Economia
Roraima rumo ao mar: a nova fronteira logística do Brasil pelo Norte
Com o boom do petróleo na Guiana, estado pode se tornar corredor estratégico de exportação
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Isolado dos principais corredores logísticos do País e mais perto do mar do que parece, Roraima pode estar diante de uma mudança estrutural em sua economia. O avanço da indústria petrolífera na Guiana e inauguração do porto de Georgetown redesenham o mapa de acesso ao Atlântico Norte e colocam o estado no centro de uma rota que, se viabilizada, encurta distâncias, reduz custos e reposiciona o Norte brasileiro nas cadeias internacionais.
Com operações do porto já em curso e capacidade para receber navios de grande porte, o porto passa a funcionar como alternativa estratégica para exportações e importações de Roraima.
A nova infraestrutura se insere em um contexto regional em rápida transformação. Impulsionado pelo crescimento vertiginoso da Guiana, o cenário reacende uma pergunta estratégica: Roraima pode se tornar a principal porta de saída do Norte brasileiro para o oceano Atlântico via território guianense?
Desde 2015, quando a ExxonMobil anunciou grandes descobertas de petróleo offshore no bloco Stabroek, a Guiana deixou de ser uma economia periférica para se tornar um dos países de crescimento mais acelerado do mundo. O PIB saltou de US$ 4,2 bilhões para US$ 24 bilhões em 2024, segundo o Banco Mundial.
A produção de petróleo já se aproxima de 900 mil barris por dia, com projeção de atingir até 1,7 milhão até 2030, de acordo com a Secretaria de Relações Exteriores do governo de Roraima.
O mais novo produtor de petróleo da América Latina tornou-se, em 2024, o quinto maior exportador de petróleo bruto da região, atrás de Brasil, México, Venezuela e Colômbia, e figura entre os principais vetores de expansão da oferta global da commodity.
Nesse contexto, Georgetown, uma cidade de cerca de 135 mil habitantes, deixa de ser periférica no comércio internacional para se consolidar como hub energético e logístico. Embora a produção ocorra em alto-mar, é na capital que se concentram operações administrativas, empresas de apoio, investimentos em infraestrutura e serviços que sustentam o novo ciclo econômico do país.
O porto, projetado como um hub logístico de padrão internacional, possui calado de 9 metros e capacidade para embarcações do tipo Panamax, ampliando significativamente o alcance comercial da região. Na prática, abre uma nova rota para o escoamento da produção roraimense, especialmente de grãos e carne, além de viabilizar a entrada de insumos essenciais, como fertilizantes.
A integração foi formalizada por meio de memorando de entendimentos firmado entre o governo de Roraima, representado pelo governador Antonio Denarium, o governo da Guiana, a empresa responsável pelo terminal, a Tristar, e uma operadora de transporte que fará a ligação entre Georgetown e Roraima, ainda sem nome divulgado.

Acordo Roraima Guiana – Novo Porto/Foto: Governo de Roraima
Segundo o governo de Roraima, o acordo estrutura um fluxo logístico contínuo entre os dois territórios, com redução de custos e de tempo no transporte de mercadorias.
“Vamos importar produtos pelo porto da Guiana e fortalecer nossas exportações saindo por aqui. A Guiana tem a necessidade de garantir segurança alimentar para o país e outros membros do bloco do Caribe. E a alternativa mais viável para eles é receber esse alimento do nosso Estado. Uma parceria entre Roraima e Guiana é boa para todo mundo”, afirma Antonio Denarium.
O avanço da infraestrutura ocorre em paralelo à intensificação das relações comerciais entre Roraima e a Guiana. As exportações cresceram de US$ 1,6 milhão em 2018 para US$ 36,4 milhões em 2024, com produtos como soja, milho, carnes e máquinas liderando a pauta. Já as importações são dominadas por fertilizantes, reforçando a importância da nova conexão para sustentar o crescimento produtivo.

Porto de Georgetow/Foto: Governo de Roraima
Para o governo guianense, o porto representa mais do que um investimento em infraestrutura: é a base para uma integração regional mais ampla.
“Esse é o primeiro passo. Vamos desenvolver projetos em parceria e criar o melhor canal de acesso logístico da região no futuro”, afirmou o presidente Mohamed Irfaan Ali.
Segundo a Câmara de Comércio Brasil-Guiana, empresas brasileiras e guianenses já demonstraram interesse em aprofundar o uso do porto de Georgetown como ponto de conexão logística. O movimento envolve setores como alimentos, insumos agrícolas, máquinas e materiais de construção.
“Por parte das empresas da Guiana, também existe interesse em ampliar o comércio com o Brasil e fortalecer o uso do porto como conexão para cargas vindas de Roraima. Mas será importante ampliar o conhecimento sobre as oportunidades logísticas e estimular parcerias entre operadores, agentes portuários e exportadores”, informou a entidade, em nota.
Geografia favorece

Arte: Suellen Fonseca/PIM Amazônia
A posição geográfica reforça essa lógica. Boa Vista está a cerca de 600 quilômetros de Georgetown, distância inferior à de Manaus (750 km) e muito menor que a dos portos do Sudeste, como Santos, a mais de 3 mil quilômetros.
Na prática, isso significa que, para determinados fluxos, pode ser mais eficiente acessar o oceano cruzando a fronteira norte do que percorrer o território nacional até os portos tradicionais.
A conexão física básica já existe: a ponte sobre o rio Tacutu, inaugurada em 2009; a ligação entre Bonfim e Lethem; e a BR-401, que conecta Boa Vista à fronteira.
No papel, o corredor está desenhado. Na prática, ainda enfrenta gargalos relevantes.
O que falta para transformar potencial em realidade
Consultada pela PIM Amazônia, a internacionalista Andrezza de Lima afirma que a cooperação entre Roraima e Guiana é promissora e considera o porto de Georgetown um passo estratégico, inclusive sob a ótica geopolítica.

Apesar disso, ela ressalta que a rota ainda está longe de operar em escala robusta.
Entre os principais entraves está a infraestrutura rodoviária. Do lado brasileiro, a BR-401 ainda apresenta limitações estruturais. No lado guianense, a rodovia Lethem–Georgetown, com cerca de 450 quilômetros, segue parcialmente sem pavimentação, com interrupções frequentes no período chuvoso, quando o tempo de viagem pode ultrapassar 15 horas.
A integração aduaneira também é limitada. Persistem processos manuais, exigência de múltiplos documentos físicos e ausência de sistemas interoperáveis entre os dois países. Além disso, não há um modelo consolidado de aduana integrada (one stop border post), o que gera duplicidade de inspeções e eleva custos.
Há ainda lacunas em acordos bilaterais em áreas como tributação, normas sanitárias e transporte internacional de cargas, o que reduz a previsibilidade para operações de longo prazo.
O papel estratégico da Guiana
Para a Guiana, a integração também é estratégica. O país busca diversificar sua economia além do petróleo e desenvolver cadeias logísticas regionais.
Ao se conectar ao Brasil, pode se consolidar como entreposto comercial, atrair investimentos em infraestrutura e se firmar como hub logístico para o Caribe e a costa norte da América do Sul.
“Historicamente, o Brasil se estruturou voltado ao eixo Sul-Sudeste. A conexão pelo Norte rompe essa lógica e aproxima o País de mercados como Caribe, América do Norte e Europa por rotas mais curtas”, afirma Andrezza.
“Essa relação tende a ser complementar: o Brasil oferece escala produtiva; a Guiana oferece acesso ao mar mais próximo.”
Entre o potencial e a operação efetiva, no entanto, há um intervalo relevante. Transformar Roraima em corredor logístico internacional exigirá mais do que geografia favorável — dependerá de infraestrutura funcional, integração institucional e previsibilidade regulatória.
