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O produto que virou potência industrial de Manaus

Produção quase dobrou em cinco anos, polo se tornou o segundo maior do mundo e atrai nova onda de fabricantes e fornecedores

O ar-condicionado deixou de ser apenas mais um item da linha de eletroeletrônicos para se transformar em uma potência industrial de Manaus. Em cinco anos, o faturamento das fabricantes cresceu 96%, a produção ultrapassou 6 milhões de unidades e o Polo Industrial saltou da 5ª para a 2ª posição entre os maiores do mundo, atrás apenas da China. Agora, tem pela frente dois gargalos para continuar em franca expansão.

Com 19 fabricantes ativos e cerca de cem fornecedoras de componentes, o setor já é o 3º maior gerador de receitas da indústria amazonense e é considerado estratégico para o mercado interno. À PIM Amazônia, a Suframa afirmou que o segmento é fundamental para “a sustentação do Polo Industrial”.

Foram 5,91 milhões de unidades fabricadas em Manaus há dois anos, quando o polo assumiu a vice-liderança mundial. No ano passado, veio um novo recorde: 6,28 milhões de aparelhos saíram das fábricas. Para este ano, a projeção da Associação Nacional dos Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros) é superar os 7 milhões de unidades produzidas.

O potencial no médio e longo prazo é gigantesco. Estima-se que a produção de ar-condicionado alcance 20 milhões de unidades em menos de 10 anos, segundo o presidente da Eletros, Jorge Nascimento Júnior.

“No mercado brasileiro, cerca de 80% dos lares não têm ar-condicionado. Então é um mercado grande, por isso o mundo todo está se voltando a produzir ar-condicionado no Brasil e para o Brasil”, diz.

Peso-pesado

A evolução do segmento de ar-condicionado, principalmente dos aparelhos do tipo split, se reflete no peso dessa indústria no parque fabril de Manaus. O começo foi em março de 2000, quando o primeiro aparelho saiu da linha de produção da FAM da Amazônia. Naquele ano, foram produzidas 11 unidades.

Dez anos depois, em 2010, a produção de aparelhos do tipo Split já somava 1,8 milhão de unidades, saltando para 2,7 milhões no ano seguinte. Atualmente, a cadeia produtiva de ar-condicionado responde por 8% do faturamento da indústria de Manaus e pela geração de 15 mil empregos associados ao segmento, entre diretos e indiretos

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Foto: Divulgação/Midea Carrier

Em nível nacional, a indústria de climatização vem liderando o desempenho do mercado eletroeletrônico, em sentido oposto ao de outros segmentos. Em 2025, as vendas cresceram 16%, contra uma queda de 4% da linha portátil e um recuo de 1% da linha branca. Já a linha marrom avançou 3%.

Entre os fatores que explicam o avanço do ar-condicionado estão a maior frequência de ondas de calor ao longo do ano, oferta de modelos com melhor desempenho operacional, preferência do consumidor pelo conforto térmico e tecnologia aplicada aos equipamentos.

“Este é um produto que te dá conforto, qualidade de vida, serve para escritório, casa, escola, hospital. Além disso, os produtos estão cada vez mais modernos, inovadores, eficientes no consumo de energia. Existem modelos em que o consumo é semelhante ao de ventilador industrial”, destaca Jorge Júnior.

Atração de investimentos

A consolidação da cadeia produtiva tem, ainda, outro reflexo visível: a aprovação de 13 projetos industriais pelo Conselho de Desenvolvimento do Amazonas (Codam), do Governo do Amazonas, nos últimos dois anos.

O órgão é o colegiado responsável por conceder benefícios fiscais estaduais a quem produz em Manaus. Quando aprovados, os projetos podem usufruir da redução ou isenção de impostos.

Entre 2024 e 2026, o Conselho aprovou sete projetos de implantação de novas fábricas, cinco de diversificação e um de atualização industrial.

Juntos, os investimentos projetados são de R$ 221,3 milhões e estimativa de geração de 608 postos de trabalho, conforme levantamento da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação (Sedecti).

Um desses projetos de implantação é estratégico. Trata-se da Tecumseh, única fabricante de compressores para ar-condicionado em operação no Brasil. Nos bastidores da indústria, porém, há dúvidas sobre o ritmo de implantação do projeto caso as regras do setor permaneçam como estão.

Atualmente instalada em São Carlos (SP), a empresa norte-americana prevê investimentos de R$ 56 milhões, em um anúncio que já havia sido feito no início de 2025.

planta tecumseh

Com planta em São Carlos (SP), Tecumseh tem projeto aprovado para instalar fábrica em Manaus | Foto: Divulgação Tecumseh

No papel, os recursos visam construir uma planta com capacidade produtiva de até 1 milhão de compressores por ano e amenizar um antigo gargalo do segmento, que ainda depende das importações, sobretudo da Ásia.

“A confirmação da implantação da indústria Tecumseh representa importante avanço para o adensamento da cadeia produtiva local, fortalecendo a verticalização industrial, ampliando a competitividade do polo e estimulando a atração de novos investimentos”, analisou o secretário-executivo adjunto da Sedecti, Anderson Grimm.

O problema, segundo fonte ouvida pela reportagem, é que as regras atuais favorecem a empresa, que teria poucos motivos para transferir a produção para Manaus, e dificultam a expansão do setor. Atualmente, o projeto de implantação da empresa está em análise na Suframa.

O gargalo dos compressores

Pelas regras atuais do Processo Produtivo Básico (PPB), 50% dos compressores para ar-condicionado de janela, por exemplo, devem ser comprados de fornecedores instalados no Brasil. E a Tecumseh é justamente a única fornecedora do produto considerado o “coração” do ar-condicionado, responsável por pressurizar e fazer circular o fluido refrigerante no sistema.

O PPB é uma espécie de “receita” estabelecida pelo governo brasileiro para uma fábrica usufruir dos incentivos fiscais da Zona Franca. Tecnicamente, a norma define um conjunto mínimo de etapas de fabricação que devem ser realizadas no Brasil.

A chegada de uma fábrica de compressores a Manaus teria o potencial de gerar um dos maiores impactos estruturais recentes na cadeia produtiva deste segmento, avalia o economista e presidente do Conselho Regional de Economia da 13ª Região (Corecon-AM/RR), Márcio Paixão. “Isso é estratégico porque o compressor é um dos componentes de maior valor agregado do aparelho”, afirma.

Nos últimos meses, a Secretaria de Desenvolvimento Econômico manteve tratativas com o Governo Federal para tratar do impasse relacionado ao PPB dos compressores. Na avaliação de técnicos amazonenses, a solução passa pela atração de uma nova fábrica, seja chinesa, japonesa ou coreana, de forma a ampliar a concorrência.

O problema é o custo. Segundo a Eletros, potenciais investidores consultados pela entidade relataram que a instalação de uma fábrica capaz de cumprir integralmente o PPB atual de compressores exigiria investimentos da ordem de R$ 200 milhões. Trata-se de um aporte elevado, com risco de não haver mercado suficiente para justificar a operação durante os primeiros anos.

Um caminho para isso seria desverticalizar o PPB, segundo a Eletros, dividindo o processo de produção em etapas mais simples. Atualmente, com a regra verticalizada, é como se houvesse muitas fábricas dentro de uma só, encarecendo um projeto concorrente.

O gargalo dos motores

Além dos compressores, outro desafio para a indústria de ar-condicionado é contornar a dependência de poucos fornecedores de motores. Há pouco mais de dois anos, a brasileira WEG era a única fornecedora em solo nacional.

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Hoje também produzem motores no país a brasileira Elgin, que investiu R$ 200 milhões em uma nova planta em Manaus, e a chinesa Welling Motor, do Grupo Midea, que investiu R$ 70 milhões em uma fábrica no sul de Minas Gerais.

Na prática, os dois principais insumos dos aparelhos de climatização são dominados por poucas empresas, resultando em pouca competitividade no mercado e oferta dos itens a preços mais altos.

Pelas regras atuais, as fabricantes de ar-condicionado são obrigadas a comprar nacionalmente 90% dos motores para os modelos de janela. Para os modelos split, a obrigação é estabelecida em um sistema de pontuação, em que as empresas acumulam pontos conforme as etapas realizadas para atingimento de uma meta.

Na avaliação do setor, este é um produto importante, em que os Estados Unidos são o maior comprador mundial, mas que esbarra na política industrial.

“Estamos em conversas com o governo federal”, pontua Jorge, da Eletros, que defende a flexibilização do PPB.

O futuro passa pelas exportações

Um dos caminhos para o crescimento do polo de ar-condicionado passa, também, pelas exportações. Em Manaus, os produtos amadureceram e atingiram o que a Eletros chama de “projeto global”, com índices de eficiência 50% maiores do que há cinco anos.

No passado, o setor exportou aparelhos do tipo janela para os Estados Unidos. Para Jorge, da Eletros, a flexibilização do PPB, garantindo o acesso a fornecedores globais e melhoria da competitividade interna, a revisão da política de incentivo a exportações e o investimento em infraestrutura podem tornar muito competitivo o produto feito em Manaus.

O potencial existe, com grandes consumidores ao lado do Brasil, como Argentina, Colômbia, Chile, Peru e Equador. Resta acompanhar o andamento do mercado, o movimento dos fabricantes e do governo brasileiro ao longo dos próximos anos.

 

Texto escrito por Priscila Mesquita e Jhemisson Marinho