Indústria
Zona Franca de Manaus exporta talentos Brasil afora
Profissionais formados no polo industrial de manaus ocupam cargos de liderança em empresas no brasil e no exterior
Foto: Divulgação
Ali, ele assimilou a disciplina necessária para traduzir desafios em soluções práticas, desenvolver a linguagem dos números como instrumento de gestão e aprender a negociar em cenários de alta competitividade, sobretudo após a aquisição da Multibrás pela Flextronics em 2005, quando o grupo passa a se chamar Masa da Amazônia.
Nesse período, ao estar em constante contato com o diretor da Flextronics no Brasil, o estadunidense Brad Bissell, e outros profissionais com nacionalidades distintas, Ivan passou a aprimorar seus conhecimentos na língua inglesa, recebendo auxílio da empresa para realizar cursos nos Estados Unidos e Canadá.
Com o entrosamento, Ivan recebeu, e aceitou, a proposta para gerir financeiramente a unidade de Sorocaba, São Paulo, onde passou dois anos. A partir disso, ele migrou para outros cargos em plantas da Flextronics em outros países, como Ucrânia, Romênia e Índia. O ciclo de Ivan na empresa encerra-se em Dallas, Estados Unidos, na função de vice-presidente de operações globais.
A base construída em Manaus, durante mais de duas décadas, se reflete em uma trajetória global: Ivan ocupa hoje o cargo de Chief Supply Chain Officer (Presidente de Cadeia Produtiva e Operações) da multinacional Boyd Corporation, sediada no Texas, Estados Unidos, onde lidera processos que cruzam fronteiras e lidam com regulações distintas em diferentes mercados. Com isso, Ivan tornou-se, o primeiro amazonense a alcançar a chamada C-Level, faixa máxima da hierarquia executiva global.

Ivan Lima
SOBRE A BOYD CORPORATION
A Boyd Corporation é atualmente uma das principais empresas globais em soluções de materiais de engenharia e gestão térmica sustentável. A Boyd desenvolve tecnologias para selar, proteger, resfriar e isolar, atendendo a setores como veículos elétricos, infraestrutura 5G, data centers, dispositivos médicos, transporte, defesa e eletrônica de alta performance. Seu portfólio inclui soluções que vão desde refrigeração líquida, troca de calor por dois estágios, até dissipadores de calor por ar. A empresa não possui unidades no Brasil.
Em seu crescimento, a Boyd expandiu suas capacidades técnicas e alcance global por meio de aquisições estratégicas. Um exemplo recente é a aquisição, em julho de 2022, da Sensata’s Thermal Test and Controls Business, especializada em sistemas avançados de controle térmico e teste para semicondutores, fortalecendo a presença da empresa no mercado de alta tecnologia para memória e lógica. Anteriormente, em 2019, havia integrado ao seu portfólio a divisão Aavid – Thermal Division, consolidando-se como referência em soluções de eletrônica de ponta, com técnicas de dissipação por ar, líquido, dois estágios e heat pipes.Ao contar sua trajetória, Ivan é firme em atribuir grande parte de seu crescimento à estrutura oferecida pela fábrica em Manaus e ao investimento contínuo em formação. Depois de concluir o ensino superior, buscou duas especializações, uma em finanças e outra em logística, que o permitiram transitar com fluência entre áreas administrativas e produtivas.
Essa combinação de bagagem acadêmica com vivência prática foi o trampolim para novos voos. Ao assumir funções de planejamento e compras, ele passou a traduzir empecilhos do dia a dia em indicadores estratégicos, a redesenhar fluxos e a ampliar a interlocução entre fábrica, fornecedor e cliente.
“A fábrica me ajudou bastante no plano de carreira, suporte financeiro e técnico para o meu desenvolvimento e isso foi decisivo para uma transição ao mercado internacional. O fato de ”, diz. Para ele, a passagem pelo Distrito Industrial não representou apenas um capítulo inicial, mas a construção de um repertório que permanece como diferencial competitivo em sua atuação atual.

Esse padrão de ascensão não é um caso isolado. Ao longo de mais de cinco décadas, a ZFM consolidou-se não apenas como motor econômico da Amazônia, mas também como um berço de competências profissionais que, moldadas no ritmo das fábricas, são hoje disputadas por empresas no Brasil e no exterior. Para Ivan, a essência do trabalhador da ZFM está em sua resiliência: fazer mais com menos.
“O trabalhador da Zona Franca de Manaus tem uma característica muito própria: ele aprende a ser resolutivo. Em Manaus, nem sempre se tem o melhor recurso à disposição, e as coisas não chegam com facilidade. Isso faz com que a gente desenvolva criatividade, aprenda a encontrar soluções com o que tem em mãos e a transformar a energia do trabalho em oportunidade. É essa combinação de esforço, adaptação e busca por conhecimento que forma profissionais capazes de atuar em qualquer lugar do mundo”, avalia.
A psicóloga Cíntia Lima, especialista em Gestão Estratégica de Pessoas e atuante há mais de 20 anos no acompanhamento de políticas ligadas à ZFM, resume esse fenômeno ao afirmar que a experiência dentro do polo é um verdadeiro diferencial competitivo humano. “A Zona Franca forma líderes como poucas regiões do país. Muitos começaram no chão de fábrica, como aprendizes ou estagiários, e aprenderam a lidar com tecnologias de ponta”, salienta.“Hoje, o profissional local, que se aperfeiçoou aqui e que tenha vivências no Polo Industrial de Manaus, tem a oportunidade de sonhar com novos lugares, porque sabe que a experiência dele é tão sólida quanto a experiência de qualquer outro profissional do Brasil ”, completa.

Cíntia Lima
Para ela, o processo de “exportação” de talentos é resultado direto da lógica do polo, que desde a sua implantação exigiu investimentos robustos em capacitação técnica e na formação de gestores capazes de lidar com ambientes complexos.
Desde a implantação do polo, o contato com processos produtivos avançados, importados principalmente do Japão, Coreia do Sul, China e Estados Unidos, fez com que as fábricas investissem pesadamente na qualificação de mão de obra local. Cursos técnicos em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), programas internos de capacitação e convênios com universidades moldaram uma geração de trabalhadores capazes de migrar entre áreas tão diversas quanto engenharia de processos e gestão de qualidade, por exemplo.
Segundo a Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), somente em novembro de 2024, o Senai Amazonas registrou 40.897 matrículas em cursos técnicos e de aperfeiçoamento, sendo mais de 40 mil delas gratuitas. A instituição também vem ampliando sua grade com conteúdos voltados para a Indústria 4.0, como robótica colaborativa, inteligência artificial e manufatura aditiva, a fim de garantir que a mão de obra formada em Manaus esteja preparada não apenas para os desafios locais, mas também para os padrões globais de competitividade.
A experiência amazônica também chama a atenção de executivos que lidam diretamente com o polo. Luciano Oliveira, diretor industrial da Midea Carrier em Manaus, enxerga a Zona Franca como uma “escola prática” de gestão industrial, na qual a diversidade de linhas produtivas e a necessidade de adaptação constante formam profissionais resilientes e criativos.
“O Polo de Manaus funciona como um laboratório. Aqui, o profissional se depara com linhas de produção diversas, pressões de competitividade internacional e necessidade de adaptação constante. Esse ambiente desenvolve habilidades únicas que tornam o trabalhador de Manaus diferenciado, preparado para atuar em qualquer parte do mundo”, afirma.
No grupo Midea, de acordo com Luciano, uma das iniciativas é o desenvolvimento de capacitações em coaching, em que os colaboradores podem receber mentoria de uma pessoa que tem mais conhecimento e experiência no nicho e, ao mesmo tempo, ensinar aquilo que já sabe para alguém que está iniciando profissionalmente.
Adicionalmente, há ações educacionais, o que inclui o oferecimento de bolsas de pós-graduação e programas de mestrado. Parcerias na educação de base com instituições como a Fundação Matias Machline complementam o plano de formação dos colaboradores da empresa. Essas iniciativas, nas palavras de Luciano, “são caminhos que o grupo encontra para fomentar os pilares do selo GPTW (Great Place To Work)”, que reconhece as melhores empresas para se trabalhar. “Desenvolvimento educacional é uma das chaves que a Midea usa para a retenção de talentos”, atribui o diretor.

Luciano Oliveira
No grupo Midea, de acordo com Luciano, uma das iniciativas é o desenvolvimento de capacitações em coaching, em que os colaboradores podem receber mentoria de uma pessoa que tem mais conhecimento e experiência no nicho e, ao mesmo tempo, ensinar aquilo que já sabe para alguém que está iniciando profissionalmente.
Adicionalmente, há ações educacionais, o que inclui o oferecimento de bolsas de pós-graduação e programas de mestrado. Parcerias na educação de base com instituições como a Fundação Matias Machline complementam o plano de formação dos colaboradores da empresa. Essas iniciativas, nas palavras de Luciano, “são caminhos que o grupo encontra para fomentar os pilares do selo GPTW (Great Place To Work)”, que reconhece as melhores empresas para se trabalhar. “Desenvolvimento educacional é uma das chaves que a Midea usa para a retenção de talentos”, atribui o diretor.
Lúcio Flávio de Oliveira, presidente executivo do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam), concorda e diz que a movimentação representa um “ativo simbólico” da ZFM. “Ela mostra que o modelo amazônico tem competência não só para produzir bens, mas também conhecimento, inovação e capital humano competitivo”, salienta.
Dimensão nacional
O presidente da Diretoria Executiva da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) no Amazonas, Francisco de Assis Mendes, reforça que a experiência vai além da dimensão local, alcançando uma referência nacional.
“A Zona Franca é um caso raro de política industrial que gerou não só empregos, mas também carreiras globais. O investimento em capacitação ao longo dos anos construiu um patrimônio humano que hoje é referência para empresas do Brasil inteiro. Não falamos apenas de técnicos altamente treinados, mas de lideranças capazes de inovar em diferentes culturas organizacionais”, pontua.
O caso da administradora Mariana Marques confirma o movimento de ascensão profissional proporcionado pela ZFM. Assim como Ivan Lima, ela iniciou a carreira como estagiária de administração, porém já na Masa da Amazônia e construiu uma trajetória de crescimento que a levou, hoje, ao cargo de diretora corporativa da multinacional Flextronics, atuando na matriz localizada em Sorocaba.
Mariana começou no setor de planejamento de produção, transitou pelos departamentos de materiais e suporte de operações, assumiu funções como assistant controller e controller, até chegar à área financeira, onde, segundo relata, “se encontrou”. Atualmente, é responsável pela governança financeira de diferentes unidades da empresa e pela análise estratégica de resultados que norteiam decisões de alto impacto, em contato direto com a equipe dos Estados Unidos.
A trajetória de Mariana espelha o que se tornou quase uma marca registrada da ZFM: jovens que ingressam como estagiários, passam por experiências em áreas distintas e, com o tempo, tornam-se gestores aptos a atuar em cenários globais. Para ela, um dos fatores decisivos nessa caminhada foi a busca pelo aperfeiçoamento no inglês, algo que continua sendo, em suas palavras, “determinante para qualquer processo de ascensão de carreira”.
Ela também enxerga a migração de talentos para fora de Manaus como um reflexo de reconhecimento e excelência.
“É uma valorização do trabalho que a gente faz. Costumamos achar que estamos distantes do mundo por estarmos isolados do restante do Brasil, mas, hoje em dia, não existem tantas barreiras. Há espaço para quem está disposto a se desenvolver e se qualificar. O polo precisa dessas pessoas para continuar seu crescimento”, ressalta.
Além da experiência individual, Mariana aponta para a importância do ecossistema de inovação e pesquisa existente em Manaus. Ela cita institutos como o FID (Faculdades Integradas Diamantino, mantido pela Flex), o Sidia – Instituto de Ciência e Tecnologia da Samsung –, além de centros de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) vinculados a outras empresas, que atuam em áreas como automação, inteligência artificial e desenvolvimento de softwares. Na visão dela, “essas estruturas ampliam as oportunidades de formação e retenção de profissionais locais”.
A administradora também defende que o investimento das empresas na qualificação é essencial para diminuir a distância em relação aos grandes centros, destacando que a participação em congressos, seminários e cursos deve ser estimulada, pois “o talento existe, a vontade de fazer um bom trabalho também existe”. Para ela, o futuro do Polo depende diretamente da capacidade de formar quadros locais cada vez mais preparados para os desafios da economia global.
Foi na rotação entre setores da antiga Multibrás da Amazônia, ainda como estagiário de Administração, que Ivan Lima descobriu a força transformadora da Zona Franca de Manaus (ZFM). Aprovado em um processo seletivo promovido pelo Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), o jovem Ivan pôde vivenciar o plano de estágio desenvolvido pelo então diretor-presidente do grupo, Ulisses Tapajós.
Já em funções efetivas, ele transitou por áreas diversas, como engenharia de processos e materiais, produção e comercial, experimentando desde cedo a pressão dos prazos curtos e a limitação de custos, e aprendendo a tomar decisões que se refletiam em toda a cadeia produtiva. O ambiente, marcado por tecnologias de ponta e pela convivência com metodologias importadas, serviu como escola para muito mais do que habilidades técnicas.
Ali, ele assimilou a disciplina necessária para traduzir desafios em soluções práticas, desenvolver a linguagem dos números como instrumento de gestão e aprender a negociar em cenários de alta competitividade, sobretudo após a aquisição da Multibrás pela Flextronics em 2005, quando o grupo passa a se chamar Masa da Amazônia.
Nesse período, ao estar em constante contato com o diretor da Flextronics no Brasil, o estadunidense Brad Bissell, e outros profissionais com nacionalidades distintas, Ivan passou a aprimorar seus conhecimentos na língua inglesa, recebendo auxílio da empresa para realizar cursos nos Estados Unidos e Canadá.
Com o entrosamento, Ivan recebeu, e aceitou, a proposta para gerir financeiramente a unidade de Sorocaba, São Paulo, onde passou dois anos. A partir disso, ele migrou para outros cargos em plantas da Flextronics em outros países, como Ucrânia, Romênia e Índia. O ciclo de Ivan na empresa encerra-se em Dallas, Estados Unidos, na função de vice-presidente de operações globais.
A base construída em Manaus, durante mais de duas décadas, se reflete em uma trajetória global: Ivan ocupa hoje o cargo de Chief Supply Chain Officer (Presidente de Cadeia Produtiva e Operações) da multinacional Boyd Corporation, sediada no Texas, Estados Unidos, onde lidera processos que cruzam fronteiras e lidam com regulações distintas em diferentes mercados. Com isso, Ivan tornou-se, o primeiro amazonense a alcançar a chamada C-Level, faixa máxima da hierarquia executiva global.

Ivan Lima
SOBRE A BOYD CORPORATION
A Boyd Corporation é atualmente uma das principais empresas globais em soluções de materiais de engenharia e gestão térmica sustentável. A Boyd desenvolve tecnologias para selar, proteger, resfriar e isolar, atendendo a setores como veículos elétricos, infraestrutura 5G, data centers, dispositivos médicos, transporte, defesa e eletrônica de alta performance. Seu portfólio inclui soluções que vão desde refrigeração líquida, troca de calor por dois estágios, até dissipadores de calor por ar. A empresa não possui unidades no Brasil.
Em seu crescimento, a Boyd expandiu suas capacidades técnicas e alcance global por meio de aquisições estratégicas. Um exemplo recente é a aquisição, em julho de 2022, da Sensata’s Thermal Test and Controls Business, especializada em sistemas avançados de controle térmico e teste para semicondutores, fortalecendo a presença da empresa no mercado de alta tecnologia para memória e lógica. Anteriormente, em 2019, havia integrado ao seu portfólio a divisão Aavid – Thermal Division, consolidando-se como referência em soluções de eletrônica de ponta, com técnicas de dissipação por ar, líquido, dois estágios e heat pipes.Ao contar sua trajetória, Ivan é firme em atribuir grande parte de seu crescimento à estrutura oferecida pela fábrica em Manaus e ao investimento contínuo em formação. Depois de concluir o ensino superior, buscou duas especializações, uma em finanças e outra em logística, que o permitiram transitar com fluência entre áreas administrativas e produtivas.
Essa combinação de bagagem acadêmica com vivência prática foi o trampolim para novos voos. Ao assumir funções de planejamento e compras, ele passou a traduzir empecilhos do dia a dia em indicadores estratégicos, a redesenhar fluxos e a ampliar a interlocução entre fábrica, fornecedor e cliente.
“A fábrica me ajudou bastante no plano de carreira, suporte financeiro e técnico para o meu desenvolvimento e isso foi decisivo para uma transição ao mercado internacional. O fato de ”, diz. Para ele, a passagem pelo Distrito Industrial não representou apenas um capítulo inicial, mas a construção de um repertório que permanece como diferencial competitivo em sua atuação atual.
Esse padrão de ascensão não é um caso isolado. Ao longo de mais de cinco décadas, a ZFM consolidou-se não apenas como motor econômico da Amazônia, mas também como um berço de competências profissionais que, moldadas no ritmo das fábricas, são hoje disputadas por empresas no Brasil e no exterior. Para Ivan, a essência do trabalhador da ZFM está em sua resiliência: fazer mais com menos.
“O trabalhador da Zona Franca de Manaus tem uma característica muito própria: ele aprende a ser resolutivo. Em Manaus, nem sempre se tem o melhor recurso à disposição, e as coisas não chegam com facilidade. Isso faz com que a gente desenvolva criatividade, aprenda a encontrar soluções com o que tem em mãos e a transformar a energia do trabalho em oportunidade. É essa combinação de esforço, adaptação e busca por conhecimento que forma profissionais capazes de atuar em qualquer lugar do mundo”, avalia.
A psicóloga Cíntia Lima, especialista em Gestão Estratégica de Pessoas e atuante há mais de 20 anos no acompanhamento de políticas ligadas à ZFM, resume esse fenômeno ao afirmar que a experiência dentro do polo é um verdadeiro diferencial competitivo humano. “A Zona Franca forma líderes como poucas regiões do país. Muitos começaram no chão de fábrica, como aprendizes ou estagiários, e aprenderam a lidar com tecnologias de ponta”, salienta.“Hoje, o profissional local, que se aperfeiçoou aqui e que tenha vivências no Polo Industrial de Manaus, tem a oportunidade de sonhar com novos lugares, porque sabe que a experiência dele é tão sólida quanto a experiência de qualquer outro profissional do Brasil ”, completa.

Cíntia Lima
Para ela, o processo de “exportação” de talentos é resultado direto da lógica do polo, que desde a sua implantação exigiu investimentos robustos em capacitação técnica e na formação de gestores capazes de lidar com ambientes complexos.
Desde a implantação do polo, o contato com processos produtivos avançados, importados principalmente do Japão, Coreia do Sul, China e Estados Unidos, fez com que as fábricas investissem pesadamente na qualificação de mão de obra local. Cursos técnicos em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), programas internos de capacitação e convênios com universidades moldaram uma geração de trabalhadores capazes de migrar entre áreas tão diversas quanto engenharia de processos e gestão de qualidade, por exemplo.
Segundo a Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), somente em novembro de 2024, o Senai Amazonas registrou 40.897 matrículas em cursos técnicos e de aperfeiçoamento, sendo mais de 40 mil delas gratuitas. A instituição também vem ampliando sua grade com conteúdos voltados para a Indústria 4.0, como robótica colaborativa, inteligência artificial e manufatura aditiva, a fim de garantir que a mão de obra formada em Manaus esteja preparada não apenas para os desafios locais, mas também para os padrões globais de competitividade.
A experiência amazônica também chama a atenção de executivos que lidam diretamente com o polo. Luciano Oliveira, diretor industrial da Midea Carrier em Manaus, enxerga a Zona Franca como uma “escola prática” de gestão industrial, na qual a diversidade de linhas produtivas e a necessidade de adaptação constante formam profissionais resilientes e criativos.
“O Polo de Manaus funciona como um laboratório. Aqui, o profissional se depara com linhas de produção diversas, pressões de competitividade internacional e necessidade de adaptação constante. Esse ambiente desenvolve habilidades únicas que tornam o trabalhador de Manaus diferenciado, preparado para atuar em qualquer parte do mundo”, afirma.
No grupo Midea, de acordo com Luciano, uma das iniciativas é o desenvolvimento de capacitações em coaching, em que os colaboradores podem receber mentoria de uma pessoa que tem mais conhecimento e experiência no nicho e, ao mesmo tempo, ensinar aquilo que já sabe para alguém que está iniciando profissionalmente.
Adicionalmente, há ações educacionais, o que inclui o oferecimento de bolsas de pós-graduação e programas de mestrado. Parcerias na educação de base com instituições como a Fundação Matias Machline complementam o plano de formação dos colaboradores da empresa. Essas iniciativas, nas palavras de Luciano, “são caminhos que o grupo encontra para fomentar os pilares do selo GPTW (Great Place To Work)”, que reconhece as melhores empresas para se trabalhar. “Desenvolvimento educacional é uma das chaves que a Midea usa para a retenção de talentos”, atribui o diretor.

Luciano Oliveira
No grupo Midea, de acordo com Luciano, uma das iniciativas é o desenvolvimento de capacitações em coaching, em que os colaboradores podem receber mentoria de uma pessoa que tem mais conhecimento e experiência no nicho e, ao mesmo tempo, ensinar aquilo que já sabe para alguém que está iniciando profissionalmente.
Adicionalmente, há ações educacionais, o que inclui o oferecimento de bolsas de pós-graduação e programas de mestrado. Parcerias na educação de base com instituições como a Fundação Matias Machline complementam o plano de formação dos colaboradores da empresa. Essas iniciativas, nas palavras de Luciano, “são caminhos que o grupo encontra para fomentar os pilares do selo GPTW (Great Place To Work)”, que reconhece as melhores empresas para se trabalhar. “Desenvolvimento educacional é uma das chaves que a Midea usa para a retenção de talentos”, atribui o diretor.
Lúcio Flávio de Oliveira, presidente executivo do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam), concorda e diz que a movimentação representa um “ativo simbólico” da ZFM. “Ela mostra que o modelo amazônico tem competência não só para produzir bens, mas também conhecimento, inovação e capital humano competitivo”, salienta.
Dimensão nacional
O presidente da Diretoria Executiva da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) no Amazonas, Francisco de Assis Mendes, reforça que a experiência vai além da dimensão local, alcançando uma referência nacional.
“A Zona Franca é um caso raro de política industrial que gerou não só empregos, mas também carreiras globais. O investimento em capacitação ao longo dos anos construiu um patrimônio humano que hoje é referência para empresas do Brasil inteiro. Não falamos apenas de técnicos altamente treinados, mas de lideranças capazes de inovar em diferentes culturas organizacionais”, pontua.
O caso da administradora Mariana Marques confirma o movimento de ascensão profissional proporcionado pela ZFM. Assim como Ivan Lima, ela iniciou a carreira como estagiária de administração, porém já na Masa da Amazônia e construiu uma trajetória de crescimento que a levou, hoje, ao cargo de diretora corporativa da multinacional Flextronics, atuando na matriz localizada em Sorocaba.
Mariana começou no setor de planejamento de produção, transitou pelos departamentos de materiais e suporte de operações, assumiu funções como assistant controller e controller, até chegar à área financeira, onde, segundo relata, “se encontrou”. Atualmente, é responsável pela governança financeira de diferentes unidades da empresa e pela análise estratégica de resultados que norteiam decisões de alto impacto, em contato direto com a equipe dos Estados Unidos.
A trajetória de Mariana espelha o que se tornou quase uma marca registrada da ZFM: jovens que ingressam como estagiários, passam por experiências em áreas distintas e, com o tempo, tornam-se gestores aptos a atuar em cenários globais. Para ela, um dos fatores decisivos nessa caminhada foi a busca pelo aperfeiçoamento no inglês, algo que continua sendo, em suas palavras, “determinante para qualquer processo de ascensão de carreira”.
Ela também enxerga a migração de talentos para fora de Manaus como um reflexo de reconhecimento e excelência.
“É uma valorização do trabalho que a gente faz. Costumamos achar que estamos distantes do mundo por estarmos isolados do restante do Brasil, mas, hoje em dia, não existem tantas barreiras. Há espaço para quem está disposto a se desenvolver e se qualificar. O polo precisa dessas pessoas para continuar seu crescimento”, ressalta.
Além da experiência individual, Mariana aponta para a importância do ecossistema de inovação e pesquisa existente em Manaus. Ela cita institutos como o FID (Faculdades Integradas Diamantino, mantido pela Flex), o Sidia – Instituto de Ciência e Tecnologia da Samsung –, além de centros de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) vinculados a outras empresas, que atuam em áreas como automação, inteligência artificial e desenvolvimento de softwares. Na visão dela, “essas estruturas ampliam as oportunidades de formação e retenção de profissionais locais”.
A administradora também defende que o investimento das empresas na qualificação é essencial para diminuir a distância em relação aos grandes centros, destacando que a participação em congressos, seminários e cursos deve ser estimulada, pois “o talento existe, a vontade de fazer um bom trabalho também existe”. Para ela, o futuro do Polo depende diretamente da capacidade de formar quadros locais cada vez mais preparados para os desafios da economia global.
