Indústria
Calor na Europa abre chance para ar-condicionado de Manaus, mas exportação esbarra no custo Brasil
Presidente da Eletros diz que indústria local tem escala e qualidade para atender mercados exigentes, mas vê barreiras logísticas, comerciais e regulatórias
As ondas de calor na Europa abrem uma janela de oportunidade para a indústria de ar-condicionado do Polo Industrial de Manaus (PIM), mas converter essa demanda em exportação esbarra no custo Brasil. A avaliação é da Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros).
Manaus é hoje o segundo maior polo produtor de ar-condicionado do mundo, atrás apenas da China. Com 19 empresas instaladas, o setor está em franca expansão, o que se percebe nos investimentos aprovados entre 2024 e 2026. No período, o Conselho de Administração da Suframa aprovou oito projetos de implantação de novas fábricas.
Para o presidente da Eletros, Jorge Nascimento, as fábricas da Zona Franca têm escala, tecnologia e padrão de qualidade para atender mercados exigentes, inclusive o europeu, mas existem entraves para a competição internacional.

“O setor vê com interesse oportunidades de exportação para a Europa, especialmente diante do aumento da demanda observado neste momento. Contudo, para que essas oportunidades se convertam em negócios de forma consistente, é fundamental que o Brasil avance em sua agenda de competitividade internacional”, afirma Nascimento.
Em reportagem recente, a PIM Amazônia mostrou que o ar-condicionado deixou de ser apenas mais um item da linha de eletroeletrônicos para se tornar uma potência industrial local, com produção quase dobrando em cinco anos e atração de novos fabricantes e fornecedores.
A mudança no padrão de consumo europeu ajuda a explicar o interesse do setor. Enquanto países como Estados Unidos e Japão têm ar-condicionado em cerca de 90% das residências, a média europeia é de 20%. No norte da Europa, a presença do aparelho ainda é baixa, segundo reportagem do site alemão DW. Na Alemanha, apenas 3% dos lares contam com o aparelho. No Reino Unido, 5%.
“A indústria brasileira tem capacidade tecnológica e qualidade para competir; o desafio está em criar condições para que essa competitividade também se traduza em maior presença no comércio internacional”, pontua o presidente da Eletros.
Competitividade
A fala de Nascimento revela que o problema não está dentro das fábricas, mas sim no ambiente de negócios, ou seja, não na capacidade produtiva das empresas, mas nas condições brasileiras para competir, o que inclui infraestrutura portuária e aeroportuária adequada, segurança jurídica e logística eficiente. Isso sem contar com os acordos comerciais efetivos e a redução de barreiras tarifárias e não tarifárias.
“O acordo Mercosul-União Europeia representa uma oportunidade importante para ampliar esse comércio, especialmente pela perspectiva de redução gradual das tarifas de importação. No entanto, sua implementação ainda depende da conclusão dos processos de ratificação e regulamentação, de forma que seus efeitos práticos ainda não estão disponíveis para as empresas”, diz.

Foto: Divulgação/Midea Carrier
Na prática, segundo a Eletros, a exportação a partir do Brasil não depende apenas da capacidade produtiva ou da vontade das empresas. “É necessário um ambiente de competitividade internacional que permita competir em igualdade de condições com fabricantes instalados em outros países”, afirma.
Nesse contexto, o acordo entre Mercosul e União Europeia aparece como uma perspectiva, mas ainda de longo prazo.
Nos últimos cinco anos, o faturamento das fabricantes de ar-condicionado em Manaus cresceu 96%.
