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Ele começou como estagiário no Polo Industrial de Manaus. Hoje é o primeiro amazonense a chegar ao C-Level global

Ivan Lima iniciou a trajetória na Multibrás da Amazônia. Hoje, ocupa o cargo de Chief Supply Chain Officer da multinacional Boyd Corporation, nos EUA

Ivan Lima | Foto: Acervo pessoal

Foi na rotação entre setores da antiga Multibrás da Amazônia, ainda como estagiário de Administração, que Ivan Lima descobriu a força transformadora da Zona Franca de Manaus (ZFM). Aprovado em um processo seletivo promovido pelo Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), o jovem Ivan pôde vivenciar o plano de estágio desenvolvido pelo então diretor-presidente do grupo, Ulisses Tapajós.

Já em funções efetivas, ele transitou por áreas diversas, como engenharia de processos e materiais, produção e comercial, experimentando desde cedo a pressão dos prazos curtos e a limitação de custos, e aprendendo a tomar decisões que se refletiam em toda a cadeia produtiva. O ambiente, marcado por tecnologias de ponta e pela convivência com metodologias importadas, serviu como escola para muito mais do que habilidades técnicas.

Ali, ele assimilou a disciplina necessária para traduzir desafios em soluções práticas, desenvolver a linguagem dos números como instrumento de gestão e aprender a negociar em cenários de alta competitividade, sobretudo após a aquisição da Multibrás pela Flextronics em 2005, quando o grupo passa a se chamar Masa da Amazônia.

Ivan Lima começou como estagiário no Polo Industrial de Manaus. Hoje é o primeiro amazonense a chegar ao C-Level global

Ivan Lima começou como estagiário na antiga Multibrás, atualmente Masa da Amazônia, empresa vinculada ao grupo Flextronics. Foto: Divulgação

Nesse período, ao estar em constante contato com o diretor da Flextronics no Brasil, o estadunidense Brett Bissell, e outros profissionais com nacionalidades distintas, Ivan passou a aprimorar seus conhecimentos na língua inglesa, recebendo auxílio da empresa para realizar cursos nos Estados Unidos e Canadá.

Com o entrosamento, Ivan recebeu, e aceitou, a proposta para gerir financeiramente a unidade de Sorocaba, São Paulo, onde passou dois anos. A partir disso, ele migrou para outros cargos em plantas da Flextronics em outros países, como Ucrânia, Romênia e Índia. O ciclo de Ivan na empresa encerra-se em Dallas, Estados Unidos, na função de vice-presidente de operações globais.

A base construída em Manaus, durante mais de duas décadas, se reflete em uma trajetória global: Ivan ocupa hoje o cargo de Chief Supply Chain Officer (Presidente de Cadeia Produtiva e Operações) da multinacional Boyd Corporation, sediada no Texas, Estados Unidos, onde lidera processos que cruzam fronteiras e lidam com regulações distintas em diferentes mercados. Com isso, Ivan tornou-se, o primeiro amazonense a alcançar a chamada C-Level, faixa máxima da hierarquia executiva global.

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Ivan durante visita à unidade da Boyd em Singapura | Foto: LinkedIn

Ao contar sua trajetória, Ivan é firme em atribuir grande parte de seu crescimento à estrutura oferecida pela fábrica em Manaus e ao investimento contínuo em formação. Depois de concluir o ensino superior, buscou duas especializações, uma em finanças e outra em logística, que o permitiram transitar com fluência entre áreas administrativas e produtivas.

Essa combinação de bagagem acadêmica com vivência prática foi o trampolim para novos voos. Ao assumir funções de planejamento e compras, ele passou a traduzir empecilhos do dia a dia em indicadores estratégicos, a redesenhar fluxos e a ampliar a interlocução entre fábrica, fornecedor e cliente.

“A fábrica me ajudou bastante no plano de carreira, suporte financeiro e técnico para o meu desenvolvimento e isso foi decisivo para uma transição ao mercado internacional”, diz. Para ele, a passagem pelo Distrito Industrial não representou apenas um capítulo inicial, mas a construção de um repertório que permanece como diferencial competitivo em sua atuação atual.

Esse padrão de ascensão não é um caso isolado. Ao longo de mais de cinco décadas, a ZFM consolidou-se não apenas como motor econômico da Amazônia, mas também como um berço de competências profissionais que, moldadas no ritmo das fábricas, são hoje disputadas por empresas no Brasil e no exterior. Para Ivan, a essência do trabalhador da ZFM está em sua resiliência: fazer mais com menos.

“O trabalhador da Zona Franca de Manaus tem uma característica muito própria: ele aprende a ser resolutivo. Em Manaus, nem sempre se tem o melhor recurso à disposição, e as coisas não chegam com facilidade. Isso faz com que a gente desenvolva criatividade, aprenda a encontrar soluções com o que tem em mãos e a transformar a energia do trabalho em oportunidade. É essa combinação de esforço, adaptação e busca por conhecimento que forma profissionais capazes de atuar em qualquer lugar do mundo”, avalia.

Ivan Lima começou como estagiário no Polo Industrial de Manaus. Hoje é o primeiro amazonense a chegar ao C-Level global

Segundo Ivan, a essência do trabalhador da ZFM está em sua resiliência: fazer mais com menos.

A psicóloga Cíntia Lima, especialista em Gestão Estratégica de Pessoas e atuante há mais de 20 anos no acompanhamento de políticas ligadas à ZFM, resume esse fenômeno ao afirmar que a experiência dentro do polo é um verdadeiro diferencial competitivo humano. “A Zona Franca forma líderes como poucas regiões do país. Muitos começaram no chão de fábrica, como aprendizes ou estagiários, e aprenderam a lidar com tecnologias de ponta”, salienta.

“Hoje, o profissional local, que se aperfeiçoou aqui e que tenha vivências no Polo Industrial de Manaus, tem a oportunidade de sonhar com novos lugares, porque sabe que a experiência dele é tão sólida quanto a experiência de qualquer outro profissional do Brasil ”, completa.

Para ela, o processo de “exportação” de talentos é resultado direto da lógica do polo, que desde a sua implantação exigiu investimentos robustos em capacitação técnica e na formação de gestores capazes de lidar com ambientes complexos.

Desde a implantação do polo, o contato com processos produtivos avançados, importados principalmente do Japão, Coreia do Sul, China e Estados Unidos, fez com que as fábricas investissem pesadamente na qualificação de mão de obra local. Cursos técnicos em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), programas internos de capacitação e convênios com universidades moldaram uma geração de trabalhadores capazes de migrar entre áreas tão diversas quanto engenharia de processos e gestão de qualidade, por exemplo.