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Macapá, Rio Branco e Belém apresentam níveis alarmantes de perdas de águas

Capitais do Norte figuram entre os piores desempenhos do país; desperdício acima de 50% compromete segurança hídrica e pressiona metas do saneamento até 2034

Foto: Oliver Kesseler

Macapá, Rio Branco e Belém estão entre as capitais com os maiores índices de perdas de água do Brasil, todas com desperdício superior a 50% da água tratada antes de chegar às residências. Os dados são de 2023 e constam no Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA) e levantamento do Instituto Trata Brasil, divulgados em novembro.

Belém registrou perdas de 61,91%; Rio Branco, 56,06%; e Macapá, 53,51%, desempenho que as posiciona entre os 14 municípios dentro do grupo dos 100 mais populosos do país, que ultrapassam a marca de 50% de desperdício na distribuição. Outra capital da Amazônia também aparece negativamente no levantamento: Cuiabá, com 55,49% de perdas.

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“Nas capitais amazônicas, as perdas elevadas não são apenas um problema técnico de engenharia hidráulica, mas um reflexo direto de um processo histórico de urbanização acelerada, marcado por ocupações informais, expansão periférica sem infraestrutura adequada e redes de abastecimento implantadas de forma fragmentada ao longo de décadas”, explicou a professora Ana Cláudia Cardoso, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Pará (UFPA), em entrevista ao portal PIM Amazônia.

Os números colocam as capitais da Região Norte no centro do mapa nacional da ineficiência do abastecimento e evidenciam o tamanho do desafio estrutural do saneamento na Amazônia urbana.

Segundo Cardoso, em cidades como Belém, a coexistência de sistemas antigos, baixa capacidade de manutenção preventiva e dificuldades de acesso a áreas alagadiças ou de ocupação irregular amplia o risco de vazamentos invisíveis e perdas comerciais, criando um ciclo de ineficiência que sobrecarrega o serviço, compromete a regularidade do abastecimento e aprofunda desigualdades socioespaciais no acesso à água.

Macapá, Rio Branco e Belém apresentam níveis alarmantes de perdas de águas

A pesquisadora destaca ainda que a redução estrutural dessas perdas exige mais do que investimentos pontuais em troca de tubulações, demandando planejamento urbano integrado, fortalecimento institucional das concessionárias e articulação entre políticas de habitação, drenagem, regularização fundiária e mobilidade.

“Sem enfrentar o padrão de crescimento desordenado das cidades amazônicas e sem incorporar a água como eixo central do planejamento territorial, qualquer ganho tende a ser temporário”, disse.

“A eficiência hídrica precisa caminhar junto com governança metropolitana, uso inteligente de dados, controle permanente de redes e participação social, para que o serviço deixe de operar apenas no modo emergencial e passe a antecipar riscos climáticos, eventos extremos e pressões demográficas”, completou.

Recorte nacional

O SINISA aponta que 40,3% de toda a água produzida no país é perdida antes de chegar aos consumidores, seja por vazamentos nas redes, falhas operacionais ou ligações irregulares. O levantamento do Instituto Trata Brasil reforça a desigualdade no desempenho dos sistemas: apenas 21 dos 100 municípios avaliados apresentam índices inferiores a 25%, enquanto 14 superam 50%, revelando grande potencial de eficiência ainda não explorado.

Macapá, Rio Branco e Belém apresentam níveis alarmantes de perdas de águas

A redução dessas perdas permitiria ampliar a oferta de água sem necessidade de novas captações, reduzindo pressão sobre rios, aquíferos e sistemas de tratamento, além de impactar positivamente os custos do serviço.

Como meta regulatória, a Portaria nº 490/2021 do então Ministério do Desenvolvimento Regional estabelece que, até 2034, o país deverá limitar as perdas na distribuição a no máximo 25% e alcançar patamar de até 216 litros por ligação por dia, um objetivo que, para parte das capitais do Norte, ainda exige investimentos estruturais e gestão mais eficiente.

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