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Crise na Venezuela deve impactar exportações de Roraima, diz Câmara de Comércio Brasil–Venezuela

Eduardo Ostreicher, presidente da entidade, alerta para insegurança logística, mas também aponta para novas oportunidades comerciais

Foto: Nilzete Franco

O ataque dos Estados Unidos à Venezuela, ocorrido nesta sexta-feira (3), que resultou na captura e prisão do presidente Nicolás Maduro, não deve se restringir aos campos político e militar do país vizinho. Efeitos econômicos diretos devem ser sentidos em Roraima, especialmente para empresas que mantêm relações comerciais com os venezuelanos.

Essa é a avaliação do presidente da Câmara de Comércio Brasil–Venezuela e coordenador de negócios internacionais da Secretaria de Agricultura, Desenvolvimento e Inovação de Roraima (Seadi), Eduardo Ostreicher.

Entenda: Ataque dos EUA à Venezuela resulta na captura de Nicolás Maduro

Em entrevista à PIM Amazônia, o dirigente explicou que a principal preocupação, no momento, é a insegurança jurídica e logística, que afeta exportações, prazos e custos para quem depende da fronteira para fazer negócios, resultado de um cenário imediato de incerteza sobre quem comandará o país e quais regras passarão a valer.

“A atual indefinição interfere diretamente no transporte de mercadorias e nas operações de empresas que estão em Roraima exportando para Venezuela, assim como as empresas do Norte do Brasil que também exportam para a Venezuela. Temos muitas empresas do estado do Amazonas, grande parte delas do Polo Industrial de Manaus, passando suas mercadorias por aqui para chegar à Venezuela”, ressaltou.

Efeitos imediatos

Eduardo Ostreicher observou que o risco mais imediato é a interrupção ou o encarecimento das operações, justamente em um momento em que as empresas brasileiras já enfrentam custos elevados.

“Há risco de interrupção ou encarecimento das exportações e importações na Venezuela nesses próximos dias. Há riscos quanto a atrasos logísticos e ao fluxo de mercadorias. As nossas mercadorias internas já estavam com o preço muito elevado, mesmo com o benefício tributário da exportação. A gente já vinha perdendo competitividade e, com isso, há sim um risco de que nós percamos fatias desse mercado por essa insegurança”, alertou.

Crise na Venezuela deve impactar exportações de Roraima, diz Câmara de Comércio Brasil–Venezuela

“Embora estejamos aumentando bastante nossas exportações para a Guiana, o mercado venezuelano ainda é muito maior. Enquanto a Guiana tem seus 800 mil habitantes, a Venezuela flutua aí por seus 28 a 30 milhões de habitantes. Então, há uma demanda maior. Uma crise, uma insegurança vai fazer com que a gente perca mercado”, continuou.

Segundo a Balança Comercial, divulgada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços por meio da plataforma Comex Stat, entre janeiro e novembro de 2025, Roraima exportou US$ 225 milhões em produtos e mercadorias. No período, a Venezuela, por meio da fronteira com Pacaraima, liderou as vendas gerais, com 76,5 milhões (34%). Confira as principais comercializações:

Produto

Valor em milhões (US$) 

Participação

Misturas alimentares

23,4 10,42%

Margarina e reduções

16,4

7,31%

Gorduras e óleos vegetais processados

14,2

6,32%

Açúcares e melaços

9,2

4,11%

Medicamentos

3,8

1,70%
Produtos hortícolas, frescos ou refrigerados 3,2 1,42%

 

Embora menos significativo, a Venezuela consolidou a 6ª posição em importações, com US$ 1,3 milhão dos US$ 42,5 milhões obtidos nos 11 meses de 2025, participação de 3,06%, e com destaque para “Tubos metálicos de ferro e aço” e “Barras e perfis de ferro e aço”.

Cautela

Ostreicher avaliou que o atual cenário exige maior cautela por parte do empresariado, especialmente nas etapas de desembaraço aduaneiro e na garantia da segurança das mercadorias, tanto nas operações de exportação quanto de importação.

Crise na Venezuela deve impactar exportações de Roraima, diz Câmara de Comércio Brasil–Venezuela

Segundo ele, o trajeto que passa pelo estado de Bolívar e segue por regiões como Anzoátegui e Monagas permanece estável, sem registros de instabilidade, mas o avanço em direção à capital Caracas, no estado de Miranda, já desperta preocupação entre operadores logísticos e comerciantes.

“O episódio tende a afetar o câmbio. Na Venezuela, a moeda local vem passando por um processo contínuo de desvalorização, com perdas semanais para a população e para o setor produtivo. Esse ambiente de crise pode gerar impactos significativos, sobretudo nas relações comerciais e nas transações financeiras”, disse.

Oportunidades imediatas

Alegando o envolvimento do governo Maduro com o narcotráfico, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que empresas petrolíferas americanas “assumirão o controle e investirão bilhões na Venezuela”, detentor das maiores reservas conhecidas no mundo.

Além disso, deixou explícita a possibilidade de uma nova série de ataques caso o país ofereça resistência.

Segundo a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), as reservas venezuelanas ultrapassam os 303 bilhões barris de petróleo. Os EUA, por sua vez, possuem 45 bilhões de barris, embora sejam os maiores produtores.

 

Crise na Venezuela deve impactar exportações de Roraima, diz Câmara de Comércio Brasil–Venezuela

Ostreicher observa que ainda existe entendimento entre pessoas que restaram do grupo de Maduro com o governo Trump. Isso significa que parte da estrutura interna do Estado deve continuar funcionando, mas agora alinhada ao governo americano, evitando um colapso total do país.

“De imediato, o governo americano deve acionar suas empresas de energia e elas começam a operar na Venezuela. Com isso, se estabiliza o mercado e há a necessidade de recompor vários tipos de produtos. Então, novas oportunidades de comércio são criadas na Venezuela”, salientou.