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Como a indústria de Manaus emprega aviões em sua logística

Modal aéreo respondeu por 37,6% do valor das importações típicas do PIM em 2025; equipamentos eletrônicos lideram as cargas movimentadas no Aeroporto Eduardo Gomes

A navegação continua sendo a principal via para o transporte de grandes volumes de mercadorias que abastecem o Polo Industrial de Manaus (PIM), mas o avião responde por uma parcela expressiva do valor dos insumos importados pelas fábricas. Em 2025, US$ 5,35 bilhões dos US$ 14,25 bilhões em importações típicas do PIM chegaram por via aérea, o equivalente a 37,6% do valor FOB, segundo levantamento do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam), com dados do Comex Stat.

Segundo a Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros), a decisão é econômica: as empresas comparam o custo adicional do frete aéreo com o prejuízo de uma eventual parada na produção.

Essa lógica ficou evidente na seca de 2024, quando a indústria recorreu a voos cargueiros fretados para reduzir o risco de interrupções no abastecimento. Naquele ano, o Aeroporto Eduardo Gomes registrou a maior movimentação da série recente, com 139.704 toneladas.

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Aeroporto Eduardo Gomes movimentou 133,3 mil toneladas de cargas em 2025 | Foto: Divulgação/Aeroporto de Manaus

Em 2025, o Aeroporto Internacional Eduardo Gomes movimentou 133.343 toneladas de cargas nacionais e internacionais. Aproximadamente 60% desse volume estiveram relacionados à Zona Franca de Manaus (ZFM), segundo a concessionária Vinci Airports. Os equipamentos eletrônicos lideraram a movimentação, com 47,71% das cargas processadas, seguidos por máquinas e equipamentos, com 16,97%.

O perfil das mercadorias mostra por que o transporte aéreo ocupa um espaço importante na logística industrial, mesmo com custos superiores aos dos modais aquaviários. A rapidez na chegada de componentes, peças de reposição e máquinas pode compensar o frete mais caro quando a demora representa risco de interrupção da produção ou exige a manutenção de estoques elevados.

Além dos equipamentos eletrônicos e das máquinas, produtos químicos e farmacêuticos responderam por 5,14% das cargas processadas pelo terminal, enquanto bens de consumo representaram 5,10%. Outros produtos somaram 25,01%, conforme classificação apresentada pela Vinci.

A evolução das cargas

O movimento de cargas no Aeroporto Eduardo Gomes cresceu nos últimos cinco anos, embora com oscilações relacionadas à atividade industrial e às condições de transporte na região.

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A estrtura de cargas do Aeroporto Eduardo Gomes possui mais de 45 mil metros quadrados | Foto: Divulgação

Em 2020, o terminal processou 105.032 toneladas. O volume passou para 125.755 toneladas em 2021 e permaneceu praticamente estável em 2022, com 125.562 toneladas. No ano seguinte, recuou para 119.976 toneladas, antes de alcançar o recorde de 139.704 toneladas em 2024.

Segundo a Vinci, o resultado de 2024 foi influenciado pela contratação extraordinária de voos cargueiros durante a seca severa, quando as restrições à navegação aumentaram as dificuldades para o abastecimento das fábricas.

Em 2025, a movimentação caiu 4,6% em relação ao ano anterior, mas permaneceu 27% acima do volume registrado em 2020. De janeiro a setembro de 2026, o aeroporto movimentou 99.123 toneladas, segundo dados fornecidos pela concessionária à PIM Amazônia.

Um dos destaques ocorreu em julho, mês tradicionalmente marcado pelas férias coletivas de parte das indústrias do PIM. A movimentação alcançou 11,6 mil toneladas, recorde para o período e crescimento de 15% em relação a julho de 2025.

As cargas domésticas destinadas a Manaus tiveram desempenho ainda mais expressivo, com aumento de 41%, alcançando 6.093 toneladas. Nas importações, o volume total permaneceu estável, mas os cinco maiores clientes do segmento eletroeletrônico registraram crescimento de aproximadamente 30% no peso das mercadorias movimentadas, segundo a concessionária.

O resultado de julho indica aumento da demanda naquele período, mas a série histórica ainda não permite afirmar que o transporte aéreo esteja em expansão contínua. Os volumes variam conforme a produção industrial, a disponibilidade de voos e as condições dos demais modais.

Quando o avião compensa

A utilização do transporte aéreo está relacionada principalmente às características das mercadorias e ao impacto financeiro de eventuais atrasos.

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Arte: Suellen/PIM Amazônia

No setor eletroeletrônico, que concentra a maior participação nas cargas processadas pelo aeroporto, a escolha envolve principalmente insumos de alto valor agregado e componentes necessários à continuidade da produção.

“O frete aéreo se torna indispensável em situações pontuais, como uma necessidade urgente de reposição de componentes para evitar a interrupção da produção. A empresa compara o custo adicional do transporte com o prejuízo de uma eventual parada. É uma decisão econômica, tomada conforme a necessidade de cada operação”, afirma Jorge Nascimento, presidente-executivo da Eletros.

Segundo ele, a utilização também depende das características físicas e comerciais dos produtos, além das exigências de segurança e dos prazos de entrega.

“A decisão considera valor, peso, volume, segurança e urgência da entrega. Principalmente semicondutores e outros componentes sofisticados de alto valor agregado são transportados por avião quando precisam ser adquiridos fora da região”, destaca.

O levantamento apresentado pela Vinci, com base nos dados do Cieam e do Comex Stat, mostra que a participação do avião no valor das importações típicas do PIM foi de 44,5% em 2023, caiu para 39,5% em 2024 e chegou a 37,6% em 2025.

Os percentuais não representam a proporção de toneladas transportadas. Referem-se ao valor FOB das mercadorias importadas, o que evidencia a importância econômica dos produtos que chegam a Manaus por avião, apesar de seu menor peso relativo no conjunto das operações logísticas.

Para Márcio Paixão Ribeiro, presidente do Conselho Regional de Economia do Amazonas e Roraima (Corecon-AM/RR), a escolha do transporte depende de uma avaliação mais ampla do custo industrial.

“Na nova economia industrial, o frete mais barato nem sempre é o econômico. O que determina a competitividade é o custo total da operação, incluindo o preço do transporte, capital imobilizado, o risco de paralisação e o tempo de resposta ao mercado”, afirma.

A gerente-geral de cargas da Vinci Airports para os aeroportos da Amazônia, Luciana Procoro, também aponta o custo como um dos principais fatores que limitam o crescimento do transporte aéreo.

“O transporte aéreo precisa ser economicamente viável, considerando não apenas o frete, mas também os custos de estoque, o risco de interrupção da produção e o tempo de entrega. Uma carga aérea mais cara pode ser economicamente melhor quando reduz dias de estoque, evita parada de linha ou permite uma resposta mais rápida ao mercado”, explica.

O peso do transporte pelos rios

Apesar da importância do avião para determinadas mercadorias, a navegação permanece fundamental para o abastecimento da indústria e a distribuição da produção de Manaus.

Segundo o Anuário Estatístico da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), a navegação interior brasileira movimentou 91,3 milhões de toneladas em 2025. A Região Norte respondeu por 74,1% desse volume, refletindo a importância das hidrovias para o transporte de mercadorias na região.

Somente a hidrovia do Madeira movimentou 12,1 milhões de toneladas no ano passado, crescimento de 20,4% em relação a 2024. O corredor, que liga Porto Velho à foz do rio Madeira e ao rio Amazonas, transporta principalmente grãos, além de combustíveis e outras mercadorias destinadas ao abastecimento regional.

Os indicadores abrangem diferentes cadeias produtivas e não representam exclusivamente o movimento de mercadorias do PIM. Ainda assim, ajudam a dimensionar a escala do transporte aquaviário na região.

Durante a TranspoAmazônia, realizada em maio, a Federação das Empresas de Logística, Transporte e Agenciamento de Cargas da Amazônia (Fetramaz) apresentou números que também ilustram a dimensão das operações logísticas regionais. Segundo a entidade, a movimentação supera 1 milhão de TEUs — unidade equivalente a um contêiner de 20 pés — e pouco mais de 100 mil carretas por ano.

A federação chamou atenção para a distância entre Manaus e os principais centros fornecedores de matérias-primas e consumidores de produtos industrializados, sobretudo no Sudeste. Segundo a apresentação da entidade, mais de 60% das matérias-primas utilizadas pela indústria são importadas.

Outro desafio é a variação do nível dos rios amazônicos. A Fetramaz destacou que a diferença entre os períodos de cheia e vazante pode chegar a 15 metros, exigindo adaptações nas operações de transporte e no planejamento do abastecimento industrial.

Na seca de 2024, as dificuldades de navegação contribuíram para a contratação de voos cargueiros adicionais. O transporte aéreo, porém, não depende exclusivamente dessas situações para ser utilizado. A necessidade de receber componentes com rapidez faz parte da rotina de determinados segmentos industriais, independentemente das condições dos rios.

Capacidade para crescer

O Aeroporto Eduardo Gomes dispõe de infraestrutura para ampliar suas operações de carga sem depender, inicialmente, de uma expansão equivalente de sua estrutura física.

Segundo a Vinci, o Manaus Airport Cargo possui mais de 45 mil metros quadrados, funciona 24 horas por dia e tem capacidade para atender simultaneamente quatro aeronaves Boeing 747. Atualmente, o terminal utiliza menos de 50% de sua capacidade anual de movimentação.

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Estrtura pode receber até quatro aeronaves Boeing 747 simultaneamente | Foto: Divulgação

Isso não significa que toda a capacidade ociosa possa ser ocupada imediatamente. Para a concessionária, o crescimento depende da combinação entre frequência de voos, custos competitivos e oferta de serviços adequados às necessidades das empresas.

A malha doméstica de cargas mantém conexões com aeroportos como Viracopos, em Campinas, Guarulhos, Brasília, Recife e Fortaleza. Entre as companhias que realizam operações regulares estão Latam, Azul, Braspress, Sideral, Total e Modern Logistics.

O transporte também ocorre em aeronaves de passageiros, que levam mercadorias nos porões, modalidade conhecida como belly cargo. O aumento da oferta de voos comerciais pode ampliar a capacidade de movimentação sem a necessidade de utilizar exclusivamente aeronaves cargueiras.

Nas operações internacionais, Miami é um dos principais pontos de conexão das cargas destinadas a Manaus, especialmente de componentes eletrônicos procedentes de países asiáticos, como China, Coreia do Sul, Taiwan e Vietnã. Bogotá, Panamá e Lisboa também integram a rede de conexões do aeroporto.

Atualmente, grande parte das importações internacionais processadas no Eduardo Gomes é nacionalizada em Manaus para atender à indústria e ao mercado regional. A Vinci pretende ampliar essa atuação, desenvolvendo conexões que permitam ao terminal participar também de operações de redistribuição de mercadorias.

Novas conexões internacionais

Uma das novidades de 2026 foi a entrada em operação de uma rota cargueira regular entre Manaus e Lima, no Peru. A ligação semanal, iniciada em 10 de agosto pela Azul Logística, utiliza uma aeronave Airbus A321 com capacidade para transportar até 23 toneladas por voo.

A conexão amplia as alternativas de transporte internacional e abre a possibilidade de utilização de corredores logísticos que passam pela costa do Pacífico.

Uma das propostas estudadas pela concessionária é combinar o transporte marítimo e o aéreo, operação conhecida como Sea-Air. Nesse modelo, mercadorias produzidas na Ásia desembarcariam no Porto de Chancay, no Peru, seguiriam por terra até Lima e depois seriam transportadas por avião até Manaus.

A intenção é oferecer uma alternativa intermediária entre o frete integralmente aéreo, mais caro, e o transporte marítimo tradicional, que exige prazos maiores. Outra possibilidade é utilizar Lima como ponto de conexão entre voos internacionais, no modelo Air-Air.

A rota aérea já está em funcionamento, mas o corredor que envolve o Porto de Chancay ainda é apresentado pela Vinci como uma possibilidade logística. Não há dados divulgados que comprovem sua utilização regular para o abastecimento do PIM.

Além das conexões industriais, a concessionária busca ampliar sua atuação no comércio eletrônico internacional. Em junho, anunciou a implantação do serviço de remessas expressas, conhecido como courier, no terminal de cargas.

A proposta é permitir o desembaraço e a distribuição de encomendas internacionais com maior rapidez. Segundo a Vinci, a estrutura poderá reduzir de até 60 dias para aproximadamente uma semana o prazo de entrega de determinadas compras destinadas à Região Norte. A concessionária informou em agosto que a implantação seria concluída nos meses seguintes.

A diversificação das operações poderá aumentar a utilização da capacidade instalada no aeroporto. Para a indústria, a expansão do transporte aéreo continuará dependendo principalmente da relação entre o custo do frete, o valor das mercadorias e os prazos exigidos pelas linhas de produção.