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EUA ganham espaço no mercado de gás com crise no Oriente Médio

Os efeitos da guerra no Oriente Médio sobre a oferta de gás natural liquefeito (GNL) podem beneficiar exportadores dos Estados Unidos, líder do comércio global da commodity

Vista aérea de terminal de exportação de gás natural liquefeito, mostrando a infraestrutura crítica afetada pelas tensões geopolíticas | Divulgação

Os efeitos da guerra no Oriente Médio sobre a oferta de gás natural liquefeito (GNL) podem beneficiar exportadores dos Estados Unidos, líder do comércio global da commodity. A capacidade dos EUA de compensar a interrupção das exportações de gás do Catar e dos Emirados Árabes Unidos (EAU), no entanto, tem seus limites.

O bloqueio do Estreito de Ormuz e os ataques iranianos às infraestruturas de GNL do Catar impactam diretamente 20% do comércio global da commodity.

Essa foi uma das conclusões da live especial do videocast gas week, realizada pelo estúdio eixos nesta quarta-feira (4/3), para discutir os impactos da Guerra no Oriente Médio sobre o mercado de gás.

EUA e capacidade limitada

“Quem vai ganhar com isso, no fundo, são os exportadores americanos. Mas tem limites”, comentou a consultora sênior da FGV Energia, Ieda Gomes, que também é fellow do Oxford Institute for Energy Studies (OIES).

Se o conflito persistir, o aumento da capacidade de liquefação dos EUA poderia compensar parcialmente a perda de volumes do Catar, mas isso não é imediato.

A Agência Internacional de Energia (IEA) projeta um aumento de 20 bilhões de metros cúbicos na capacidade de exportação dos EUA este ano, o que equivale a cerca de 15 milhões de toneladas/ano. Para efeito de comparação, o Catar produz cerca de 80 milhões de toneladas/ano.

“Então, essa crise do Estreito de Ormuz – e mais especificamente da exportação do Catar – pode até ter alguns meses de efeito, mas vai entrar mais GNL norte-americano, que antes estava sem dono”, complementou Ieda.

Limites na Europa e Rússia

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Mercado de gás natural Foto: Divulgação

Vinicius Romano, VP do Mercado de Gás para a América Latina da Rystad Energy, afirma que a capacidade de exportação de gás russo via gasodutos para a Europa tem limitações, pois muitos ativos ficaram operacionalmente incapacitados desde o início da guerra com a Ucrânia.

Num cenário de fechamento prolongado das instalações do Catar, a reintrodução do GNL russo no mercado europeu poderia ser discutida – embora, hoje, seja improvável.

A Rystad estima que o alívio das sanções poderia reinjetar até 5,3 milhões de toneladas de GNL russo no mercado, impactando a expansão dos EUA.

“A recuperação da produção [russa] também não seria imediata. De qualquer maneira, vejo que isso não é uma pauta a ser discutida agora pela Europa, que tem vários países sancionando o gás russo. Porém, em um caso de crise prolongada, não descartaria esse tipo de hipótese”, comentou.

A Rússia sinalizou nesta quinta-feira (5/3) que pode interromper o fornecimento de gás para a Europa, para deslocar seus volumes para mercados mais atrativos, diante do aumento dos preços globais.

A Europa planeja proibir totalmente as importações russas de gás natural por gasoduto até o fim de 2027 e impedir novos contratos de curto prazo de GNL russo a partir de abril de 2026.

Mercados mais afetados

As limitações na oferta de GNL do Oriente Médio atingem principalmente Ásia e Europa. China, Índia, Taiwan e Paquistão estão entre os países asiáticos mais expostos ao GNL do Catar e EAU. Na Europa, a Itália é a mais vulnerável, segundo a Wood Mackenzie.

Javier Toro, gerente sênior de Pesquisa da divisão de Gás e Energia do Cone Sul da Wood Mackenzie, avalia que uma das consequências da crise de preços pode ser a destruição de demanda.

“Isso faz com que os preços subam a um ponto sensível à demanda da Ásia, levando esses países a migrar para combustíveis alternativos ou relaxar restrições ao uso de carvão. A Europa, protegida parcialmente pelos estoques, também precisará competir com a Ásia pelos volumes de GNL disponíveis”, explica Toro.

A duração da guerra vai determinar quanto os mercados conseguirão repor dos estoques, gerando competição entre compradores da Ásia e do Atlântico por volumes disponíveis.