Bioeconomia
Legado da COP30: Belém ensina como transformar economia extrativista em industrializada
Quatro meses após a 30ª edição da Cúpula do Clima, pequenos empreendedores e grandes indústrias apostam em pesquisa, desenvolvimento e inovação para promover a bioeconomia preservando a floresta
Neta de um dos primeiros moradores da Ilha do Combu, Área de Proteção Ambiental (APA) a 15 minutos de barco de Belém (PA), Rosineide Trindade hoje se dedica exclusivamente à secretaria da AME, Associação de Mulheres Extrativistas do Combu. Aos 56 anos, ela conta que a ilha, habitada por cerca de 500 famílias ribeirinhas, passou por um salto de desenvolvimento nos últimos 15 anos.
“A vida das pessoas começou a mudar em 2011, com a chegada da energia elétrica. Abriram os restaurantes, ganhamos escola e posto de saúde. Antes só tinha trabalho para os homens, porque a fonte de renda era apenas a coleta de açaí. Tanto que, com 13 anos, fui pra Belém trabalhar em casa de família”, lembra.
Em 2019, incentivadas pela professora Flavia Lucas, da Universidade do Estado do Pará (UEPA), um grupo de mulheres criou a associação para resgatar uma cultura já praticamente extinta na região: a de extração natural do óleo de andiroba, matéria-prima de alto valor comercial e terapêutico, mas que estava literalmente sendo levada pela maré.
Neide, como é conhecida, recorda que o começo foi muito difícil, porque a associação não tinha retorno financeiro nem estrutura física, água encanada e fogão: “Trabalhávamos com pé na lama, cozinhávamos no chão. Começamos com 25 e hoje somos 12, porque muitas saíram”. Há dois anos, elas montaram a sede com doações levantadas pela professora Flávia.
Passaram a comercializar os produtos, como óleos e sabonetes, em dois pontos de venda na ilha e dois em Belém. E, como a bioeconomia e a economia circular ensinam, nada é desperdiçado. Até a casca da andiroba é moída para dar propriedade esfoliante ao sabonete.
A virada de chave aconteceu com a COP30, em novembro do ano passado. Apoiados pelo Sebrae-PA, empreendedores da ilha criaram a Rota do Combu, com roteiros turísticos para atrair visitantes e fomentar o comércio. “As delegações ligavam para marcar visita e encomendar 100 sabonetes. Trabalhamos dia e noite, saímos em matéria no Jornal Nacional”, orgulha-se Neide, com um sorriso tímido de quem “nem sonhava em ter um empreendimento como a AME”.
O cacau que vale a visita do Lula e do Macron
De agente local de saúde para dona de uma marca de chocolate artesanal e anfitriã de visitas ilustres, como o presidente francês Emmanuel Macron e o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, Dona Nena também teve a vida transformada pela fabricação com matéria-prima local. No terreno de sete hectares e meio, uma das árvores mais altas e imponentes da ilha, uma Sumaúma de cerca de 300 anos e 400 metros de altura, protege o tesouro escondido em meio a densa vegetação.
São 4 mil cacaueiros, cuja dureza do fruto se contrapõe à fragilidade da produção do cacau e do chocolate. Como explica Juliana Cruz, condutora da visita na Casa do Chocolate – Filha do Combu, assim que a flor abre, ela tem apenas 24 horas para ser polinizada. Cada árvore dá de 10 a 15 frutos, que levam até seis meses para ficarem maduros. A safra vai de agosto a dezembro.
Atualmente, a empresa emprega 20 pessoas na fabricação dos chocolates, que ganharam tanta fama que os 4 mil cacaueiros só abastecem de 25% a 30% da produção. O restante, Dona Nena precisa comprar de outros cacauicultores. O processo é 100% artesanal e leva cerca de 6 dias para fermentação por leveduras, que são fungos microscópicos, e de 4 a 8 dias para secagem das sementes.
De cultura extrativista para industrializada
Dona Nena ganhou projeção agregando valor ao cacau – até 2018, ela vendia os produtos derivados mais simples, como o nibs e a amêndoa inteira. A meta do Parque de Bioeconomia e Inovação da Amazônia, inaugurado pelo governo do Pará em outubro do ano passado, é ver mais Nenas e Neides por aí.
Ocupando dois armazéns da Estação das Docas, o armazém 5, com o centro de negócios, e o 6, de laboratório fábrica, o Parque tem salas e áreas comuns para promover a conexão entre diferentes atores, além de laboratórios para apoiar a industrialização de negócios que atuam com bioeconomia.
“Nosso objetivo é acelerar a transição dos negócios de bioeconomia extrativista para bioeconomia industrial. Temos equipamentos, dos mais simples aos mais complexos. E o laboratório fábrica é a grande adicionalidade em ralação a outros hubs de inovação da região”, destaca Carla Hoffmann, especialista da Fundação Certi, que concebeu e opera o espaço.
A pesquisadora Daniela Leite explica que é possível investigar as matérias primas amazônicas de origem vegetal, entre oleaginosas, polpas, frutas e farinhas; realizar testes laboratoriais de controle e qualidade de insumos e produtos; e processos produtivos em escala piloto, como fermentação, desidratação, filtração, rotulagem.
De outubro para cá, eles já processaram mais de 20 tipos de matérias-primas, do açaí ao gengibre e pimenta de cheio verde, para diferentes aplicações. Levantamento da Fundação Certi mostra o crescimento de novos negócios no estado: em 2018, eram apenas 50 startups no Pará; número que saltou para 279 em 2025, e deve chegar a mais de 600 até 2030.
Natura e Vale promovem pesquisa em bioeconomia e preservação florestal
Se por um lado, a COP30 alavancou o empreendedorismo baseado na bioeconomia, por outro, deu visibilidade ao trabalho de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) que grandes indústrias já promoviam na região por conta da rica biodiversidade. É o caso do Ecoparque da Natura e do Instituto de Tecnologia da Vale para o Desenvolvimento Sustentável (ITV DS).
Inaugurado em 2014, o Ecoparque da Natura tem como propósito pensar e colocar em prática os planos da marca na Amazônia, estruturados nos pilares de fortalecimento de comunidades e territórios e ciência, tecnologia e inovação. Hoje, a empresa utiliza 46 bioingredientes, incluindo a andiroba, fornecidos por 52 comunidades, de 127 municípios. São 20 pesquisadores no Ecoparque e 500 em Cajamar (SP) para transformar os insumos da floresta em ingredientes para os cosméticos.
“A maioria das inovações não nascem de laboratório, mas de conversas, do saber ancestral das comunidades. E não é só sobre negócios. Temos outros três objetivos com as comunidades: melhorar infraestrutura para a vida, promover prontidão climática e colaborar em todas as escalas, envolvendo startups, mulheres, jovens etc.”, detalha Dannielle Fonseca, monitora de visitas no Ecoparque.
Além de abrigar as áreas de pesquisa e relacionamento, o Ecoparque tem um centro de distribuição de insumos e uma planta fabril que produz 94% dos sabonetes da marca comercializados em toda a América Latina. A fábrica funciona 24 horas por dia, tem 700 colaboradores no total e produz 580 sabonetes por minuto, cerca de 45 milhões por mês.
Já o ITV DS da Vale, com seus 100 funcionários, 167 bolsistas e 56 alunos, alcançou grandes feitos em seus 15 anos de trajetória. Foram mais de mil genomas de espécies da fauna e da flora sequenciados, 826 artigos científicos publicados, 10 patentes concedidas e 15 registros de software. Hoje são 11 laboratórios para pesquisa em diversas áreas, como cultivo de plantas, geologia ambiental, citometria e genômica.
“O ITV DS foi criado em 2010 para pesquisar e desenvolver soluções para minimizar riscos e impactos das operações da Vale. Parte da ideia de que ciência é a alavanca para conciliar conservação e desenvolvimento. É uma visão de longo prazo”, explica Alexandre Aleixo, pesquisador responsável pela área de genômica ambiental do ITV DS.
As visitas à ilha do Combu, ao Ecoparque e ao Instituto da Vale fizeram parte da programação do encontro regional da Jornada Nacional de Inovação, promovida pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e pelo Sebrae com apoio da Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa).
Fonte: Agência Nacional da Indústria/CNI














