Conexão Amazônia
Guiana abre nova rota de negócios para empresas brasileiras
Chamado de novo petroestado, país vizinho ao Brasil amplia demanda por infraestrutura, alimentos, tecnologia, serviços especializados e produtos industriais
A Guiana deixou de ser apenas um pequeno mercado vizinho. Com o boom econômico iniciado a partir de 2020, puxado pela exploração de petróleo, o país vive uma fase de investimentos em infraestrutura e aumento da demanda por produtos e serviços, abrindo espaço para empresas brasileiras.
Na avaliação do presidente do Conselho Regional de Economia do Amazonas e Roraima (Corecon-AM/RR), Márcio Paixão, o potencial da Guiana como mercado consumidor vai além dos produtos tradicionalmente associados ao Polo Industrial de Manaus (PIM).
Para ele, há espaço para ampliar a presença de empresas amazonenses em segmentos como alimentos processados, materiais de construção, medicamentos, móveis, máquinas, equipamentos industriais e tecnologia, além da prestação de serviços de engenharia, saúde e educação.

Para as empresas amazonenses, afirma, também surgem oportunidades de fornecimento de serviços especializados para os projetos de infraestrutura e energia impulsionados pela expansão da economia guianense.
A ampliação das relações comerciais, contudo, depende da superação de gargalos logísticos, da redução da burocracia aduaneira, de maior integração regulatória e da diminuição dos custos de transporte.
“A solução passa por investimentos em corredores logísticos, simplificação dos processos de comércio exterior, fortalecimento dos acordos bilaterais e maior coordenação entre governos e setor produtivo”, avalia.
O economista destaca que o empresariado amazonense precisa de protagonismo no campo diplomático e comercial para atrair novos negócios com a Guiana. Nesse sentido, ampliar a presença no mercado guianense exige investimento em missões comerciais, inteligência de mercado, redes de cooperação, parcerias estratégicas e inovação.
“É fundamental fortalecer as entidades empresariais, ampliar o intercâmbio de informações e desenvolver projetos conjuntos que gerem confiança, competitividade e integração econômica entre Brasil e Guiana”, afirma Márcio Paixão.
Missão empresarial

A aproximação comercial ganha contornos práticos em agosto, com a missão empresarial Conexão Amazônia, que levará empresários brasileiros à Guiana para rodadas de relacionamento, prospecção de negócios e leitura de mercado.
Organizada pela Editora Balponte, responsável pela Revista PIM Amazônia, a iniciativa busca conectar empresas interessadas em aproveitar o novo ciclo econômico guianense.
O movimento ocorre em um momento de transformação acelerada da economia da Guiana. Até poucos anos atrás, o país estava entre os mercados de menor renda da América do Sul, com economia dependente principalmente da agricultura, da mineração, da extração de madeira e da produção de açúcar. A capacidade de atrair investimentos estrangeiros era limitada, e o mercado interno, reduzido.
Esse cenário começou a mudar depois da descoberta de grandes reservas de petróleo offshore, em 2015, e do início da produção comercial, em 2019. Desde então, a Guiana passou a registrar algumas das maiores taxas de crescimento econômico do mundo, impulsionada principalmente pela expansão da produção de petróleo. O país conta com reservas estimadas em 11 bilhões de barris comercialmente recuperáveis, volume próximo ao do Brasil.
Rica em madeira, ouro, diamantes, bauxita e açúcar, a Guiana viu o Produto Interno Bruto (PIB) crescer 62,3% em 2022, avançar novamente em ritmo elevado em 2023 e manter expansão superior a 40% em 2024. Em 2025, o crescimento foi de 19%, e a projeção é de alta de 16% neste ano, segundo informações do governo guianês por meio da Go Invest.
A nova fase econômica passou a pressionar setores não petrolíferos, como construção civil, comércio, serviços, infraestrutura e mão de obra especializada. Para empresas brasileiras, essa transformação cria uma janela de oportunidade em áreas diretamente ligadas à expansão urbana, à logística, à energia, à construção, ao consumo e à qualificação profissional.
Corredor logístico
De acordo com Ivan Gonzalo, analista de comércio exterior da Federação das Indústrias de Roraima e ex-coordenador-geral de Comércio Exterior da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), o empresariado acompanha com expectativa a consolidação do corredor logístico entre Manaus e Georgetown.
A ligação foi anunciada pelo governo federal como uma das novas Rotas de Integração Sul-Americanas. A proposta é aproximar a Amazônia Ocidental do Caribe, ampliando alternativas de escoamento, abastecimento e conexão comercial.
A rota, porém, ainda depende de avanços em infraestrutura. Entre os principais pontos estão a pavimentação de mais de 300 quilômetros da estrada entre Lethem, cidade guianense separada de Bonfim, em Roraima, pelo rio Tacutu, e Georgetown, além da limitação dos portos guianenses, cuja baixa profundidade restringe a operação de embarcações de maior porte.
A ligação terrestre entre Brasil e Guiana existe desde a inauguração da ponte sobre o rio Tacutu, em 2009, mas o eixo até Georgetown ainda precisa de melhorias para se tornar uma rota comercial mais robusta.
Mesmo assim, Gonzalo avalia que a estrada poderá representar ganhos relevantes para a região.
“Na pior das hipóteses, ela conectará o Norte do Brasil a um mercado de cerca de 1,5 milhão de consumidores, considerando Guiana e Suriname, cuja renda vem crescendo rapidamente, sendo uma alternativa a outros mercados equivalentes”, afirma.
Mercado em expansão
O especialista recomenda uma leitura técnica do mercado. Para ele, a estratégia mais adequada é fortalecer a competitividade das empresas exportando pelos portos de Manaus e, caso a futura rota via Guiana se consolide como alternativa logística, utilizá-la para ampliar a inserção internacional dos produtos fabricados na Amazônia.
Na avaliação de Gonzalo, a demanda da Guiana não está concentrada em produtos de um único país, mas em bens e serviços capazes de atender a uma economia em rápida transformação.
Embora a expansão esteja ancorada no petróleo, o governo guianense busca diversificar sua base produtiva por meio de investimentos em infraestrutura e agronegócio, com foco também no abastecimento dos países da Comunidade do Caribe (Caricom).
Nesse contexto, a construção civil desponta como um dos segmentos de grande potencial para empresas brasileiras.
“O mercado da construção civil está em franca ebulição. Além disso, há forte demanda por serviços técnicos e profissionais especializados, já que a mão de obra local ainda não consegue atender ao ritmo de crescimento da economia”, afirma.
Para a Zona Franca de Manaus, Gonzalo vê espaço para ampliar exportações de produtos já fabricados no Polo Industrial. O principal obstáculo, segundo ele, não está na competitividade da indústria instalada em Manaus, mas na baixa atuação das empresas no mercado externo.
“As indústrias de Manaus demonstram pouco interesse pelo mercado exportador e, especificamente, pela Guiana. Muitas concentram sua estrutura comercial no Sudeste porque produzem prioritariamente para o mercado interno. É preciso investir em promoção comercial e participar de feiras e missões empresariais”, diz.
Segundo o especialista, há produtos fabricados em Manaus que poderiam disputar espaço com fornecedores asiáticos no mercado guianense.
“Hoje vemos motocicletas e aparelhos de ar-condicionado produzidos por fábricas chinesas sendo vendidos na Guiana, mesmo esses produtos fabricados no Polo Industrial de Manaus estando contemplados pelo Acordo de Complementação Econômica nº 38, que prevê preferência tarifária para exportações brasileiras”, afirma.
Para empresas brasileiras, esse novo ciclo abre espaço para uma agenda de internacionalização mais próxima geograficamente, mas que vai exigir planejamento, presença local e visão de longo prazo.
O que a Guiana compra do mundo
A transformação econômica da Guiana já aparece na pauta de importações do país. Em 2024, segundo dados do Observatório da Complexidade Econômica (OEC), as principais compras externas guianenses estiveram ligadas a energia, infraestrutura, transporte e bens de capital. O Brasil aparece na 5ª posição, atrás de Trinidad e Tobago.
Entre os itens importados aparecem:
- Petróleo refinado (US$ 887 milhões)
- Navios para fins especiais (US$ 455 milhões)
- Tubos de ferro (US$ 343 milhões)
- Válvulas (US$ 290 milhões)
- Automóveis (US$ 206 milhões)
Os principais países de origem das compras internacionais guianenses foram:
- Estados Unidos (US$ 2,22 bilhões)
- China (US$ 987 milhões)
- Coreia do Sul (US$ 494 milhões)
- Trinidad e Tobago (US$ 406 milhões)
- Brasil (US$ 393 milhões)
As vendas da Guiana
Em 2024, a Guiana exportou um total de US$ 24,9 bilhões, tornando-se o 73º maior exportador do mundo.
O perfil das importações da Guiana mostra o peso do ciclo do petróleo na economia do país. O petróleo bruto aparece com ampla vantagem, somando US$ 20,4 bilhões, mas o restante da pauta ajuda a enxergar oportunidades além do setor energético.
As exportações também incluem contêineres ferroviários (US$ 1,59 bilhão), ouro (US$ 1,09 bilhão), navios para fins especiais (US$ 726 milhões) e arroz (US$ 276 milhões).
Os destinos mais comuns das exportações da Guiana são os Estados Unidos (US$ 5,26 bilhões), os Países Baixos (US$ 2,78 bilhões), o Panamá (US$ 2,54 bilhões), a Alemanha (US$ 2,53 bilhões) e Trinidad e Tobago (US$ 1,67 bilhão).
