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Como a chegada de Trump à Venezuela impacta a Amazônia

Veja como o petróleo venezuelano impacta o comércio e a dinâmica da fronteira Norte do Brasil

Arte: Suellen Fonseca/ PIM Amazônia

A Venezuela voltou ao centro do tabuleiro geopolítico internacional Sanções econômicas, decisões estratégicas dos Estados Unidos e disputas no mercado de energia colocaram o petróleo venezuelano no foco da maior potência econômica e militar do planeta: os Estados Unidos. As tensões entre Washington e Caracas não apenas colocam em risco o equilíbrio político no continente, mas trazem impactos diretos sobre o comércio, a logística e a dinâmica do dia a dia na fronteira com a Região Norte do Brasil.

Mais do que um episódio isolado, o momento atual é desdobramento de uma disputa histórica que atravessa décadas No centro dela está o controle das maiores reservas de petróleo do planeta e o papel desse recurso na segurança energética norte-americana.

Nesta reportagem, a Revista Pim Amazônia reconstrói a linha do tempo essencial para compreender a crise, reúne análises de especialistas e aponta os possíveis efeitos desse novo capítulo de instabilidade venezuelana sobre estados brasileiros.

Quando o petróleo vira instrumento de pressão

Nos últimos meses, decisões tomadas em Washington ampliaram a pressão sobre Caracas. Sanções, restrições à exploração de petróleo, ameaças diplomáticas e movimentações militares no Caribe passaram a compor um cenário de instabilidade que vai além do campo político.

Os efeitos se espalham por cadeias produtivas, fluxos comerciais e relações geopolíticas multilaterais. De acordo com especialistas, entender a crise exige olhar para além dos fatos recentes.

A Venezuela carrega uma dependência do petróleo que, em momentos como o atual, de crise internacional, transforma a riqueza em vulnerabilidade. 

É nesse contexto – marcado por disputas e interesses internacionais – que se desdobram os eventos aqui desenhados.

Do poço ao poder: a linha do tempo do petróleo venezuelano

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1914-1928 | A descoberta que muda tudo

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A perfuração do poço Zumaque I, no estado de Zulia, em 1914, marca a transição da Venezuela de uma economia agrária para um país com vocação energética. Na década seguinte, de 1920, companhias estrangeiras passam a dominar o setor – sobretudo norte-americanas, britânicas e holandesas. Essas empresas são atraídas pelo baixo custo de extração e pela qualidade do óleo.

1928–1943 | O maior exportador, mas com o Estado fora do jogo

Em 1928, a Venezuela se torna o maior exportador de petróleo do planeta. O setor cresce sob controle quase absoluto de empresas estrangeiras, enquanto o Estado arrecada pouco e tem participação limitada nas decisões estratégicas. O petróleo passa a moldar a economia, a política e as relações internacionais do país. Aqui vemos o início de uma dependência estrutural que atravessaria o século.

1943-1960 | O Estado entra no jogo

A aprovação da Lei dos Hidrocarbonetos foi um divisor de águas, estabelecendo a divisão 50/50 dos lucros. Agora, finalmente, o governo venezuelano passou a exigir maior participação nos lucros e teve o poder fortalecido. A ação inspirou outros países produtores e deu origem, mais tarde, à uma das mais importantes organizações do planeta. 

1960 | Fundação da OPEP

A Venezuela é um dos cinco países fundadores da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), ao lado de Arábia Saudita, Irã, Iraque e Kuwait. A organização passou a ser um instrumento de poder e barganha.

1976 | Nacionalização e criação da PDVSA

Em 1976, o governo venezuelano consolida o controle estatal sobre o petróleo. Cria a Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA), que se torna uma das maiores do mundo. 

Anos 1990 | Abertura e controvérsias

Com a queda nos preços internacionais do petróleo, o governo promove uma abertura parcial do setor, permitindo parcerias com empresas estrangeiras, sobretudo para explorar o petróleo pesado da Faixa do Orinoco. O movimento reacende debates sobre soberania energética.

1999–2013 | Hugo Chávez e o petróleo como projeto político

Com a chegada de Hugo Chávez ao poder, o petróleo passa a financiar políticas sociais e a projeção regional da Venezuela por meio de acordos energéticos com países da América Latina e do Caribe.

2014–2021 | Queda dos preços e início do colapso. E a China

A queda dos preços, a má gestão e as sanções provocam um colapso na produçaõ venezuelana de petróleo. A produção despencou, atingindo cerca de 665 mil barris por dia em 2021. Para contornar o bloqueio, a Venezuela redireciona suas exportações principalmente para a China, que passa a absorver cerca de 80% do petróleo venezuelano, por meio de esquemas logísticos e financeiros alternativos.

2024-2025 | Recuperação parcial

A produção volta a girar em torno de 1 milhão de barris por dia. Mas lembra da vulnerabilidade? O petróleo segue respondendo por cerca de 88% das exportações, impulsionado o PIB, mas mantendo a elevada dependência estrutural.

2025-2026 | A escalada na tensão

 

A dependência do petróleo se transforma, novamente, em instrumento de pressão

 

  • Março de 2025 – EUA impõem tarifa de 25% sobre os países que importam da Venezuela

 

  • Maio de 2025 – Washington não renova a licença da Chevron

 

  • Dezembro de 2025 – Operação naval no Caribe passa a interceptar petroleiros. Uma operação militar estava ganhando contornos mais claros.

 

  • Janeiro de 2026 – Operação militar em Caracas e a captura de Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores.

 

Petróleo, poder e interesses estratégicos

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A Venezuela concentra em torno de 300 bilhões de barris de petróleo, aproximadamente 17% das reservas globais, mais do que Arábia Saudita e Irã. 

O que poderia ser um canal de riqueza, escorre pela estrutura precária. A produção venezuelana representa menos de 1% do total global e a maior parte é vendida para a China.

Para o cientista político Paulo Roberto Siberino, o centro dos acontecimentos da primeira semana de janeiro de 2026 é estratégico. A instabilidade está diretamente ligada ao uso e ao destino dos recursos naturais do país.

“O que está em jogo é a discordância geopolítica dos Estados Unidos em relação ao uso dos recursos naturais da Venezuela, que vinham sendo exportados para países que se opõem aos interesses estratégicos norte-americanos, como Rússia e China”, explica.

Crescimento concentrado e vulnerável

A Venezuela aparece hoje como peça central na estratégia hemisférica norte-americana, tanto do ponto de vista econômico quanto geopolítico. O acesso direto às reservas petrolíferas e à cadeia de refino torna-se elemento decisivo nas negociações diplomáticas e comerciais.

De acordo com a Statistical Review of World Energy, publicação do Instituto de Energia (EI), o país produziu cerca de 3,7 milhões de barris de petróleo por dia nos anos 1970. 

Esse volume foi reduzido ao longo do tempo até atingir um dos níveis mais baixos da história recente, com 665 mil barris diários em 2021. 

Estimativas indicam que as sanções provocaram perdas acumuladas de US$ 226 bilhões em receitas petrolíferas entre 2017 e 2024 — valor superior ao próprio PIB atual da Venezuela, estimado em US$ 108,5 bilhões. Este é o resultado de um estudo do Instituto Tricontinental, com base em dados da Global South Insights.

Atualmente, o petróleo responde por 88% das exportações, estimadas em US$ 24 bilhões.

Paulo Roberto Siberino avalia que a retomada do diálogo entre Washington e Caracas sinaliza uma tentativa de reorganizar essa relação, mas pondera que ainda não houve avanços concretos em temas sensíveis, como o descongelamento de ativos venezuelanos retidos em bancos internacionais e a retirada de bloqueios sobre equipamentos e insumos essenciais ao setor petrolífero.

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O reflexo direto no Norte do Brasil

A crise venezuelana afeta de forma desigual os estados da região Norte. O comércio bilateral Brasil-Venezuela caiu quase 80% nas últimas décadas, passando de US$ 5 bilhões para US$ 1 bilhão.

Para o coordenador do curso de Economia da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Armando Clóvis Marques de Souza, a crise venezuelana já vinha impactando o comércio regional antes mesmo dos episódios mais recentes. 

O agravamento das tensões, no entanto, amplia o grau de instabilidade e reforça a cautela entre empresários, investidores e governos locais.

Roraima sente o impacto de maneira mais intensa do que os demais. No ano passado, a Venezuela respondeu por 34% das exportações, com quase US$ 225 milhões. 

Em julho de 2025, quando a Venezuela impôs tarifas que variam de 15% a 77% sobre produtos brasileiros. A medida afetou diretamente os exportadores de Roraima, gerou protestos do setor produtivo e motivou ações diplomáticas por parte do governo brasileiro.

No Amazonas, os efeitos são mais moderados. A força da Zona Franca de Manaus, com uma pauta produtiva diversificada e voltada ao mercado nacional e a outros parceiros internacionais, reduz a exposição direta. 

Ainda assim, o economista Armando Clóvis alerta para impactos no comércio regional e na logística.

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O maior risco no curto prazo, avalia, é a manutenção de um cenário de incerteza, que tende a frear investimentos e adiar decisões comerciais enquanto não houver maior clareza sobre os rumos políticos e institucionais da Venezuela.

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Por Gabriele Oliveira – Estagiária sob supervisão de Jhemisson Marinho – MTB 1173/AM