MENU
Buscar

Um robô amazônico para a colheita de açaí

Tecnologia desenvolvida no Pará promete aumentar a produtividade, reduzir acidentes e impulsionar a modernização da cadeia do açaí

Um robô desenvolvido pela empresa paraense Kaatech, com sede em Belém, surge como uma das principais apostas para modernizar a colheita de açaí na Amazônia. Batizado de AçaíBot, o equipamento foi lançado em junho e se trata do primeiro robô projetado para a colheita automatizada do açaí em larga escala.

O lançamento ocorre em um momento de forte crescimento da produção no Amazonas. Entre 2018 e 2024, o estado registrou um aumento aproximado de 150% na produção de açaí, saltando de 550,8 mil toneladas para cerca de 1,3 milhão de toneladas, segundo dados divulgados neste ano pelo Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (Idam).

Em 2024, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Amazonas produziu 143.892 toneladas de açaí, somando 91.345 toneladas oriundas de lavouras permanentes e 52.547 toneladas provenientes da extração vegetal tradicional, desempenho que coloca o estado na segunda posição nacional, atrás apenas do Pará.

Segundo a Kaatech, o robô utiliza tecnologia 100% nacional, é operado por controle remoto e consegue realizar entre 80 e 100 subidas em açaizeiros por carga de bateria. Compacto e com aparência semelhante à de um caranguejo, o equipamento possui uma tesoura com serra, respons ável pelo corte dos cachos, além de um gancho de sustentação, que impede a queda do fruto durante a descida.

Com motores elétricos alimentados por bateria, o robô sobe sozinho no açaizeiro, realiza o corte, segura o cacho e retorna ao solo com o fruto, reduzindo drasticamente a necessidade de escalada humana, prática que historicamente expõe os chamados peconheiros a quedas, fraturas e até mortes.

Link para vídeo no Instagram: https://www.instagram.com/reel/DOEbd-BkbyV/?igsh=dHBzanN6M3R5dDB5

“Isso garante dignidade ao ribeirinho, evita acidentes de trabalho e nos ajuda muito a combater o trabalho infantil. Além disso, amplia a produtividade das roças e acelera a colheita”, afirma Reinaldo Santos, idealizador do AçaíBot.

Na mesma linha, o CEO da Kaatech, Marcelo Feliciano, destaca que o equipamento alia produtividade à preservação ambiental. “Ele [o AçaíBot] colhe mais, sem derrubar nenhuma árvore, mantendo a floresta em pé, algo essencial, considerando que mais de 90% do açaí que nasce na floresta ainda não é aproveitado, apesar da crescente demanda no Brasil e no exterior”.

Em demonstrações oficiais, a empresa informou que o AçaíBot alcança uma produtividade superior a 100 cachos colhidos por manhã, desempenho que pode ser até dez vezes maior do que o método tradicional. A Kaatech defende ainda que a automação reduz significativamente os riscos associados à escalada dos açaizeiros, uma das etapas mais perigosas da atividade.

O Governo Federal, por meio do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), anunciou apoio à tecnologia como parte das estratégias de modernização da cadeia produtiva do açaí na Amazônia.

Desafios

Açai açai

Entre os desafios da tecnologia, estão a adaptação do robô a áreas de mata mais fechada, a aceitação por produtores tradicionais e, principalmente, o custo de aquisição. Ainda assim, algumas comunidades já demonstram interesse em linhas de crédito e apoio técnico, o que pode viabilizar a disseminação da tecnologia nos próximos anos.

Em Itacoatiara, na região metropolitana de Manaus, onde há propriedades com milhares de pés de açaí, a robotização é vista com cautela, mas também como um caminho possível. Para Tálison Ferreira da Cunha, gerente do Balneário Recanto da ORTA, que abriga cerca de 5 mil pés de açaí, o AçaíBot dialoga mais diretamente com produções de maior escala.

“A robotização aponta para um modelo de produção mais empresarial e industrial, especialmente em áreas com muitos açaizeiros. Para fazendas médias e grandes, a tecnologia pode representar ganhos reais de produtividade e mais segurança no trabalho”, avalia.

Segundo o gestor, nas explorações familiares, a realidade ainda é distinta: “A produção de menor porte continua muito dependente da peconha e do trabalho manual. Para muitos produtores autônomos, o custo de um equipamento como esse ainda é alto, já que boa parte dos coletores vive no limite financeiro”, observa. No site da empresa, o equipamento custa a partir de R$ 19,5 mil.

Ainda assim, Tálison acredita que a tecnologia sinaliza uma tendência irreversível.

“Com políticas públicas, crédito rural e incentivos adequados, esse tipo de inovação pode, no futuro, chegar também a uma parcela considerável dos pequenos produtores e ajudar a reduzir acidentes e o desgaste físico da colheita”, diz.

Leia mais: Em Palmas, Procon Tocantins encontra variação de 143% nos produtos da ceia de Natal 

Voltado principalmente para pequenos extrativistas, ribeirinhos, associações, cooperativas e programas governamentais, o AçaíBot se posiciona nos modelos B2B e B2G, oferecendo uma alternativa mecanizada à colheita tradicional. Segundo o gestor comercial da Kaatech, Nelson Franzoni, o foco inicial está justamente nas áreas de várzea, sem excluir o uso em terra firme.

Ele informa que, atualmente, o equipamento já desperta interesse em toda a bacia amazônica, com demandas vindas do Pará, Amapá, Roraima, Amazonas, Rondônia e Acre. A empresa afirma que não divulga estimativas de faturamento, por se tratar de informação interna, mas projeta 2026 como um ano de consolidação, com foco em atender à demanda e aprimorar continuamente o robô.

“Nosso objetivo é evoluir o equipamento ouvindo as populações ribeirinhas, incorporando novas tecnologias e, acima de tudo, melhorando a qualidade de vida das pessoas que vivem da floresta”, conclui Franzoni.