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A Amazônia não pode viver de improvisos: A urgência de uma solução definitiva para as hidrovias

"A Zona Franca de Manaus não pede favores ou privilégios, mas exige o direito básico de ter suas matérias-primas e sua produção escoadas com eficiência e segurança jurídica.", diz Marcello Di Gregorio.

À medida que os episódios de estiagem na Bacia Amazônica se tornam mais frequentes e severos, fica evidente uma realidade incontornável para a infraestrutura brasileira: o fator climático não é mais um evento sazonal ou uma surpresa de calendário; ele se tornou uma variável permanente e decisiva do planejamento logístico nacional. Não se trata mais de gerenciar crises pontuais com improvisos de última hora, nem de aguardar passivamente pelo socorro burocrático trazido por decretos de emergência quando os rios já atingiram níveis críticos. O Brasil precisa de uma mudança profunda de mentalidade.

Quando fenômenos de grande escala, como o El Niño, alteram o padrão de chuvas e reduzem drasticamente o nível dos rios amazônicos, os desdobramentos sobre o abastecimento, a navegação e o escoamento da produção da Região Norte são imediatos e devastadores. Falamos de uma geografia singular, onde os rios cumprem o papel que o asfalto das rodovias e os trilhos das ferrovias desempenham nas regiões Sul e Sudeste. Na Amazônia, o rio é a rua, a estrada e o corredor de exportação. Sem navegabilidade plena, toda a cadeia de suprimentos é impactada: navios de grande porte deixam de chegar a Manaus, exigindo operações adicionais de transbordo, maior consumo de combustível, mais equipamentos, mais mão de obra e mais tempo para que as mercadorias cheguem ao destino.

Para a indústria do Polo Industrial de Manaus, esse gargalo impõe fretes mais altos, cobranças adicionais de taxas, despesas extraordinárias de armazenagem e a obrigação de manter estoques gigantescos de insumos e matérias-primas para não paralisar as linhas de montagem. Vale lembrar que a Zona Franca atende o país inteiro com produtos essenciais do cotidiano como motocicletas, eletrônicos, computadores, celulares e aparelhos de ar-condicionado. No fim das contas, essa crônica falta de previsibilidade tira a competitividade da indústria nacional frente aos produtos importados e o aumento do custo logístico acaba sendo transferido para a ponta final da cadeia, pesando direto no bolso do consumidor brasilero.

Diante desse quadro desafiador, o país precisa superar com urgência a cegueira logística que insiste em abordar a infraestrutura da Região Norte sob perspectivas únicas e simplistas. Os investimentos anunciados na BR-319 cumprem um papel importante para a mobilidade regional, para a conexão terrestre entre os estados do Amazonas e Rondônia e para o desenvolvimento ao longo do seu eixo. Porém, é preciso reconhecer que nenhuma estrada resolverá, sozinha, os gargalos de um estado essencialmente hidrográfico, que possui mais de 20 mil quilômetros de rios navegáveis. As economias mais prósperas, eficientes e competitivas do mundo não apostam suas fichas em um único modal de transporte; elas priorizam a integração de hidrovias, portos, rodovias e aeroportos para entregar eficiência, resiliência e previsibilidade ao mercado.

Somado a isso, observamos uma profunda transição de cultura no transporte de mercadorias no Amazonas: o fluxo de cargas migrou do modal rodofluvial para a cabotagem marítima, que hoje responde por mais de 90% das movimentações do estado. Essa mudança de padrão trouxe segurança, regularidade e ganhos de escala para o Polo Industrial, mas também fez com que os navios de contêineres que atendem a região ficassem cada vez maiores. Se nos anos 2000 operávamos com embarcações menores com capacidade para 1.400 TEUs, hoje recebemos navios de até 5.400 TEUs, que exigem calados operacionais mais profundos e estáveis. Quando a estiagem reduz a lâmina d’água disponível, a capacidade produtiva desses grandes navios desmorona, expondo a vulnerabilidade de um sistema logístico defasado frente à modernização das frotas navais.

No setor privado, contudo, a virada de chave para enfrentar esse cenário de urgência climática já aconteceu. Entendemos que a verdadeira resiliência nasce da capacidade de antecipação.

No Super Terminais, investimos em inteligência preditiva com o apoio científico do Laboratório Climático da Universidade Estadual do Amazonas (UEA), acompanhando diariamente os boletins e o comportamento das bacias hidrográficas para nos prepararmos antes que a seca se instale. Paralelamente, direcionamos R$ 400 milhões em tecnologia de ponta e transição energética, com a aquisição de guindastes elétricos de alta performance e a implantação da primeira usina a gás natural para operações portuárias do Norte do Brasil, e desenvolvemos engenharia adaptativa. A prova concreta disso é a infraestrutura do nosso próprio terminal: um cais flutuante modular de 600 metros de comprimento, que acompanha as variações hidrológicas de até 17,5 metros entre a cheia e a seca. Na crise de 2024, para contornar gargalos e evitar a paralisia do abastecimento, desacoplamos quatro desses módulos, montamos uma estrutura de 240 metros de cais flutuante e a levamos para operar temporariamente em Itacoatiara, evitando um colapso na economia do Estado.

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A concessão refere-se à contratação de empresas especializadas para prestar serviços essenciais de infraestrutura pública: manutenção de dragagem operacional atuando 365 dias por ano, modernização contínua da sinalização náutica, balizamento de precisão, desobstrução de canais de navegação e monitoramento hidrológico preditivo em tempo real. O financiamento de toda essa estrutura seria custeado pelas grandes embarcações comerciais, como os grandes navios porta-contêineres e as frotas de barcaças do Arco Norte que transportam grãos e commodities agrícolas para o mercado externo.

O El Niño é a confirmação de que os eventos climáticos exigem respostas imediatas. A Zona Franca de Manaus não pede favores ou privilégios, mas exige o direito básico de ter suas matérias-primas e sua produção escoadas com eficiência e segurança jurídica. Se conseguirmos unir a inteligência da academia, os investimentos da iniciativa privada e ações do setor público, teremos a oportunidade de transformar a Bacia Amazônica em um corredor logístico perene, seguro e moderno, impulsionando o desenvolvimento do país durante todos os dias do ano.

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