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15 anos que transformaram o Polo Industrial de Manaus

Mais tecnológica, a indústria amazonense se reinventou, deu adeus a produtos que marcaram época e abriu espaço para o novo

Vista aérea do polo industrial da Zona Franca de Manaus, na cidade de Manaus, no Amazonas | Divulgação

Em 2010, o Polo Industrial de Manaus encerrava um ciclo de recuperação após a crise global de 2008–2009, com faturamento de R$ 119,9 bilhões. Quinze anos depois, o faturamento quase dobrou e alcançou R$ 227,6 bilhões, novos produtos passaram a ser produzidos e uma profunda transformação ocorreu dentro das fábricas.

O crescimento nominal veio acompanhado de uma transformação estrutural e tecnológica. A indústria instalada em Manaus terminou 2025 não apenas maior, mas com outra configuração produtiva.

De 2010 para cá, houve mudanças do relógio ao ar-condicionado, da bicicleta ao telefone celular. No núcleo do modelo industrial, o setor eletroeletrônico permanece como protagonista, mas agora impulsionado pelos bens de informática.

Não é à toa que, para o presidente da Eletros – a Associação Nacional dos Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos -, os principais produtos que marcam essa transição vêm da informática.

“Tablet, há 15 anos, era um produto que estava surgindo no mercado e acabou ficando. Disseram que seria uma coisa temporária, e se consolida a cada momento”, afirma o presidente,

15 anos que transformaram o Polo Industrial de Manaus

Jorge do Nascimento Júnior. Foto: Divulgação

O executivo destaca, ainda, a evolução tecnológica do telefone celular e do ar-condicionado, hoje com tecnologia inverter, capaz de consumir até 50% menos energia. “São aparelhos com sensores de presença, conectividade e interatividade muito grande com o usuário”, destaca.

Para a Eletros, o setor eletroeletrônico é moderno não apenas no produto, mas no processo fabril. As evoluções são constantes, uma vez que os produtos assim exigem, e as linhas de produção acompanham essa dinâmica tecnológica.

Essa mudança reflete inclusive na mão de obra, hoje mais qualificada em razão da exigência do ambiente robotizado e automatizado. 

“O trabalhador tem que ter minimamente um conhecimento sobre robotização e automatização. O que temos na Zona Franca é o estado da arte e evolução constante de processos fabris”, explica Jorge Júnior.

Na avaliação do Sindicato da Indústria de Aparelhos e Componentes Elétricos e Eletrônicos do Estado do Amazonas (Sinaees), o que se vê hoje é um sinal de maturidade do parque industrial de Manaus, que precisou se renovar com a virada do mercado, com mudança no padrão de consumo que puxou todo o restante das mudanças. 

O avanço do streaming e da conectividade ampliou a demanda por telas, dispositivos integrados e acessórios inteligentes, avalia o diretor executivo do Sinaees, Marcelo Batista.

Em resumo, o mercado mudou e obrigou produto e processo a correrem juntos. “Houve mudança de processo, com mais automação, rastreabilidade, qualidade, eficiência energética e integração digital da cadeia”, completou.

Batista é taxativo ao falar da evolução do PIM. “O eixo tecnológico do Polo permanece robusto e em plena expansão”, afirma. 

O PIM se tornou mais diversificado e mais resiliente, e o conjunto Eletroeletrônico mais Bens de Informática segue como um dos grandes motores tecnológicos do Brasil, pontua o Sinaees.

Mudanças nas prateleiras

A reconfiguração industrial se reflete na pauta de produtos. Em 15 anos, deixaram de ter relevância ou saíram das linhas de produção:

– Compact Disc (inclusive CD-ROM e DVD-ROM)

– DVD Player

– Televisores de tubo (cinescópio)

– Monitores de vídeo com tubo (uso em informática)

– Videocassetes

– Fita cassete e fita de vídeo cassete

– Aparelhos telefônicos fixos (exceto celulares)

Esses produtos não perderam espaço por falta de competitividade local, mas de uma mudança tecnológica que ultrapassa fronteiras. O streaming eliminou a necessidade de mídia física e a convergência digital incorporou múltiplas funções em um único dispositivo.

Em contrapartida, ganharam espaço nas fábricas de Manaus produtos com maior integração tecnológica e valor agregado.

O caso dos condicionadores de ar do tipo split é emblemático. Em 2010, o produto já existia, mas em 2025 apresenta faturamento bilionário e forte presença nas estatísticas de produção.

Tendências sobre rodas

No segmento de Duas Rodas, a evolução tecnológica não se deu apenas pelo aumento da produção, mas pela incorporação de sistemas eletrônicos, freios ABS, injeção eletrônica, sensores e conectividade embarcada.

As bicicletas elétricas, inexistentes na pauta industrial há 15 anos, hoje compõem uma categoria consolidada. 

fabrica Honda Manaus Abraciclo 2

Foto: Divulgação

De acordo com a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo), esses modelos começaram a ser produzidos em 2011. Hoje já são 44 modelos em fabricação e com tendência de aumento da oferta.

“As bicicletas elétricas devem ganhar espaço de forma consistente, refletindo o interesse crescente do consumidor por soluções de mobilidade mais eficientes e sustentáveis”, disse a Abraciclo, em nota.

A entidade que representa o setor destacou que a “eletromobilidade no setor de bicicletas está se consolidando rapidamente, impulsionada pelo crescente interesse do consumidor e pelo compromisso da indústria em oferecer soluções mais sustentáveis e inovadoras para o mercado”.

LINHA DO TEMPO 2010 → 2025

Menos volume, mais valor

O caso dos telefones celulares ilustra a mudança. Em 2010, o volume produzido era maior. Em 2025, o número de unidades produzidas diminuiu cerca de 40%, mas ninguém seria capaz de falar em crise no segmento. Então, o que aconteceu?

A indústria passou a depender menos de produção massificada de baixo preço e mais de produtos tecnologicamente sofisticados.

Marcelo Batista Sinaees

Sinaees aponta maturidade do parque industrial (Foto: Divulgação)

Para Marcelo Batista, a transformação foi puxada pelo mercado. “O consumo deixou de ser “o aparelho em si” e passou a ser “a experiência”: conectividade, serviços, integração com plataformas digitais, atualização constante. A indústria respondeu com mudança de produto, com mais inteligência embarcada, conectados, multifuncionais”, explica.

Emprego e produtividade

Em 2025, o Polo registrou média mensal superior a 131 mil trabalhadores, incluindo efetivos, temporários e terceirizados, número superior ao observado em 2010.

Ao mesmo tempo, a participação relativa de salários e encargos no faturamento total apresenta leve redução ao longo do período, o que sugere maior intensidade tecnológica por trabalhador. A indústria tornou-se mais automatizada, mais integrada a cadeias globais e mais dependente de qualificação técnica.

ITENS NOVOS E ANTIGOS 1

Arte: Suellen Fonseca/ PIM Amazônia

 

Os puxadores do emprego

Total do PIM = 103 mil

2010

1 – Eletroeletrônico + Bens de informática: 41 mil (39%)

2 – Duas Rodas: 18 mil (17%)

3 – Termoplástico: 10 mil (9%) 

2025

Total do PIM = 131 mil

1 – Eletroeletrônico + Bens de informática: 47 mil (36%)

2 – Duas Rodas: 26 mil (19%)

3 – Termoplástico: 16 mil (12%)

Fonte: Indicadores de Desempenho da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa)

 

Um modelo que se adapta

Criada em 1967, a Suframa chega aos 59 anos coordenando um polo industrial cujo horizonte legal se estende até 2073.

Desde 2010, 11 gestores passaram pela superintendência, em um total de 27 ao longo da história da autarquia. Apesar da rotatividade administrativa, o modelo industrial permaneceu operacionalmente ativo e adaptável às transformações globais.

Se 2010 marcou um momento de recuperação econômica, 2025 consolidou um Polo mais complexo, mais diversificado e tecnologicamente mais exigente.

A Zona Franca se aproxima dos 60 anos com uma evidência clara: a sustentabilidade do modelo depende da capacidade de adaptação às mudanças tecnológicas e às novas demandas do mercado.

O desafio agora não é apenas manter volume de produção, mas garantir inserção nas próximas ondas tecnológicas — inteligência artificial embarcada, mobilidade elétrica, integração digital e manufatura avançada.

Testemunha das mudanças

Há 15 anos, em 2010, foi lançada a revista PIM Amazônia, com foco principal na cobertura da economia local. Neste período, a publicação cresceu e se diversificou, tornando-se uma plataforma de jornalismo econômico comprometida com o desenvolvimento da região Amazônica.

Em suas reportagens, a revista reúne vozes especializadas e dados que subsidiam decisões de mercado e políticas públicas na Amazônia Legal.

Com uma linha editorial voltada à realidade socioeconômica da região, a revista se consolidou como referência entre gestores, empreendedores, acadêmicos e formuladores de políticas que buscam uma leitura aprofundada e contextualizada dos principais vetores de crescimento e dos desafios estruturais da Amazônia.