Indústria
A corrida por mão de obra técnica na Amazônia
Expansão industrial no Amazonas e no Pará pressiona a formação de profissionais qualificados
A expansão industrial na Amazônia Legal vive um momento de forte dinamismo, impulsionada por novos projetos e investimentos estratégicos. No entanto, o ritmo acelerado de aprovação de incentivos fiscais e a modernização tecnológica impõem um desafio central à região: a capacidade de formar e reter mão de obra qualificada na mesma velocidade em que o mercado exige.
No Amazonas, entre 2023 e 2025, os projetos aprovados pelo Conselho de Desenvolvimento do Estado do Amazonas (Codam) projetaram a criação de 24.618 novos postos de trabalho. Em 2026, o ritmo permanece elevado: até agosto, o colegiado já havia chancelado 214 projetos industriais, sendo que apenas as 320ª e 321ª reuniões somaram 3.687 novas vagas (2.606 e 1.081, respectivamente).
No Pará, grandes empreendimentos de mineração, energia e logística reforçam o potencial econômico de municípios como Parauapebas, Canaã dos Carajás, Marabá e Barcarena. Entre os principais anúncios dos últimos três anos destaca-se o Programa Novo Carajás, da Vale, que prevê R$ 70 bilhões em investimentos até 2030 na região de Carajás.
Entre os projetos contemplados nessa expansão está o Serra Sul +20, em Canaã dos Carajás, com investimentos de US$ 2,8 bilhões para ampliar a capacidade de produção de minério de ferro e que iniciou a fase de comissionamento em julho de 2026.

Parauapebas, Pará/Complexo Carajás | Foto: Ricardo Teles
Em Barcarena, o Complexo Termelétrico Barcarena reúne investimentos estimados em R$ 2,5 bilhões, voltados à geração de energia e à infraestrutura de gás natural. Já em Marabá, a busca de empresas por áreas no distrito industrial e as discussões sobre novos empreendimentos de beneficiamento mineral indicam oportunidades expressivas de expansão.
Diante desse cenário, a questão central para a economia regional não é apenas afirmar que “falta trabalhador”, mas compreender onde estão os gargalos estruturais e por que eles persistem.
O mapa da demanda: setores e perfis no PIM e na Amazônia Legal
Os projetos aprovados pelo Codam indicam que a expansão fabril no Amazonas pressiona principalmente os setores eletroeletrônico, de bens de informática, de duas rodas, metalmecânico, químico e plástico. Na prática, contudo, a demanda técnica extrapolou as linhas de montagem tradicionais.
Uma pesquisa conduzida conjuntamente pela Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), pelo Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam) e pela Associação Brasileira de Recursos Humanos do Amazonas (ABRH-AM), em 2024, aponta alta procura por profissionais de Automação, Informática, Química e Eletrônica no nível técnico e médio. No ensino superior, destacam-se as engenharias de automação, eletrônica, elétrica e de materiais, além de demandas recorrentes nas áreas de logística, administração e Planejamento e Controle da Produção (PCP).
Em termos macro, o Mapa do Trabalho Industrial 2025–2027, elaborado pelo Observatório Nacional da Indústria da Confederação Nacional da Indústria (CNI), dimensiona e compara o desafio de qualificação nos dois maiores estados industriais da região:
O Pará apresenta uma demanda total por qualificação 63,6% maior que a do Amazonas, registrando uma diferença de 111.367 profissionais. Segundo o Observatório da Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa), as áreas que lideram essa necessidade de qualificação profissional no território paraense incluem logística e transporte (essencial para o escoamento e operações), construção (obras e infraestrutura), manutenção e reparação de máquinas e equipamentos, e metalmecânica.

Projeto Academia STEM/UEA | Foto: Divulgação
Além do perfil fabril e logístico, o estado paraense destaca-se como o motor da mineração estratégica na Amazônia Legal.
Estudo lançado pela Agência Nacional de Mineração (ANM) em julho de 2026 aponta que a Amazônia Legal concentra 48,2% dos processos para minerais críticos e estratégicos do país, sendo o Pará responsável por 51% dos processos da região.
Esse ecossistema mineral — com investimentos expressivos voltados a cobre, níquel, alumínio, ouro e manganês — impulsiona uma demanda por engenheiros, técnicos, mecânicos e operadores de equipamentos que exige sinergia constante entre as mineradoras e as instituições de ensino técnico e superior.
No Amazonas, as áreas de maior demanda concentram-se em logística e transporte (44 mil profissionais), metalmecânica (18 mil), eletroeletrônica (18 mil) e operação industrial (16 mil).
A visão acadêmica: alinhamento curricular e a transição digital
Para compreender como as instituições públicas de ensino superior respondem a essa dinâmica, o debate envolve tanto a Universidade Federal do Pará (UFPA) quanto centros de excelência no Amazonas, como a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e a Universidade do Estado do Amazonas (UEA).
O reitor da UFPA, Gilmar Pereira da Silva, destaca que a Amazônia reúne realidades diversas e que a formação universitária precisa estar ancorada no desenvolvimento regional e socioambiental:
“A região precisa ter condições de produzir tecnologia, agregar valor às suas riquezas e gerar trabalho digno para sua população. Quer quem venha de fora ou quem aqui já resida, o jovem amazônida precisa ter condições de construir seu futuro aqui”, pontua o reitor.

Foto: Divulgação
Ele complementa: “O domínio de tecnologias digitais, a capacidade de interpretar dados e de trabalhar com processos automatizados têm ganho relevância, é verdade. Ao mesmo tempo, precisamos de profissionais que saibam resolver problemas, trabalhar em equipe, comunicar suas ideias e continuar aprendendo ao longo da vida. Também nos preocupamos com formações que incluam a compreensão do território, afinal, uma decisão técnica tem consequências ambientais e sociais. Em resumo, eu diria que competência profissional envolve saber utilizar uma tecnologia, assim como avaliar seus efeitos sobre as pessoas e sobre o lugar onde ela será aplicada. Na Amazônia, essa responsabilidade precisa estar no centro da formação.”
No âmbito da Ufam, o professor Sandro Santiago, especialista em Indústria 4.0, aponta que as áreas mais demandadas concentram-se no núcleo eletroeletrônico e de bens de informática, agora dotados de uma forte camada digital. No nível superior, destacam-se as engenharias elétrica, eletrônica, de controle e automação, mecatrônica e de produção, além de computação, engenharia de software e ciência de dados; no nível técnico, o foco recai sobre automação industrial, eletroeletrônica, mecatrônica e manutenção industrial.

Foto: Divulgação
Segundo o especialista da Ufam, a natureza da contratação mudou radicalmente: “A empresa deixou de procurar só quem opera a máquina e passou a procurar quem entende os dados que a máquina gera”, explica Sandro Santiago.
Essa mudança exige o perfil do profissional “em T”, que possui uma base sólida de conhecimentos e capacidade de transitar entre automação, programação de CLPs, IoT industrial, sistemas MES e análise de dados de processos. Contudo, o professor pondera que a atualização dos currículos acadêmicos ocorre em ritmo mais lento que o das fábricas. Para mitigar esse desafio, a Ufam utiliza projetos aplicados, como o diagnóstico de maturidade em Indústria 4.0 por meio do modelo PIMM4.0.
Corroborando esse cenário no estado, o diretor da Escola Superior de Tecnologia da Universidade do Estado do Amazonas (EST/UEA), professor Jucimar Silva Júnior, aponta os desafios de escala e complexidade: “O principal gargalo é a quantidade de profissionais que conseguimos formar para atender à demanda da indústria. As engenharias e a computação são formações exigentes, que demandam uma base sólida de conhecimentos e muita dedicação dos estudantes. Por isso, estamos buscando novas estratégias para apoiar os alunos ao longo dessa trajetória, inclusive com o uso da inteligência artificial como ferramenta de aprendizagem”, aponta Jucimar Silva Júnior.
Ele reforça: “A indústria busca, cada vez mais, profissionais que reúnam competências técnicas sólidas, as chamadas hard skills, e habilidades comportamentais bem desenvolvidas, as soft skills. Não basta dominar a Engenharia ou a Computação: é preciso saber trabalhar em equipe, comunicar-se, adaptar-se e lidar com desafios. E tudo isso é desenvolvido cotidianamente na EST/UEA, nas salas de aula, nos laboratórios e nos projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I), que aproximam nossos alunos dos desafios reais do setor produtivo. Outro diferencial cada vez mais importante é o domínio da IA. As empresas buscam profissionais que já cheguem preparados para utilizar essas ferramentas na prática, no sentido de aumentar a produtividade e desenvolver soluções inovadoras.”

Foto: Divulgação
Integração acadêmica e parcerias estratégicas com o setor produtivo
Além da formação acadêmica tradicional, parcerias entre universidades, instituições de ensino e empresas têm buscado aproximar estudantes e profissionais das demandas do setor industrial na Amazônia Legal, envolvendo capacitação tecnológica, automação, inteligência artificial e desenvolvimento de competências aplicáveis ao ambiente produtivo.

Especialista chamam a atenção para ritmo com que os currículos são atualizados | Foto: Divulgação/FAPEAM
Na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), destacam-se a intenção de uma aliança estratégica com a Suframa, com reunião realizada em agosto de 2026 — com foco no treinamento acelerado de profissionais em engenharias e na continuidade de projetos apoiados pelos incentivos da Lei de Informática da Amazônia —, iniciativa que, segundo a reitora Tanara Lauschner, busca conectar diretamente a produção acadêmica ao cotidiano do Distrito Industrial.
A instituição também desenvolve projetos complementares como o Projeto SUPER e pesquisas aplicadas, a exemplo do sistema inteligente de controle de produtos em processo desenvolvido pela pós-graduação em Engenharia de Produção, que aproxima os estudantes das linhas de montagem do PIM.
Na Universidade do Estado do Amazonas (UEA), a Academia STEM, desenvolvida em parceria com a Samsung, integra ações voltadas à formação em ciência, tecnologia, engenharia e matemática, complementada por iniciativas como o Samsung Ocean. Já a especialização em Ergonomia na Indústria 4.0, realizada em parceria com a Honda, busca preparar profissionais para os desafios relacionados à ergonomia e às novas tecnologias no ambiente industrial.
No Pará, a Universidade Federal do Pará (UFPA) busca fortalecer a conexão entre a formação acadêmica e o setor produtivo por meio de um protocolo de cooperação firmado com a Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa) em fevereiro de 2025. Outra iniciativa é o iLink UFPA, apresentado em abril do mesmo ano, que busca aproximar a produção científica da universidade de demandas e oportunidades de inovação, além do Programa de Incubação de Empresas de Base Tecnológica (PIEBT).

Arte: Suellen/PIM Amazônia
Tais iniciativas mostram diferentes formas de integração entre instituições de ensino e empresas, evidenciando a importância de distinguir a capacitação tecnológica avançada dos treinamentos específicos para funções estritamente operacionais nas linhas de produção.
A voz da indústria: o desafio de recrutar para a manufatura avançada
Do lado de dentro das grandes fábricas do Polo Industrial de Manaus, o impacto dessa transição tecnológica é diário. A LG, que consolida sua operação histórica na capital amazonense — estruturada com mais de 2 mil colaboradores diretos e indiretos e 126 novas vagas preenchidas em 2026 —, aponta que o principal desafio do setor de eletroeletrônicos e linha branca é acompanhar a rápida modernização tecnológica e o avanço da manufatura avançada.

Polo Industrial de Manaus emprega mais de 130 mil trabalhadores | Foto: Divulgação
Segundo Marcelo Moraes, gerente de Recursos Humanos da LG, as posições que demandam maior nível de especialização técnica e conhecimento industrial representam os processos seletivos mais complexos. Para mitigar esse cenário, a companhia busca perfis multidisciplinares:
“Mais do que uma formação acadêmica única ou específica, a LG busca profissionais com perfil multidisciplinar, caracterizado por uma elevada capacidade de adaptabilidade e facilidade para resolver problemas complexos em ambientes dinâmicos. Valorizamos talentos que combinem embasamento técnico com visão sistêmica, flexibilidade e orientação para a inovação”, destaca Marcelo Moraes.
Para suprir lacunas locais, a empresa aposta em iniciativas estruturadas de capacitação. Entre as principais ações associadas à fabricante estão o ZL Academy Digital Transformation — desenvolvido em parceria com o IFAM, a FAEPI e o Instituto Eldorado para capacitar profissionais em transformação digital, automação e Python — e o AX Academy (em parceria com a FPFtech), focado em inteligência artificial aplicada à indústria e automação.

Capacitação de profissionais em transformação digital | Foto: Divulgação
“Mantemos iniciativas como o LG Academy, em Manaus, que oferece capacitação em tecnologia para estudantes universitários, fortalecendo a qualificação regional e preparando novos talentos para o mercado. Além disso, investimos continuamente em treinamentos internos para nivelar o conhecimento técnico aos padrões globais da companhia”, reforça a empresa.
Onde está o verdadeiro gargalo?
Especialistas, executivos e gestores acadêmicos convergem ao apontar que o entrave não se resume à oferta numérica de vagas nas universidades ou institutos técnicos, mas a um conjunto de fatores estruturais que perpassam a cadeia produtiva regional.
O professor Sandro Santiago analisa essa dinâmica: “Em volume para a operação fabril tradicional, o Amazonas consegue atender. Na velocidade e nas áreas que a Indústria 4.0 exige, ainda não. O polo cresce rápido: em 2025, o PIM registrou faturamento de R$ 227,6 bilhões, uma expansão de 11% em relação ao ano anterior, e mantém mais de 129 mil empregos diretos no início de 2026. A transformação tecnológica, porém, anda mais rápido que os ciclos de revisão curricular. Isso não é exclusividade nossa. Na Sondagem Industrial da CNI, a falta de mão de obra qualificada ficava em torno de 5% das menções entre 2015 e 2020 e subiu quase sem interrupção até chegar a 23% em 2024. O ponto central é que o descompasso é mais qualitativo do que quantitativo. Estudos feitos na própria Ufam já apontavam uma contradição: a expansão do ensino superior privado em Manaus foi justificada como preparo de mão de obra para o PIM, mas houve pouca absorção desses formados pelas indústrias locais. Formamos gente, mas nem sempre no perfil que a fábrica digitalizada procura.”
Em primeiro lugar, destaca-se a questão da qualificação específica e da vivência prática: o recém-formado muitas vezes apresenta sólida base teórica, mas carece de vivência prévia em ambientes automatizados industriais de alta performance e na interpretação analítica de dados de chão de fábrica.

Polo Industrial de Manaus emprega mais de 130 mil trabalhadores | Foto: Divulgação/Suframa
“O gargalo não está no número de vagas nos cursos. Está na qualificação específica e na experiência prática. O recém-formado chega com boa base teórica, mas com pouca vivência em ambientes automatizados reais, e a empresa quer alguém produtivo rapidamente. Somam-se a isso dois problemas estruturais. O primeiro é a evasão nas engenharias, ligada a deficiências em matemática e física da educação básica”, explica Sandro Santiago.
Além disso, a disputa acirrada por talentos — intensificada pela concorrência com empresas de outros centros do país e pelas oportunidades de trabalho remoto — aumenta a rotatividade e, em alguns segmentos, reduz o incentivo a investimentos de longo prazo em capacitação interna:
“O segundo é a retenção, já que profissionais qualificados são disputados por outros estados e pelo trabalho remoto. Há ainda um histórico de alta rotatividade: pesquisa da Ufam com trabalhadores demitidos do setor eletroeletrônico identificou que as empresas optavam por uma seleção contínua de mão de obra mais qualificada, por meio da contratação e demissão de trabalhadores, o que reduz o incentivo ao investimento em formação de longo prazo”, acrescenta Santiago.
Olhando para o futuro e para o papel local das instituições, o diretor da EST/UEA, Jucimar Silva Júnior, conclui: “Hoje, ainda precisamos trazer mão de obra de outras regiões do país, como Sul e Sudeste, para atender parte dessa demanda. Mas é importante destacar que as universidades públicas e privadas do Amazonas estão trabalhando intensamente para mudar esse cenário, ampliando a formação de profissionais e buscando maior alinhamento com as necessidades do setor produtivo. O nosso desafio é formar cada vez mais talentos aqui, no próprio estado, capazes de acompanhar a evolução tecnológica da indústria e sustentar o próximo ciclo de crescimento econômico do Amazonas.”
Para mitigar esses desafios, lideranças acadêmicas e industriais reforçam a urgência de ampliar parcerias estratégicas por meio de projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I), como os financiados pela Lei de Informática, transformando laboratórios e centros tecnológicos em pontes diretas para o mercado de trabalho na Zona Franca de Manaus e na Amazônia Legal.

