Política
Candidatos ao governo do Amazonas miram Zona Franca, interior e novas matrizes econômicas
Propostas citam infraestrutura, setor primário, qualificação profissional, bioeconomia e diversificação como prioridades para o Estado
Foto: Divulgação/GRM
O primeiro turno das eleições está marcado para este domingo, 4 de outubro. A PIM Amazônia ouviu os candidatos ao governo do Amazonas sobre os planos para a economia do Estado. Em comum, aparecem temas como defesa da Zona Franca de Manaus, interiorização do desenvolvimento, setor primário, qualificação profissional, infraestrutura e busca por novas matrizes econômicas.
Sete candidatos disputam o governo do Amazonas: Cabo Daciolo (Mobiliza), David Almeida (Avante), Gilberto Vasconcelos (PSTU), Isael Munduruku (Rede), Omar Aziz (PSD), Professora Maria do Carmo (PL) e Roberto Cidade (União Brasil), conforme lista de candidaturas com dados do TSE.
A PIM Amazônia procurou as sete candidaturas para saber quais são as propostas para a economia do Estado. Até o fechamento desta edição, David Almeida, Gilberto Vasconcelos, Isael Munduruku, Professora Maria do Carmo e Roberto Cidade haviam enviado respostas ao questionário. A equipe de Cabo Daciolo encaminhou o plano de governo, sem responder diretamente às perguntas. Omar Aziz não havia enviado resposta.
Zona Franca e diversificação
A Zona Franca de Manaus aparece nas respostas como eixo de sustentação da economia estadual, mas acompanhada da defesa de diversificação produtiva e maior conexão com o interior.
No documento enviado pela equipe de Cabo Daciolo, a Zona Franca é tratada como “patrimônio econômico estratégico do Amazonas”. O plano afirma que o Estado deve trabalhar para ampliar a participação de empresas locais nas cadeias do Polo Industrial de Manaus, com foco em fornecedores locais, formação técnica, pesquisa e desenvolvimento, indústria 4.0, componentes, insumos, serviços tecnológicos, bioindústria e exportação.
David Almeida afirma que seu plano parte da defesa e do fortalecimento da Zona Franca de Manaus e do Polo Industrial, considerados fundamentais para geração de emprego, renda e arrecadação. Segundo a resposta enviada pela campanha, a estratégia também passa por diversificação econômica, com atenção à bioeconomia, ao turismo, à tecnologia, à produção de alimentos, à pesca, à construção naval e ao aproveitamento sustentável dos recursos da floresta.
Gilberto Vasconcelos defende uma reorganização do modelo econômico regional articulada a um projeto nacional de desenvolvimento. A proposta reconhece o peso da Zona Franca e do Polo Industrial de Manaus, mas questiona como fazer com que essa riqueza gere mais empregos, conhecimento, tecnologia, produção regional e desenvolvimento para o conjunto do Amazonas. O plano também propõe uma nova política industrial, com integração entre indústria, ciência e produção regional.
Isael Munduruku defende combinar a manutenção da Zona Franca com diversificação econômica, interiorização do desenvolvimento e fortalecimento da economia da floresta. Segundo a resposta enviada pela campanha, a Zona Franca continuará tendo papel estratégico, mas o Estado precisa reduzir a concentração de oportunidades em Manaus e agregar valor a produtos amazônicos como açaí, pescado, castanha, frutas, óleos, fibras, artesanato e itens da sociobiodiversidade.
Maria do Carmo afirma que seu plano de governo parte da prioridade de desenvolver o Amazonas de forma descentralizada, com oportunidades de emprego e renda também fora da capital. Segundo a candidata, a Zona Franca deve ser defendida e fortalecida, ao mesmo tempo em que o Estado cria novas matrizes econômicas, com atenção ao turismo, à agricultura, à piscicultura e à mineração sustentável.
Roberto Cidade diz que seu plano está estruturado em três pilares: cuidar das pessoas, gerar emprego e renda a partir de novas matrizes econômicas e preparar o Estado para o futuro, com investimentos em educação, tecnologia, inovação e inteligência artificial. A Zona Franca, segundo a resposta enviada pela campanha, será valorizada, enquanto a gestão pretende criar polos regionais de bioeconomia para produtos como açaí, castanha, óleos, cosméticos, fitoterápicos, alimentos e novos produtos.
Interior e setor primário
A interiorização do desenvolvimento é um dos pontos mais presentes nas manifestações recebidas.
O plano de Cabo Daciolo dedica um eixo ao que chama de Agro Forte. O documento inclui agricultura familiar, pesca, piscicultura, agroextrativismo, pecuária, manejo sustentável, bioeconomia, agroindústria e turismo rural. Entre as medidas, cita assistência técnica, regularização fundiária e ambiental, comercialização, infraestrutura, mecanização em áreas já abertas, sistemas agroflorestais, piscicultura, beneficiamento do pescado e cadeias de produtos florestais não madeireiros.
David Almeida afirma que pretende estimular cadeias produtivas de acordo com a vocação de cada região, como mandioca, castanha, malva, pescado e pirarucu. A proposta é agregar valor à produção dentro do próprio Estado e criar condições para que o desenvolvimento econômico chegue também ao interior.
Gilberto Vasconcelos propõe fortalecer atividades agrícolas, extrativas e de produção regional, com aumento da capacidade de beneficiamento e agregação de valor no próprio Amazonas. A resposta também cita assistência técnica, pesquisa, crédito público, infraestrutura de produção, armazenamento, transporte e comercialização para atividades desenvolvidas pelas populações do interior.
Isael Munduruku afirma que pretende apoiar cooperativas, associações, agricultores familiares, pescadores, extrativistas, povos indígenas e pequenos empreendedores com crédito, assistência técnica, tecnologia, beneficiamento e acesso a mercados. A proposta também inclui estímulo a pequenas agroindústrias nos municípios, para que parcela maior da riqueza permaneça onde é produzida.
Maria do Carmo propõe fortalecer o setor primário com assistência técnica, aproximação entre pesquisa e produção, apoio a cooperativas, regularização de produtores rurais e destravamento do crédito rural. A candidata também cita mecanismos para proteger a produção dos efeitos de secas e cheias.
Roberto Cidade propõe o programa Agro Amazonas Sustentável, com assistência técnica, mecanização, crédito, regularização, armazenagem, agroindústria e fomento à agricultura familiar. A resposta também cita a exploração de terras raras como alternativa econômica para o interior, em fase de licenciamento.
Infraestrutura e logística
A infraestrutura aparece como condição para levar desenvolvimento ao interior e melhorar o escoamento da produção.
No plano de Cabo Daciolo, a infraestrutura é tratada como uma agenda multimodal. O documento afirma que, no Amazonas, infraestrutura não pode ser pensada apenas como rodovia e deve combinar rios, portos, terminais, embarcações, aeroportos, aeródromos regionais, rodovias, vicinais, pontes e conectividade.
David Almeida afirma que pretende trabalhar na recuperação da infraestrutura estadual, na melhoria dos ramais e das conexões entre áreas produtoras e centros consumidores. A campanha também cita a busca de soluções para reduzir gargalos logísticos que encarecem a atividade econômica no Amazonas.
Gilberto Vasconcelos defende uma política de infraestrutura voltada às necessidades sociais e econômicas da população. A proposta também inclui eletrificação universal do interior, com uso de energias renováveis e tecnologias adequadas às características das diferentes regiões do Estado.
Isael Munduruku afirma que não haverá desenvolvimento econômico no interior sem energia confiável, internet, transporte adequado, abastecimento de água e logística. Segundo a campanha, o planejamento precisa considerar as calhas de rios e combinar transporte fluvial, infraestrutura regional, conectividade e energia limpa e descentralizada.
Maria do Carmo diz que pretende atuar sobre três pilares: infraestrutura, setor primário e turismo. A candidata também cita a ampliação da conectividade aérea regional e a transformação do Amazonas em destino internacional de ecoturismo.
Roberto Cidade afirma que seu pacote de infraestrutura inclui recuperação de rodovias e vicinais, modernização de portos, terminais e aeroportos, com o objetivo de facilitar o escoamento da produção.

Roberto Cidade, Cabo Daciolo, David Almeida, Maria do Carmo, Omar Aziz, Gilberto Vasconcelos e Isael Munduruku – Foto: Arte/Agência Brasil
Qualificação e tecnologia
A formação profissional aparece ligada tanto à indústria quanto às vocações regionais do interior.
O plano de Cabo Daciolo afirma que qualificação, intermediação de mão de obra, primeiro emprego e requalificação profissional devem ser planejados de acordo com as cadeias que contratam em cada região. O documento cita atuação coordenada de Cetam, UEA, Sine e programas de formação.
David Almeida afirma que pretende aproximar formação profissional e mercado de trabalho. Segundo a campanha, a expansão do ensino técnico e profissionalizante estará vinculada às demandas da indústria, dos serviços e das novas cadeias econômicas, com foco especialmente nos jovens.
Gilberto Vasconcelos propõe ampliar investimentos públicos em pesquisa e inovação, com articulação entre universidades, institutos de pesquisa e setores produtivos estratégicos. A resposta também defende que incentivos públicos concedidos às empresas da Zona Franca sejam condicionados, entre outros pontos, à formação profissional, à transferência de tecnologia e à integração com cadeias produtivas regionais.
Isael Munduruku afirma que pretende ampliar a educação técnica e profissional vinculada às vocações de cada região, com formação para áreas como bioeconomia, pesca, agricultura, turismo, tecnologia, serviços e novas atividades econômicas.
Maria do Carmo propõe aproximar a escola do primeiro emprego, com estágios, aprendizagem e parcerias com empresas. Também afirma que pretende ampliar a capacitação técnica para novas tecnologias e para as demandas da indústria.
Roberto Cidade cita o Cetam Profissões do Futuro, com cursos em inteligência artificial, programação, robótica, indústria 4.0, energia, logística, turismo, saúde, bioeconomia e economia criativa.
Mineração, bioeconomia e transição ecológica
As propostas também tratam de novas matrizes econômicas com enfoques diferentes.
No plano de Cabo Daciolo, a bioeconomia aparece associada a produtos não madeireiros, sistemas agroflorestais, agroindústria, turismo rural e cadeias como borracha, castanha-do-brasil, andiroba, copaíba, murumuru e buriti. O documento também afirma que o Amazonas não precisa escolher entre preservação e desenvolvimento, mas “desenvolver protegendo aquilo que o torna único”.
David Almeida cita a bioeconomia, o aproveitamento sustentável dos recursos da floresta, o turismo, a pesca e a produção de alimentos entre as frentes de diversificação econômica. No interior, a proposta é fortalecer cadeias produtivas de acordo com a vocação de cada região.
Gilberto Vasconcelos defende atividades produtivas baseadas nos conhecimentos acumulados pelas populações amazônicas e no uso responsável da biodiversidade, com impedimento de sua apropriação privada. A resposta também propõe controle público sobre setores estratégicos como energia, petróleo, gás e mineração, além de combate à exploração predatória dos recursos naturais.
Isael Munduruku coloca a transição energética e ecológica como política de desenvolvimento e geração de empregos. Segundo a campanha, o Amazonas deve usar biodiversidade, capacidade científica, universidades e centros de pesquisa para desenvolver tecnologias e atividades econômicas compatíveis com a proteção da floresta.
Maria do Carmo defende licenciamento técnico e ágil para a mineração legal, com sustentabilidade e criação de uma Câmara Técnica Permanente envolvendo IPAAM, Sema, Agência Nacional de Mineração e universidades.
Roberto Cidade cita investimento para viabilizar a exploração de terras raras como alternativa de desenvolvimento econômico no interior. A resposta enviada pela campanha afirma que a atividade está em fase de licenciamento.
O que mais apareceu nas propostas
Com base nas respostas enviadas ao questionário, os temas mais citados foram:
• Infraestrutura, logística ou conectividade
• Zona Franca, indústria ou tecnologia
• Interiorização ou descentralização do desenvolvimento
• Setor primário, agro, pesca, piscicultura ou extrativismo
• Educação técnica, qualificação ou formação profissional
• Bioeconomia, economia da floresta ou sociobiodiversidade
• Crédito, cooperativas, empreendedorismo ou pequenos negócios
As propostas recebidas indicam uma agenda econômica com pontos de convergência: manutenção da Zona Franca, diversificação produtiva, interiorização, infraestrutura e qualificação profissional. As diferenças aparecem na ênfase dada a cada eixo e no formato das medidas apresentadas.
Neste ano, o eleitor fará seis escolhas na urna: deputado federal, deputado estadual, senador para a primeira vaga, senador para a segunda vaga, governador e presidente da República. Eventual segundo turno para presidente e governador está previsto para 25 de outubro, segundo o Tribunal Superior Eleitoral.

