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Gripen feito no Brasil pode ampliar papel da Embraer na indústria global de defesa

Produção do caça em Gavião Peixoto coloca a companhia em uma cadeia militar de alta tecnologia e abre espaço para contratos na América Latina

Foto: Divulgação/Saab

A produção do caça F-39E Gripen no Brasil pode ampliar o papel da Embraer na indústria global de defesa, especialmente se a estrutura instalada em Gavião Peixoto, no interior de São Paulo, for usada pela Saab como base para atender novos clientes na América Latina.

A aeronave, desenvolvida pela empresa sueca Saab, é montada no Brasil dentro do programa de modernização da frota da Força Aérea Brasileira (FAB). O primeiro F-39E Gripen produzido em território nacional foi apresentado em março e marcou uma nova etapa da parceria firmada entre Brasil e Suécia.

O projeto faz parte do contrato assinado em 2014 para a aquisição de 36 aeronaves pela FAB, sendo 28 unidades do Gripen E e oito do Gripen F, versão biposto desenvolvida com participação de engenheiros brasileiros. Além da compra dos caças, o acordo incluiu um amplo programa de transferência de tecnologia.

Para a Embraer, a produção local do Gripen reforça a presença em uma cadeia militar de alta complexidade, marcada por contratos de longo prazo, integração de sistemas, engenharia avançada, softwares embarcados e suporte técnico especializado.

Caça produzido no Brasil

F 39 Gripen

F-39E Gripen | Foto: Reprodução

O F-39E Gripen foi montado na linha de produção da Embraer em Gavião Peixoto, unidade estratégica da companhia para programas de defesa. A fábrica concentra atividades ligadas à produção, integração e desenvolvimento de aeronaves militares.

A participação brasileira no programa representa uma mudança de posição dentro da cadeia produtiva. Em vez de apenas receber aeronaves fabricadas no exterior, o país passou a atuar em etapas industriais e tecnológicas associadas ao desenvolvimento do caça.

Segundo a Saab, esta foi a primeira vez que uma aeronave de combate da empresa foi produzida fora da Suécia. O marco fortalece a posição da Embraer como parceira industrial da companhia sueca e amplia a relevância do Brasil dentro do programa Gripen.

A Embraer já atua no setor de defesa com programas como o KC-390 Millennium e o A-29 Super Tucano. Com o Gripen, a companhia passa a participar também de uma plataforma supersônica de combate, segmento de maior complexidade tecnológica e alto valor agregado.

Transferência de tecnologia

Um dos principais diferenciais do contrato do Gripen foi a transferência de tecnologia. Ao longo da última década, profissionais brasileiros participaram de programas de capacitação junto à Saab, na Suécia, em áreas como desenvolvimento de software, integração de sistemas, engenharia aeronáutica, estruturas avançadas e tecnologias embarcadas.

O objetivo do programa não se limitou à modernização da FAB. A estratégia também buscou formar capital humano e desenvolver competências industriais que pudessem permanecer no país após a entrega das aeronaves.

Essas competências têm potencial de gerar efeitos em áreas como manufatura avançada, eletrônica embarcada, sistemas digitais e engenharia de alta complexidade. Para a indústria nacional, esse é o principal legado econômico do programa.

A incorporação desse conhecimento fortalece a capacidade da Embraer e de fornecedores brasileiros de participar de projetos militares mais sofisticados, em um mercado no qual domínio tecnológico e capacidade de integração são fatores decisivos.

América Latina no radar

A expansão do Gripen na América Latina pode abrir novas oportunidades para a Embraer. A Colômbia escolheu a aeronave para substituir sua frota de caças Kfir, em um contrato que prevê a aquisição de 17 unidades, sendo 15 Gripen E e duas Gripen F.

A entrada da Colômbia no programa reforça a presença do Gripen na região e aumenta a possibilidade de uso da estrutura brasileira em atividades de suporte, treinamento, manutenção e integração. Esse cenário pode ampliar a participação da Embraer além das aeronaves destinadas à FAB.

Semanas antes da formalização da escolha colombiana, a Embraer e a Corporação da Indústria Aeronáutica Colombiana (CIAC) assinaram, no Chile, um memorando de entendimento para avaliar oportunidades de cooperação industrial.

O acordo prevê a possibilidade de integração da empresa colombiana às cadeias globais de fornecimento da Embraer em programas como o KC-390 Millennium e o A-29 Super Tucano. Embora não esteja restrito ao Gripen, o movimento ocorre em um contexto de maior aproximação entre as cadeias aeroespaciais da região.

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A-29 Super Tucano | Foto: Reprodução/Embraer

Brasil como base regional

Executivos da Saab têm indicado que a infraestrutura instalada no Brasil poderá assumir funções mais amplas à medida que o Gripen conquistar novos mercados na América Latina. A avaliação envolve atividades relacionadas à produção, integração de sistemas, treinamento de operadores, manutenção e suporte logístico.

Na prática, a estratégia se aproxima do conceito de hub regional. Nesse modelo, parte das operações voltadas a clientes latino-americanos seria conduzida a partir da estrutura industrial desenvolvida no Brasil.

Para a Embraer, esse movimento pode significar novas frentes de atuação no ciclo de vida das aeronaves, indo além da montagem dos caças destinados à FAB. A empresa poderia ampliar presença em serviços de manutenção, modernização, suporte técnico e treinamento.

O avanço também reforçaria a posição do Brasil em uma cadeia de defesa que depende de escala, continuidade de contratos e integração entre governos, fabricantes e fornecedores especializados.

Novo lote para a FAB

O programa Gripen também pode ganhar escala dentro do próprio Brasil. Em 4 de junho, durante visita oficial à Suécia, o ministro da Defesa, José Mucio Monteiro, assinou uma declaração de intenções para aprofundar a cooperação bilateral no setor de defesa.

O documento inclui o interesse brasileiro na aquisição de mais 20 aeronaves Gripen para a FAB. A declaração não representa um contrato definitivo, mas sinaliza a possibilidade de continuidade do programa no longo prazo.

Uma eventual ampliação da frota poderia ajudar a manter ativa a cadeia produtiva desenvolvida no Brasil e reforçar a participação da Embraer no projeto. Também daria maior previsibilidade para fornecedores, engenheiros e estruturas industriais ligadas ao programa.

Defesa de alta tecnologia

A produção local do Gripen coloca a Embraer em uma posição mais relevante dentro da indústria global de defesa. A companhia já tinha presença consolidada com aeronaves militares como o Super Tucano e o cargueiro KC-390, mas o caça da Saab amplia sua atuação para uma plataforma supersônica de combate.

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KC-390 | Foto: Reprodução/Ministério da Defesa

O movimento ocorre em um mercado marcado por forte demanda por capacidade industrial, transferência de tecnologia e suporte regional. Países que compram aeronaves militares buscam não apenas o equipamento, mas também manutenção, treinamento, integração de sistemas e autonomia operacional.

Nesse cenário, o Brasil pode se beneficiar da estrutura criada para o Gripen, enquanto a Embraer ganha espaço em uma cadeia de maior valor agregado. A expansão da aeronave na América Latina e o interesse brasileiro em ampliar a frota podem consolidar a empresa como parceira estratégica da Saab na região.

Para a indústria brasileira, o Gripen representa mais do que a modernização da aviação de caça. O programa abre caminho para ampliar competências tecnológicas, formar mão de obra especializada e inserir o país em uma disputa global por contratos de defesa de alta complexidade.