, dinheiro ou pix, buscando descontos e evitando o endividamento.

Inflação e endividamento limitam o consumo

Para o economista Max Cohen, da Fecomércio Amazonas, o cenário de inflação elevada em Manaus ajuda a explicar a percepção de aumento nos gastos com material escolar. Segundo ele, os preços praticados em dezembro e janeiro são significativamente superiores aos registrados no mesmo período do ano anterior, o que reduz o poder de compra das famílias. “A inflação é um grande elemento depreciativo na aquisição de bens. Os preços hoje são bem superiores aos produtos comercializados há um ano”, afirma.

Economista Max Cohen

O economista também pontua que, embora o comércio se prepare com antecedência para o período de volta às aulas, mantendo estoques abastecidos meses antes para contornar os desafios logísticos da região, o alto nível de endividamento das famílias funciona como um freio ao consumo. Dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), realizada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC), indicam que cerca de 86% das famílias em Manaus estão endividadas, muitas delas sem capacidade de pagamento no curto prazo.

“Hoje podemos dizer que estamos em um pico histórico em relação ao endividamento. Um número relativamente alto de famílias não terá capacidade de pagamento nos próximos três meses. Isso significa que o orçamento está no limite e as famílias perdem o poder de compra. Elas não conseguem adquirir aquilo que desejam porque dívidas e boletos acabam assumindo prioridade no pagamento”, explica.

Para  Cohen, quando esse limite é alcançado, o impacto se estende para além do consumo individual, o que gera, em suas palavras, um “efeito cascata”. “Quando a família atinge o teto do cartão de crédito ou de outros instrumentos financeiros, como o crédito rotativo ou o cheque especial, ela simplesmente não consegue comprar mais. Isso é preocupante para o comércio, porque, se o consumidor já atingiu seu teto de endividamento, ele deixa de consumir”, avalia.

Seis em cada 10 famílias pretendem gastar acima de R$ 600 com material escolar em 2026

“Se as pessoas não conseguem comprar, o comércio não vende. E isso gera um efeito cascata: se o comércio não vende, o Estado arrecada menos, como ocorreu nos últimos meses, com a queda na arrecadação de ICMS no segmento de comércio e serviços”, completa.

A avaliação feita pela especialista se reflete no cotidiano de consumidores como Joana, que comenta: “Eu até gostaria de pagar tudo à vista e aproveitar desconto, e inclusive me planejo para isso, mas nem sempre é possível. Aí o cartão vira uma ferramenta para atravessar esse período. Só que ele também tem limite, e a gente sente que está sempre equilibrando o que dá para parcelar sem estourar”.

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