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Acordo Mercosul–União Europeia exige adaptação do Polo Industrial de Manaus

No primeiro momento, acordo não representa nem risco nem oportunidade ao PIM, avaliam Fieam e Cieam

Foto: Divulgação

Após mais 25 anos de negociações, o acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia foi formalmente firmado no último sábado (17), durante cerimônia realizada em Assunção, capital do Paraguai. O encontro concentrou chefes de Estado da região e de representantes das instituições europeias, entre eles a presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, e o presidente da Argentina, Javier Milei.

A consolidação do acordo traz consigo indagações sobre desdobramentos na economia do Amazonas, especialmente no Polo Industrial de Manaus (PIM), motor produtivo do estado e responsável por concentrar grande parte do comércio exterior e geração de empregos industriais.

Transição cautelosa

Para o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Antonio Silva, a relação entre o tratado e o Polo de Manaus não pode ser analisada de forma simplista, pois o acordo não representa, automaticamente, nem fortalecimento nem fragilização do modelo industrial da Zona Franca.

Silva pondera que a preservação da competitividade do Polo passa por uma transição cuidadosa, sobretudo em setores considerados sensíveis.

Acordo Mercosul–União Europeia exige adaptação do Polo Industrial de Manaus

“Existe um risco concreto caso a eliminação de tarifas sobre manufaturados europeus reduza de forma abrupta o diferencial tributário que hoje compensa os desafios logísticos da região. A integridade do PIM depende de uma desgravação tarifária assimétrica [redução de tarifas], com prazos mais longos para áreas como eletroeletrônicos e duas rodas, ou mesmo a inclusão desses segmentos em listas de exceção, evitando uma concorrência desigual com produtos europeus”, explicou.

Avaliação semelhante é feita pelo presidente do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam), Lúcio Flávio de Oliveira, que ressalta que os efeitos do acordo dependerão, sobretudo, da capacidade de adaptação das empresas instaladas no Polo. “Na prática, o acordo pode fortalecer ou fragilizar o PIM. Não é o texto em si que define isso, mas o quanto o Polo estará preparado para atender às exigências do mercado europeu”, afirmou.

Lúcio Flávio de Oliveira - Cieam

Segundo Oliveira, a União Europeia impõe um conjunto rigoroso de requisitos técnicos, ambientais e de origem, que funcionam como um verdadeiro filtro competitivo. “A Europa não compra promessa, compra evidência. Conformidade técnica, regras de origem, rastreabilidade da cadeia e exigências socioambientais precisam fazer parte da rotina industrial, não podem ser tratadas como ajuste de última hora”, disse.

O dirigente do Cieam acrescenta que, sem atenção a esses pontos, o Amazonas corre o risco de ampliar sua dependência das importações europeias sem conseguir transformar o acordo em oportunidade de expansão das exportações. “Há um paradoxo possível: produzir no Polo, mas não atender às regras que permitem acessar as preferências tarifárias. Por isso, é fundamental mapear cadeias produtivas, adensar etapas estratégicas e fortalecer fornecedores locais”, avaliou.

Importações

No acumulado dos últimos 12 meses (referente a 2025), a Corrente de Comércio amazonense fechou com U$ 16.06 bilhões em importações, conforme mostra a plataforma Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). O valor representa 94% da Balança Comercial do estado.

Dos 27 países da União Europeia, 26 venderam para o Amazonas no período, somando U$ 872.33 milhões, representando 5,4% do total.

País Acumulado/2025 (U$) Principal produto
Bélgica 290.379.187 Paládio em formas brutas ou em pó
Alemanha 228.022.516 Partes e acessórios de motocicletas (inclusive ciclomotores)
Itália 75.996.083 Partes e acessórios de motocicletas (inclusive ciclomotores)
Espanha 52.215.476 Ligas de alumínio, em formas brutas
Irlanda 48.167.274 Misturas utilizadas em matéria básica para indústria alimentar/de bebida

Segundo os dados mais recentes, de dezembro, o Amazonas somou  U$ 1,13 bilhão nas importações. Destes, foram U$ 94.88 milhões provenientes da Europa, 8,4% do total. Confira os destaques abaixo:

País Acumulado/Dezembro de 2025 (U$)
Bélgica 45.730.422
Alemanha 15.035.091
Áustria 8.753.948
Irlanda 6.671.494
Itália 4.432.874

Exportações

Historicamente, as exportações totalizam valores inferiores às importações na Balança Comercial do Amazonas. Dados dos últimos 12 meses, também coletados do Comex Stat, mostram que o Amazonas exportou um total de U$ 939.89 milhões.

A plataforma mostra que o estado exportou para 22 dos 27 países da União Europeia, totalizando vendas em U$ 199.27 milhões, 21,2% do acumulado. A liderança ficou com a Alemanha, que absorveu U$170.281.963, representação de 85,4%.

Confira ranking com as cinco maiores vendas:

País Acumulado/2025 (U$) Principal produto
Alemanha 170.281,963 Ouro
Bélgica 5.948,417 Prata
Países Baixos 5.550,917 Madeira serradas (cedro, ipê, pau-marfim, louro etc)
Espanha 5.264,019 Soja
França 4.034,570 Ligas metálicas usadas para produzir faísca, como as de isqueiros

Somente no mês de dezembro, as exportações do Amazonas chegaram a U$ 95.92 milhões. Para a Europa, o valor foi de U$ 39.93 milhões (41,6%), com destaque novamente para Alemanha, que respondeu por 96% do total europeu embarcado no período.

País Acumulado/Dezembro de 2025 (U$)
Alemanha 38.386,206
Países Baixos 418.707
Chipre 383.060
Espanha 348.349
França 238.218

 Margens para a modernização do PIM

Outro indicativo do presidente do presidente da Fieam, Antonio Silva, é a utilização do acordo como instrumento de transformação industrial. Nas palavras dele:

“A redução de custos na importação de máquinas, bens de capital e tecnologias europeias de ponta abre espaço para modernizar o parque fabril. O desafio é deixar de competir apenas com base em incentivos fiscais e avançar em produtividade e eficiência tecnológica, usando o acesso ao mercado europeu para qualificar nossos processos”.

Sustentabilidade

Silva também observa que o acordo tende a favorecer produtos com rastreabilidade ambiental, o que pode abrir espaço para a diversificação da pauta exportadora amazonense.

“A Europa é um mercado ávido por produtos verdes. Se conseguirmos industrializar nossa biodiversidade com os padrões exigidos pelo Pacto Ecológico Europeu, áreas como bioeconomia, fármacos e cosméticos de base florestal podem ganhar protagonismo”, pontuou.

Acordo Mercosul–União Europeia exige adaptação do Polo Industrial de Manaus

Na mesma linha, Lúcio Flávio de Oliveira destaca que temas como economia circular, logística reversa e governança da cadeia produtiva deixam de ser diferenciais e passam a ser pré-requisitos.

“No eletroeletrônico, por exemplo, circularidade já é prática: reparo, remanufatura e reciclagem rastreada. O Polo pode liderar esse movimento no Brasil, desde que trate o acordo como uma plataforma de modernização e não apenas como um evento pontual”, disse.

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