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Eletrificação ainda engatinha no polo das motos

Produção avança com fabricantes menores e modelos por assinatura, enquanto grandes montadoras ainda mantêm foco nas motos a combustão

Manaus é uma potência nacional em motos. No ano passado, o Polo Industrial produziu 1,98 milhão de unidades, o maior volume desde 2011, quando as fabricantes ultrapassaram a marca de 2,1 milhões. No segmento elétrico, que tem ganhado visibilidade no mercado, a indústria ainda dá os primeiros passos. Das 11 fabricantes associadas à Abraciclo, principal entidade do setor, apenas a Yamaha fabrica motos elétricas.

Por enquanto, o avanço vem de empresas menores, novos modelos de negócio e projetos ainda em fase de escala. Em janeiro de 2026, a produção nacional de motos elétricas chegou a 3.414 unidades, contra 1.642 no mesmo mês do ano anterior, alta de quase 108%, segundo a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares.

O percentual até chama a atenção, mas é preciso considerar que a base ainda é pequena diante de um mercado dominado por modelos a combustão.

“O avanço dos modelos elétricos no setor de duas rodas reflete uma transformação mais ampla da mobilidade urbana brasileira. O consumidor passou a buscar veículos mais eficientes, econômicos e conectados às demandas ambientais, enquanto a indústria intensificou os investimentos em tecnologia, inovação e descarbonização”, diz o presidente da Abraciclo, Marcos Bento.

Segundo ele, esse movimento tende a ganhar força nos próximos anos, especialmente com a evolução da infraestrutura, da eficiência energética e das soluções voltadas ao uso urbano e logístico.

Em abril de 2025, a chinesa Yadea, líder mundial na fabricação de veículos elétricos de duas rodas, iniciou a produção local no Brasil, em uma operação na Zona Franca de Manaus em parceria com a Jabil. A empresa, apelidada de BYD das motos, tem fábricas também no Vietnã, Indonésia e Tailândia.

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Foto: Divulgação/Yadea

A chegada da fabricante foi vista no mercado como uma oportunidade de abrir caminho para outros produtores asiáticos investirem no País.

Outra que passou a operar em solo amazonense foi a startup brasileira Leva Motors, que também começou a produzir em parceria com a Jabil. A operação teve aporte inicial de R$ 2 milhões, com outros R$ 2 milhões investidos em um segundo momento.

Modelo por assinatura puxa avanço

O caso mais concreto em curso no Polo de Manaus é o da DBS, que iniciou, em abril, uma parceria estratégica com a startup de tecnologia Vammo. O acordo prevê a produção de mais de 15 mil motos elétricas até o fim de 2026, em um projeto que envolve R$ 300 milhões.

O volume ainda é modesto diante do mercado total de motocicletas, mas representa o maior projeto industrial de motos elétricas atualmente em andamento em Manaus. A iniciativa inclui uma planta de aproximadamente 4 mil metros quadrados na capital amazonense e está associada a um modelo de negócios conhecido como “vehicle as a service”.

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Na prática, em vez da venda direta, a Vammo oferece motos elétricas por assinatura, especialmente para entregadores de aplicativos. O pacote inclui manutenção e seguro, reduzindo o custo inicial para quem usa o veículo como ferramenta de renda.

“Estamos ampliando o acesso à mobilidade elétrica no Brasil. Nossa expansão em Manaus, em parceria com a Vammo, representa um passo decisivo para consolidar um ecossistema de transporte mais limpo, eficiente e alinhado às necessidades das cidades e dos trabalhadores do futuro”, afirma Ricardo Ducco, diretor do grupo DBS.

A empresa também ganhou espaço no mercado nacional. Segundo dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), a DBS saltou da 16ª para a 11ª posição no ranking de fabricantes de motocicletas no Brasil entre 2024 e 2025, superando marcas tradicionais como Suzuki, Kawasaki e Harley-Davidson.

No segmento elétrico, a companhia afirma deter 28,25% dos emplacamentos registrados em 2024.

“Superar marcas como Suzuki e Harley-Davidson no ranking da Fenabrave em apenas um ano é um resultado que nos orgulha muito, mas que também nos impõe responsabilidade. No elétrico, onde somos líderes com 28,25% dos emplacamentos em 2024, continuamos fortalecendo nossa parceria com a Vammo, que com seu modelo de assinatura democratiza o acesso e cria uma base de uso recorrente muito consistente”, menciona Ducco.

Para o executivo, o crescimento das motos elétricas no Brasil passa necessariamente por modelos que reduzam o custo de entrada do consumidor, especialmente para trabalhadores que dependem do veículo como instrumento de renda.

“O maior obstáculo à adoção em massa de veículos elétricos no Brasil não é a tecnologia, é o custo de entrada. O modelo de assinatura elimina essa barreira: o entregador acessa o veículo pagando uma mensalidade acessível, já com manutenção e seguro inclusos, sem se preocupar com bateria, pane ou revisão. Isso transforma o elétrico em uma decisão financeiramente óbvia para quem usa o veículo como ferramenta de trabalho”, ressalta.

Custo e infraestrutura limitam escala

Apesar do crescimento, a consolidação das motos elétricas ainda depende de fatores estruturais. O setor aponta como entraves a infraestrutura limitada de recarga, o custo inicial superior ao dos modelos a combustão, a disponibilidade de peças para manutenção, a assistência técnica e o baixo conhecimento do consumidor sobre autonomia e manutenção das baterias.

É nesse ambiente que outras fabricantes começam a desenhar projetos para Manaus. A Yema Motos deve investir R$ 14 milhões na produção de motos, bicicletas e triciclos elétricos na capital amazonense. A empresa projeta fabricar mais de 2 mil motocicletas elétricas nos primeiros anos de operação e outras 1.450 unidades no terceiro ano.

Yema Motos deve investir R 14 milhoes para producao de categorias eletricas na Zona Franca Foto Suframa

Foto: Suframa

Segundo o diretor de montagem da empresa, Jiajun Chen, o avanço do segmento no Brasil deve ocorrer de forma gradual, acompanhando a evolução do mercado consumidor e das condições estruturais necessárias para sustentar a eletrificação.

“O mercado brasileiro possui grande potencial para a mobilidade elétrica, principalmente nos centros urbanos, onde há demanda crescente por soluções mais econômicas e sustentáveis. Mas esse crescimento precisa caminhar junto com melhorias em infraestrutura, cadeia de suprimentos e acesso do consumidor à tecnologia”, afirma.

Para Chen, um dos principais entraves continua sendo o custo inicial das motos elétricas, ainda superior ao de muitos modelos tradicionais. Embora o gasto operacional seja menor no longo prazo, a diferença no preço de entrada limita o acesso de parte dos consumidores.

“O desafio não está apenas em fabricar o veículo, mas em criar um ecossistema capaz de sustentar esse crescimento. É necessário avançar em infraestrutura de recarga, ampliar a disponibilidade de peças e assistência técnica e, principalmente, reduzir custos para tornar a tecnologia mais acessível”, destaca.

O executivo avalia que o ganho de escala industrial tende a desempenhar papel importante na redução gradual dos preços. À medida que mais empresas investirem em eletrificação e a produção aumentar, o segmento poderá alcançar maior competitividade no mercado nacional.

“Todo mercado novo passa por um processo de amadurecimento. Hoje, os volumes ainda são pequenos se comparados às motos convencionais, mas a tendência é de crescimento contínuo”, explica.

O desafio de virar indústria de escala

A eletrificação das motos no Polo Industrial de Manaus ainda está longe de representar uma transformação ampla do setor de Duas Rodas. O avanço existe, mas é concentrado em projetos específicos, fabricantes menores e modelos voltados principalmente ao uso urbano e profissional.

Por enquanto, o polo das motos começa a testar um caminho novo, com a combustão dominando a indústria, mas a eletrificação já saiu do papel.

No final do ano passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sinalizou que o governo vem avaliando medidas para impulsionar o setor. “Uma coisa que a gente quer fazer é baratear o financiamento de uma moto para que os entregadores tenham o direito de ter uma moto, de preferência elétrica para economizar a emissão de gás de efeito estufa”, disse durante lançamento do programa CNH Brasil.