Economia
Roraima cresce na agropecuária, mas esbarra em contrastes logísticos
Estado é o 4º maior produtor de grãos da região Norte, mas possui apenas uma rota rodoviária
Roraima colheu, em 2025, a maior safra de grãos de sua história: mais de 700 mil toneladas. Em menos de uma década, a produção se multiplicou por dez – eram 68 mil toneladas em 2017. O avanço expressivo levanta uma pergunta: o estado se encaminha para ser o celeiro do Norte?
A soja lidera essa arrancada roraimense, seguida por arroz e milho, colocando o estado entre os quatro maiores produtores de grãos da região, segundo dados da Secretaria de Estado de Agricultura, Desenvolvimento e Inovação (Seadi).
Mas o crescimento do campo esbarra em um obstáculo básico: como escoar toda essa crescente produção com apenas uma rota terrestre de saída?
Hoje, a única ligação terrestre de Roraima com o restante do Brasil é a rodovia federal BR-174, que conecta Boa Vista a Manaus, no Amazonas, e segue até Cáceres, no Mato Grosso.

Arte: Suellen Fonseca/ Pim Amazônia
Sem plano B
É por essa via que passam insumos, máquinas e praticamente toda a safra, pressionando a margem de ganho dos produtores. Além disso, essa dependência também deixa o estado vulnerável, pois qualquer interrupção no tráfego transforma a logística em um impasse.

FELIPE CASTRO
Diretor da Agroindustrial Serra Verde
“Não é só a distância. Há uma combinação de fatores que encarecem a operação, desde trechos com manutenção irregular, custo elevado de combustível, falta de pontos de apoio ao longo da rota e, principalmente, a ausência de alternativas”, avalia o diretor da Agroindustrial Serra Verde, Felipe Castro. “Simplesmente não existe plano B terrestre para o estado”, frisa.
O impacto é direto no frete, que fica mais caro, mais demorado e reduz a competitividade do produtor frente ao Centro-Oeste, privilegiado com ferrovias, múltiplas rodovias e acesso direto aos portos. O transportador acrescenta no frete custos como o tempo maior de viagem, o desgaste dos veículos, o risco de atrasos e até a dificuldade de retorno com carga.
“No fim das contas, quem paga essa conta é o produtor. Roraima produz, tem qualidade, mas ainda compete em desvantagem logística. A sensação é de que o agro avançou mais rápido do que a logística”, destaca Castro.

Arte: Suellen/Pim Amazônia
Produz mais, porém agrega pouco
A evolução de Roraima é visível, com a área plantada de soja, milho, arroz e feijão saltando de 70 mil hectares, em 2020, para 162 mil em 2025. Somente a soja responde por 132 mil hectares – ou seja, mais de 80% da área total.
O Valor Bruto da Produção (VBP) agropecuária de Roraima chegou a R$ 2,84 bilhões em 2025, segundo dados do Ministério da Agricultura.
“O estado passou a produzir muito mais em pouco tempo, mas ainda captura pouco valor por tonelada produzida. Isso acontece porque grande parte da produção é comercializada como commodity primária, com baixo nível de processamento local, o que reduz o efeito multiplicador sobre a economia”, analisa secretário de Estado de Planejamento e Orçamento de Roraima, Fábio Martinez.

FÁBIO MARTINEZ
Secretário de Estado de Planejamento e Orçamento de Roraima
Para ele, o desafio deixou de ser apenas estimular a produção. “A pergunta hoje não é se Roraima consegue produzir mais, mas se consegue transformar esse crescimento em base econômica sólida. Se o aumento de produção não vier acompanhado de industrialização, diversificação logística e atração de investimentos privados, o risco é crescer em volume sem avançar na estrutura econômica”, afirma.
Pecuária ganha fôlego
Algumas iniciativas em andamento estão tentando mudar esse cenário. A Agroindustrial Serra Verde, considerada o maior projeto industrial fora do Polo Industrial de Manaus, consegue esmagar até mil toneladas de soja por dia, transformando o grão em farelo.
A unidade também realiza o refino diário de 250 toneladas de óleo, com capacidade para armazenar 2 milhões de litros. Como resultado, são produzidas cerca de 770 toneladas diárias de farelo, com capacidade de armazenamento de até 9 mil toneladas de farelo de soja.
Na pecuária, o rebanho soma 1,3 milhão de cabeças de gado, com crescimento acumulado de 85,7% nos últimos sete anos. Em 2025, os abates bateram um recorde, com 180 mil bovinos. Os dados são da Agência de Defesa Agropecuária de Roraima (Aderr).

Arte: Suellen Fonseca/Pim Amazônia
Novos corredores
A saída mais promissora que Roraima teve, nos anos recentes, é o corredor hidroviário pelo Rio Branco, inaugurado em outubro de 2025. A rota fluvial leva grãos até o porto de Itacoatiara, no Amazonas, e promete reduzir custos.
Para Martinez, a próxima fase do agro roraimense exige decisões mais difíceis, especialmente em um momento em que o planejamento público precisa focar menos em expansão e mais em consolidação.
“Caso contrário, o estado corre o risco de permanecer como fornecedor periférico de matéria-prima, mesmo com números expressivos de produção”, afirma.
Maiores produtores de grãos na região Norte

Arte: Suellen Fonseca/ Pim Amazônia
Produção de grãos de Roraima

Arte: Suellen Fonseca/ Pim Amazonia
