Indústria
Produção de TVs em aquecimento para a Copa do Mundo
Alta na fabricação deve ocorrer a partir de abril, com crescimento acima de 20%, segundo estimativa da Suframa
Venda de Tvs no comércio para a Copa do Mundo |
O calendário do futebol global costuma mexer com muito mais do que a audiência, ele redefine o comportamento de consumo. À medida que a Copa do Mundo se aproxima, o varejo de eletrônicos entra em ebulição, puxado principalmente pela busca por televisores. Desta vez, no entanto, a engrenagem deve girar com menos intensidade do que no último ciclo.
As projeções da NielsenIQ indicam uma alta entre 15% e 20% nas vendas de TVs no trimestre que antecede o torneio, em comparação com o desempenho observado na Copa de 2022. O número é positivo, mas é menos agressivo do registrado anteriormente, quando o mercado havia avançado 35,4% frente ao período da Copa da Rússia, em 2018.
Por trás dessa desaceleração está um contexto econômico menos previsível. Segundo o representante da NielsenIQ no Brasil, Mateus Bando, fatores externos e internos se combinam para esfriar o ritmo. De um lado, tensões internacionais elevam o custo do petróleo, já acima dos US$ 100 por barril, pressionando cadeias produtivas. De outro, o ambiente político doméstico adiciona cautela ao consumo.


Venda de Tvs/Foto: Divulgação
Esse cenário impacta diretamente o preço final dos aparelhos. A produção de televisores, concentrada no Polo Industrial de Manaus (PIM), depende significativamente de componentes importados, sujeitos às oscilações do câmbio. Além disso, materiais derivados de petróleo, como o plástico utilizado em diversas peças, tornam os custos ainda mais sensíveis às variações dessa commodity.
“Apesar do recuo esperado para a taxa de crescimento de TVs em relação à última Copa, a perspectiva é muito boa, porque o mercado tem andado de lado”, diz Mateus Bando.
Mesmo com o crescimento mais moderado, há uma tendência que se mantém firme: em anos de Copa, o consumidor migra para modelos mais sofisticados. Antes do Mundial de 2022, televisores com resolução 4K UHD (Ultra High Definition) dominaram o mercado, respondendo por 72% das vendas no período pré-evento, acima da média anual, que foi de 62%.
O mesmo padrão aparece no tamanho das telas: nos meses que antecederam aquela edição, os aparelhos acima de 50 polegadas ganharam protagonismo, concentrando 45% das vendas. No acumulado do ano, porém, essa participação foi menor, ficando em 37%.
Produção deve crescer acima de 20%
A indústria do Polo Industrial de Manaus reúne gigantes internacionais da eletrônica, como Samsung, LG e TCL, que utilizam a estrutura da Zona Franca para abastecer redes varejistas em todo o território nacional.
Essas multinacionais operam no ritmo adequado para suprir o movimento das demandas por televisores, levando em conta que o aquecimento das vendas ocorre nos meses que antecedem o evento.

Fabricação de televisões/Foto: Divulgação/TCL
À Revista PIM Amazônia, a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) informou que executivos e representantes do setor projetam um crescimento entre 20% e 30% da comercialização de TVs já para o mês de abril, mês historicamente de maior elevação, seguindo estimativas já consolidadas em anos anteriores.
A autarquia, no entanto, pontua que a tendência depende da consolidação dos indicadores do Polo Industrial deste ano, ainda não divulgados.
“O cenário é otimista: a busca do consumidor por telas maiores e tecnologias mais avançadas deve elevar o ticket médio e aquecer ainda mais o segmento”, diz trecho da nota.
Antecipação
De acordo com o diretor de Política Industrial da Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros), Thiago Rodrigues, o Mundial de futebol funciona como uma espécie de fator de antecipação de vendas.
“Quem compraria na Black Friday ou no Natal (que acontecem em novembro e dezembro) acaba comprando antes aproveitando a Copa. Então, o que você tem é uma antecipação: vendas que se concentrariam no segundo semestre, acabam acontecendo no primeiro”, disse.
Nesse cenário, é preciso considerar não só a produção, mas também o tempo de escoamento. “O escoamento não é imediato. Muitas vezes, os aparelhos saem da Zona Franca e vão para centros de distribuição dos fabricantes. Saída não significa que foi direcionado diretamente para o varejista que fica em outra localidade”, completa.
Foi nesse cenário de antecipação que a unidade da Semp TCL em Manaus deu início, no segundo semestre de 2025, a um projeto de produção de mais de 9 milhões de aparelhos televisores, dentro de três anos. O investimento é robusto: R$ 672,5 milhões.
A iniciativa reafirma que a produção em período pré-Copa agrega na economia do estado do Amazonas: segundo a empresa, o projeto garante mais de 970 postos de trabalho dentro dos três anos. As informações constam na proposição nº 174 da pauta da 314ª Reunião Ordinária do Conselho de Desenvolvimento do Estado do Amazonas, o Codam, realizada em junho de 2025.

Foto: Divulgação
Segundo a diretoria da unidade, a estratégia é garantir abastecimento diante do aumento da demanda por aparelhos de maior tecnologia, especialmente os modelos com resolução 4K e telas de grandes polegadas, tradicionalmente mais procurados em ciclos de grandes eventos esportivos.
Esse planejamento envolve não apenas aumento de volume, mas também ajustes finos na cadeia produtiva, desde a importação de componentes até a sincronização com o varejo nacional.
“Quando falamos em antecipação para a Copa, não é só produzir mais cedo, é redesenhar toda a operação industrial com base em curvas de demanda muito específicas”, diz o gerente-geral de Engenharia e Qualidade do grupo em Manaus, Adam Mendes.
“A gente começa meses antes a calibrar fornecedores, logística e linhas de montagem para evitar picos desorganizados e, ao mesmo tempo, garantir que os modelos mais desejados estejam disponíveis no momento exato da virada de consumo. Esse é um trabalho de inteligência industrial que reduz risco de ruptura e melhora a eficiência”, completa o dirigente.
Representando a Associação Comercial do Amazonas (ACA), o diretor da Bemol, Marcelo Forma, aponta que as encomendas no Amazonas acontecem no início do último trimestre.
“Com a produção concentrada meses antes, o lojista ganha previsibilidade para negociar volumes, diluir custos logísticos e montar estoques mais qualificados, focados em itens de maior valor agregado, como as TVs de maior polegada e tecnologia embarcada”, pontua.
“Isso reduz a dependência de compras emergenciais, evita distorções de preço na ponta e melhora a margem de todo o setor. No fim, não é só um pico de vendas, mas sim uma reorganização da cadeia que beneficia desde o distribuidor até o consumidor final”, completa.
Comportamento não deve mudar
Segundo Thiago Rodrigues, hoje, o que move o brasileiro a comprar TVs é o tamanho da tela, enquanto fatores tecnológicos devem impactar minimamente as decisões.
“Ele [o brasileiro] tem buscado telas cada vez maiores. Pessoas que já queriam trocar de televisores acabam utilizando a Copa como a grande oportunidade para que essa troca venha a acontecer. Não acredito que a justificativa vá ser o incremento tecnológico”, disse.
“O fabricante está trazendo alguns refinamentos, como a inteligência artificial para alguns produtos. Mas não tivemos nenhuma tecnologia disruptiva, como em anos anteriores. Então, o que conta na decisão é o senso de comunidade, o envolvimento com o evento esportivo”, complementa.
Cieam faz balanço de vendas
A realização da Copa do Mundo de 2026 tende a impulsionar as vendas de televisores no Brasil, mas o resultado dependerá das condições da economia. A avaliação é do professor e gerente de indicadores do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam), André Ricardo Costa, que analisou o comportamento do setor em edições anteriores do torneio.
Os dados mostram que o evento, isoladamente, não garante crescimento. Em 2002, mesmo com o Brasil campeão, houve queda de cerca de 2% nas vendas de TVs, em um contexto de retração econômica. Quando há melhora no consumo, o efeito da Copa aparece com mais força: em 2006 e 2010, por exemplo, o mercado avançou 15% e 22%, respectivamente.
O padrão se repetiu nos anos seguintes: o mundial de 2014 teve impacto limitado, com alta de apenas 0,3% nas vendas, já sob influência da crise econômica que se aprofundaria nos anos seguintes. Em 2018, a recuperação ainda era gradual e o crescimento ficou em torno de 5%. Já em 2022, inflação elevada e juros altos reduziram o poder de compra e seguraram o desempenho do setor.
“A expectativa agora é de um cenário mais favorável ao consumo. A combinação de inflação mais controlada, melhora no emprego e uma base recente de vendas mais fraca cria espaço para retomada. Nesse ambiente, a Copa deve acelerar a decisão de compra e puxar a demanda por televisores, reforçando um movimento de renovação que já ocorre no mercado”, comentou Costa.

Arte: Suellen Fonseca/PIM Amazônia
