Indústria
El Niño aumenta risco de eventos extremos e desafia indústria no Brasil
Com alerta do Inmet para secas, queimadas e alagementos, Sesi e CNI disponibilizam protocolos e guia para orientar empresas
Nos próximos meses, a influência do El Niño pode causar eventos extremos no Brasil, como chuvas intensas, alagamentos, deslizamentos, estiagens prolongadas, ondas de calor e incêndios florestais. O alerta é do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), que destaca que os efeitos variam entre as regiões do país. Para a indústria, esse cenário amplia os riscos à segurança dos trabalhadores, às instalações, à logística, ao fornecimento de insumos e à continuidade da produção.
Segundo o órgão, as projeções do Centro de Previsão Climática (CPC) indicam 98% de probabilidade de um El Niño muito forte até novembro e 75% de chance de que o episódio de 2026/2027 supere a intensidade dos registrados desde 1950, com anomalias de temperatura que podem ultrapassar os 2,5°C.
“O que diferencia os impactos do El Niño em cada região do Brasil é a forma como o fenômeno modifica a circulação atmosférica de grande escala e como essas alterações interagem com os sistemas meteorológicos que atuam em cada região”, complementa a instituição.
Para ajudar as empresas a se anteciparem a esses eventos, o Serviço Social da Indústria (Sesi) disponibiliza protocolos para inundações, secas e queimadas, e a Confederação Nacional da Indústria (CNI) reúne, em um guia, orientações para incorporar os riscos climáticos às decisões sobre operações, investimentos e cadeias de suprimentos.
“A chegada da primavera reforça um alerta que a indústria não pode ignorar. Já vimos eventos extremos comprometerem a segurança dos trabalhadores, interromperem operações e afetarem cadeias produtivas. Os protocolos de inundações e de secas e queimadas ajudam as empresas a se prepararem antes da emergência, organizarem a resposta e reduzirem os impactos sobre as pessoas e a produção”, alertou o diretor-superintendente do Sesi, Paulo Mol.
Utilizando como embasamento, esses instrumentam procuram antecipar os efeitos que já foram sentidos em anos passados pela indústria brasileira.
Em 2023, a Região Norte enfrentou uma estiagem severa, com efeitos sobre a produção, o abastecimento e a logística. A redução do nível dos rios comprometeu a navegação em trechos importantes da Amazônia e afetou o transporte de insumos e de mercadorias, especialmente em áreas dependentes do modal hidroviário.
Na Zona Franca de Manaus, a queda histórica dos rios Negro e Solimões dificultou a chegada de matérias-primas e o escoamento da produção, o que resultou pressão dos custos e exigência de adaptações logísticas das empresas.
O problema voltou a chamar a atenção em 2024, quando a persistência da estiagem reforçou os riscos associados à dependência dos rios para o funcionamento das cadeias produtivas. A escassez de água afetou a logística, comprometeu a irrigação, a produção agropecuária e a geração de energia, especialmente onde as hidrelétricas são importantes na matriz elétrica.
Em cenário oposto ao da seca severa vista no Norte, o Rio Grande do Sul sofreu enchentes em 2024. Os municípios atingidos concentravam 47 mil das 51 mil indústrias gaúchas e 813 mil trabalhadores, segundo levantamento da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (FIERGS).
Além dos danos às instalações, a emergência dificultou o deslocamento dos trabalhadores, interrompeu rotas de transporte e comprometeu o fluxo de matérias-primas e produtos. Os aprendizados desse episódio passaram a integrar o protocolo de inundações, que também reúne experiências da atuação do Sesi-RS durante a tragédia para orientar a preparação, a resposta e a retomada das atividades.
Protocolos orientam preparação e resposta aos riscos
Os protocolos foram desenvolvidos em parceria com o Conselho Nacional do Sesi e o Ministério da Saúde. O primeiro, voltado a inundações, foi apresentado em 2025; o segundo, dedicado a secas e queimadas, em março deste ano.
No caso das inundações, o ponto de partida é identificar onde a empresa está vulnerável. Isso envolve avaliar não apenas a possibilidade de a água atingir a planta, mas também os riscos para instalações elétricas, máquinas, áreas de armazenamento, vias de acesso, trabalhadores e logística.
A partir desse diagnóstico, o protocolo orienta a elaboração de planos de resposta a emergências, com definição de níveis de alerta, rotas de evacuação, canais de comunicação, procedimentos de primeiros socorros e estratégias para a recuperação das operações.
Para secas e queimadas, o acompanhamento considera os fatores como temperatura, umidade do ar, focos de calor, qualidade do ar, disponibilidade de água e proximidade do fogo. O protocolo estabelece níveis progressivos de prontidão, responsabilidades, canais de alerta e articulação com o Sistema Único de Saúde (SUS), a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros.
Monitore a qualidade do ar
O Sesi também disponibiliza um painel de monitoramento da qualidade do ar, desenvolvido em parceria com a Sanofi. A ferramenta cruza informações sobre a qualidade do ar com indicadores do SUS e do INSS, ajudando a acompanhar possíveis impactos na saúde respiratória.
Acesse o Painel de Monitoramento da Qualidade do Ar
Para o presidente do CN-Sesi, Fausto Junior, as mudanças climáticas são uma questão de saúde pública. “As emergências que vivemos nos ensinaram muito e precisamos usar esse aprendizado para proteger as pessoas antes que a situação se agrave […] Queremos que esse conhecimento chegue às empresas e ajude a organizar uma atuação conjunta com o SUS, a Defesa Civil e os serviços de emergência. Precisamos estar preparados para cuidar das pessoas, enfrentar a emergência e apoiar a retomada segura das atividades”, afirmou.
Guia da CNI amplia foco para riscos regulatórios, tecnológicos e de mercado
Em julho deste ano, a CNI lançou o Guia da Indústria para Adaptação à Mudança do Clima, que reúne orientações para incorporar os riscos climáticos às decisões sobre operações, investimentos e cadeias de suprimentos. O documento considera tanto os eventos extremos, quanto riscos relacionados às mudanças regulatórias, tecnológicas e de mercado associadas à transição para uma economia de baixo carbono.
As recomendações se concentram inicialmente nas cadeias de óleo e gás, alimentos e têxtil e incluem medidas como adaptação de infraestruturas, eficiência e reúso da água, uso de informações climáticas no planejamento e adoção de tecnologias para reduzir impactos sobre a produção e o abastecimento.
O guia orienta, por exemplo, que as empresas identifiquem fornecedores instalados em áreas sujeitas a riscos hídricos e térmicos e avaliem alternativas para evitar que a interrupção de um elo comprometa o fornecimento de insumos.
Na logística, o documento recomenda diversificar rotas diante de situações como a baixa navegabilidade dos rios na região norte durante períodos de seca ou interrupções provocadas pelo excesso de chuvas no Sul. A água e a energia também são tratadas como recursos estratégicos para a continuidade das operações e para decisões sobre expansão e localização de ativos.
O uso de dados climáticos de sistemas de monitoramento completa essa estratégia ao dar suporte a decisões mais antecipadas sobre produção, infraestrutura e cadeia de suprimentos. “As principais informações devem ser obtidas por meio dos sistemas oficiais responsáveis pelo monitoramento do clima e dos desastres que ocorrem no Brasil. Além disso, órgãos como a Defesa Civil e outras instituições oficiais responsáveis pelo monitoramento e gerenciamento de riscos e desastres devem ser considerados fontes prioritárias de informação, especialmente em situações de eventos meteorológicos extremos”, afirmou o Inmet.

