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Cadeia produtiva da pesca: um caminho para gerar valor e inovação na região Amazônica

Especialista da UFAM aponta soluções via biotecnologia e biousinas comunitárias

Foto: Larissa França/Sema

Quando se debate a bioeconomia na Amazônia, a pauta corporativa e governamental costuma gravitar em torno do açaí, dos óleos essenciais ou das castanhas. No entanto, um gigantesco ativo estratégico nada pelas bacias da região. Com mais de 3.300 espécies catalogadas, a pesca amazônica carrega um potencial industrial capaz de rivalizar com as maiores cadeias extrativas vegetais.

O alerta foi destacado pela especialista e Profa. Dra. Maria Angélica de Almeida Corrêa, docente e pesquisadora do Departamento de Ciências Pesqueiras (DEPESCA) e Diretora de Empreendedorismo e Habitat de Inovação da Pró-reitoria de Inovação Tecnológica (PROTEC) da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em entrevista à Revista PIM Amazônia, realizada nesta terça-feira (4). 

“O nosso pescado representa grande potencial para diversas cadeias produtivas da bioeconomia. Olhando apenas para o nosso principal representante, o pirarucu (Arapaima gigas) das áreas de manejo, o aproveitamento da biomassa para consumo direto é de, aproximadamente, 57%; os subprodutos representam 43% – couro, óleo, colágeno, ômega 3 e 6, carcaça e vísceras, com elevada capacidade de valor agregado, porém desperdiçados”, argumenta.

A Mineração Biotecnológica: Da Escama ao Ômega 3

Atualmente, o mercado regional explora comercialmente uma fração pequena comparada ao potencial da biodiversidade, cerca de 100 espécies, entre espécies para o consumo e para fins ornamentais. Para a pesquisadora, o verdadeiro salto de valor agregado para a indústria amazonense está no aproveitamento biotecnológico dos subprodutos para maior valorização do recurso, além da viabilização da economia circular que podem transformar a vida das comunidades ribeirinhas.

“Os recursos pesqueiros são uma fonte de fornecimento de matéria-prima ou insumos para a geração de produtos fármacos, cosméticos, têxteis, artesanais, com estoques abundantes e políticas de ordenamento consolidadas. A cadeia produtiva da pesca, no entanto, carece de investimentos em infraestrutura como a cadeia do frio, logística, e incentivos a estruturação de plantas produtivas em municípios estratégicos para alavancar o seu desenvolvimento e expansão.”

Pólo Industrial de Manaus e Biousinas Comunitárias (PPB Bio)

Para conectar a pesquisa, extensão e inovação da academia ao ecossistema do Pólo Industrial de Manaus (PIM), o caminho passa pelos recursos de P&D geridos pela Suframa através do Programa Prioritário de Bioeconomia (PPB Bio). Uma das propostas é o financiamento de biousinas regionais em áreas estratégicas para o pré-beneficiamento do pescado e processamento de resíduos com garantia de qualidade, origem e valor. 

“Impulsionar a bioeconomia do pescado nas comunidades ribeirinhas, aproximando as tecnologias e insumos necessários da base produtiva seria o primeiro passo. Com capacidade instalada para o beneficiamento seguro e aproveitamento integral do recurso, a nossa região integraria de fato a cadeia produtiva do pescado à matriz econômica do estado. Além de gerar divisas para o estado, a principal atividade extrativista, poderia aumentar a capacidade de gerar emprego e renda a mulheres e jovens ribeirinhos.”

Sobre o retorno para o setor produtivo, a Dra. Maria Angélica reforça a viabilidade do modelo: “Quando o empresário sabe para onde vai o seu recurso e investe na bioeconomia da região, com impacto social e ambiental relevante, ele fortalece comunidades que têm muito potencial, e enfrentam extrema vulnerabilidade ao longo das calhas dos rios, lutando dia a dia para manterem-se no território.”

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“O nosso pescado representa grande potencial para diversas cadeias produtivas da bioeconomia.”, diz a pesquisadora – Foto: Idam/Divulgação

Por que o pescado ainda não virou indústria em larga escala?

Segundo dados da Pesquisa Pecuária Municipal (PPM 2024) do IBGE, divulgados pela Secretaria de Estado de Pesca e Aquicultura do Amazonas (SEPA), o estado atingiu recordes no cultivo de peixes nativos: 8,54 milhões de quilos de tambaqui e 2,89 milhões de quilos de matrinxã, além de volumes relevantes de pirapitinga (265 mil kg) e pirarucu (207 mil kg).

No entanto, a abundância de matéria-prima não tem sido suficiente para alavancar a industrialização do peixe, travada pela fragilidade estrutural do interior, pela logística complexa e pelo perfil artesanal da frota. Por ser um produto altamente perecível, qualquer avanço fabril exige infraestrutura básica na ponta produtiva.

“Para processar, precisamos dar condições mínimas às comunidades: água potável e energia. Sem isso e sem a cadeia do frio, não é possível levar esse produto pescado com qualidade até a fábrica. As longas distâncias percorridas e a falta do resfriamento rápido, causam perdas e danos ao produto.”, explicou a Dra. Maria Angélica. 

A logística fluvial e a dependência de pequenas embarcações e intermediários encarecem o transporte e desestruturam o fluxo contínuo exigido pela indústria:

“A nossa pesca é artesanal, feita com o uso de centenas de milhares de canoas. O custo operacional está travado na logística. O produtor precisa de barcos estruturados e conservação; quando a seca se agrava ou o frete sobe, ele muitas vezes decide não produzir.”

Por fim, a cultura do consumo focado apenas no peixe e a falta de políticas públicas estruturantes e tecnológicas mantêm o setor estagnado. Para a pesquisadora, o caminho depende de parcerias estratégicas para estruturar a cadeia na origem:

“Estamos perdendo a oportunidade de desenvolver produtos de alto valor agregado, diversificar mercados e assim promover maior valor ao recurso pesqueiro. Ao tempo que fazemos isso, reduzimos a pressão sobre os estoques pesqueiros, e melhoramos a vida das comunidades ribeirinhas e sua permanência nas áreas com mais qualidade de vida e bem-estar. Precisamos de investimentos e parcerias entre governo e empresários para olhar essas comunidades como pólos potenciais e estruturar o beneficiamento na ponta.”

Sobre a Profa. Dra. Maria Angélica de Almeida Corrêa 

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Profa. Dra. Maria Angélica de Almeida Corrêa – Foto: Arquivo Pessoal

É Professora Associada e pesquisadora do Departamento de Ciências Pesqueiras (DEPESCA) da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), doutora em Ciências Pesqueiras nos Trópicos. Atualmente, é Diretora do Departamento de Empreendedorismo e Inovação Tecnológica da Pró-reitoria de Inovação Tecnológica conectando a academia ao setor produtivo, governos, e ecossistemas de inovação da região.

A pesquisadora é uma das principais especialistas da região em socioeconomia da pesca, bioeconomia e ordenamento pesqueiro de pequena escala.

Em reconhecimento à sua relevante contribuição científica, educacional e social para o desenvolvimento das comunidades tradicionais do Amazonas, a pesquisadora foi condecorada com a Medalha de Honra ao Mérito pela Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (ALEAM), em 2022.