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Fábrica de Manaus conecta cadeia da castanha no interior do Amazonas

Projeto articula o Polo Industrial com o extrativismo, gera renda, qualificação e cria produção em Lábrea (AM)

Acostumado ao trabalho na floresta, Rogério Rocha nunca imaginou operar equipamentos, lidar com controle de umidade ou entender parâmetros exigidos por uma cadeia produtiva com padrões industriais de Manaus.

“A gente só tirava o que dava da mata e vendia do jeito que dava. Hoje tem padrão. Se errar aqui, lá na frente dá problema”, explica.

A mudança começou quando o resíduo da castanha, antes descartado na atividade extrativista, passou a integrar uma cadeia produtiva conectada à indústria.

O projeto é liderado pela Tutiplast Indústria e Comércio, fabricante instalada no Polo Industrial de Manaus (PIM) há 33 anos, que passou a desenvolver compósitos a partir de matérias-primas de origem regional e a estruturar uma rede de produção no interior do estado.

É a partir dessa conexão entre indústria e extrativismo que uma cadeia produtiva começa a se formar fora da capital — em um cenário historicamente marcado pela concentração econômica em Manaus.

Concentração econômica

Impulsionada pelo Polo Industrial de Manaus (PIM), a capital amazonense consolidou-se como a sexta maior economia do País, com Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 127,6 bilhões, o equivalente a cerca de 79% de toda a riqueza gerada no Amazonas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A indústria, puxada pelo PIM, e os setores de comércio e serviços, fortemente dependentes desse dinamismo, concentram mais de 90% da economia local. O modelo Zona Franca de Manaus (ZFM) sustenta cerca de 600 indústrias e responde por mais de meio milhão de empregos, entre diretos e indiretos.

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Foto: Sandra Maia/Aspacs

Ainda assim, esse crescimento permanece altamente concentrado. Fora de Manaus, o restante do Amazonas segue em outro ritmo, mais lento, mais dependente e, em muitos casos, à margem desse avanço econômico.

O contraste expõe uma contradição histórica do próprio modelo ZFM, implementado na década de 1960 com o objetivo de integrar e desenvolver a região amazônica, e não apenas um município.

Essa concentração é apontada em estudos acadêmicos, como o artigo *Efeitos econômicos da Zona Franca de Manaus*, dos economistas Rogério Gonçalves e Philipp Ehrl, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

“Indubitavelmente, com a concentração da atividade econômica em Manaus, houve um aumento da densidade demográfica e da respectiva renda [em Manaus], deixando para os demais municípios certo vazio demográfico e baixa renda”.

Eles acrescentam que o cenário limita a capacidade de os municípios do interior aproveitarem suas vocações econômicas.

“Há uma forte concentração de atividades econômicas e de oferta de serviços em Manaus, em detrimento dos demais municípios do Amazonas, que padecem de uma estagnação econômica sem precedentes, ainda que sejam detentores de uma grande reserva de recursos naturais e de potenciais econômicos assentados nos seus espaços territoriais”, aponta o estudo.

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Foto: Sandra Maia/Aspacs

Um levantamento da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) reforça esse diagnóstico ao apontar que mais de 80% dos municípios amazonenses apresentam “gestão crítica na autonomia”, com grande dificuldade de se sustentar com receitas próprias.

Na prática, isso significa forte dependência de transferências da União e do Estado para manutenção de serviços básicos. Com exceção de Manaus, a maior parte dos municípios enfrenta limitações fiscais relevantes.

Essa limitação fiscal impacta diretamente o desenvolvimento social. Segundo o estudo, nenhum município amazonense alcançou nível alto de desenvolvimento, e mais da metade apresenta baixo desempenho em educação. A relação é direta: menor capacidade de arrecadação e investimento tende a resultar em piores indicadores de qualidade de vida.

Lábrea como retrato

Lábrea ilustra esse cenário. Com PIB de aproximadamente R$ 743 milhões e PIB per capita de R$ 16,3 mil, o município é sustentado principalmente pela agropecuária (39,1%) e pela administração pública (38,9%). Apesar da expansão do agronegócio, enfrenta desafios estruturais de desenvolvimento humano.

O extrativismo, sobretudo de borracha, castanha e açaí, e o comércio sazonal são essenciais para a economia local. Ainda assim, Lábrea lidera o desmatamento no Amazonas, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

O município apresenta também baixo Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM): 0,531. O indicador considera educação, renda e longevidade e enquadra Lábrea na faixa de desenvolvimento humano baixo. Vale destacar que o IDH é construído a partir do Censo Demográfico, que ainda não teve todos os dados publicados pelo IBGE.

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Em Lábrea, extrativismo e administração pública concentram a atividade econômica/Foto: Sandra Maia/Aspacs

É nesse contexto que a iniciativa da Tutiplast passou a apostar na implantação de pequenas unidades industriais no interior. Para o gerente de novos negócios da companhia, Fabio Calderaro, o setor termoplástico tem capacidade de induzir encadeamento produtivo para além da região metropolitana.

Desde 2022, para atender às metas de descarbonização de clientes na Agenda 2030, a Tutiplast apostou na fabricação de compósitos utilizando materiais de baixo carbono, ou seja, materiais que incorporam fonte renovável no processo e majoritariamente matéria-prima de origem regional, reduzindo o uso de insumos derivados de petróleo e as emissões associadas ao processo produtivo.

“A Tutiplast vive agora um processo de transição ecológica. Sabemos que os nossos clientes possuem metas de descarbonização na Agenda 2030 e no programa GHG (que mede, gerencia e relata emissões de gases de efeito estufa), e eles têm que melhorar seus relatórios. Então, a gente quer ser uma boa opção de fornecimento para os nossos clientes”, conta.

A iniciativa busca estruturar uma cadeia produtiva baseada em insumos da floresta, ao mesmo tempo em que gera renda adicional para comunidades rurais.

“Quando você gera emprego e renda para atividades sustentáveis no interior, você gera alto custo de oportunidade para atividades predatórias, aquelas de alto impacto ambiental. Então, o homem do interior não precisa ir para atividades como garimpo ou extração ilegal de madeira. E ele se fixa ali no território dele. Ele não precisa sair dali para procurar emprego em Manaus ou em outro lugar”, frisa.

A realidade do Rogério, citado no início da reportagem, refletiu em um aumento gradual da renda que já mudou a lógica de permanência no território. Rocha afirma que, antes, sair de Lábrea era visto quase como uma etapa inevitável para quem buscava estabilidade.

“Todo mundo conhece alguém que foi para Manaus ‘tentar a vida’. Eu mesmo já pensei nisso. Hoje, eu vou, mas só para reuniões de alinhamento e treinamento. Não é a realidade de todo mundo, mas hoje eu vejo que dá pra crescer aqui e viver com dignidade”.

Nova cadeia produtiva

O projeto mais recente envolve o aproveitamento do ouriço da castanha-da-Amazônia, um resíduo abundante, mas geralmente descartado na atividade extrativista, que pode ser usado em materiais destinados a segmentos como o automotivo, eletroeletrônico e de embalagens.

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Foto: Sandra Maia/Aspacs

A iniciativa é desenvolvida em parceria com a Associação dos Produtores Agroextrativistas da Colônia do Sardinha, sediada em Lábrea, que há 30 anos atua na organização de comunidades extrativistas do município por meio da melhoria dos processos de produção e na estruturação de pequenos produtores.

Ao todo, 11 comunidades no entorno de Lábrea, ao longo dos rios Purus e na Terra Indígena Acimã, participam da iniciativa, enviando o material para uma cooperativa local no município.

O processo inclui triagem para evitar contaminações, secagem, moagem e micronização do material, etapa que ajusta a granulometria e a umidade adequadas para o uso industrial. A empresa desenvolveu maquinário específico para apoiar essa etapa e monitora toda a operação.

Após o processamento inicial, o material é transportado de barco até Manaus, onde passa por extrusão para transformação em novos produtos.

O projeto também envolve iniciativas como melhoramento genético de mudas, padronização da qualidade da fibra, organização dos sistemas produtivos e desenvolvimento de soluções logísticas adaptadas à realidade amazônica.

Apesar de o custo ser cerca de 20% mais elevado em relação a insumos convencionais, a empresa aposta no valor ambiental e social agregado.

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Foto: Sandra Maia/Aspacs

Um dos principais efeitos, segundo Calderaro, é a indução do setor secundário no interior. “Antes, o extrativista não participava do processamento; hoje, ele dispõe de equipamentos e infraestrutura”, afirma.

Para ele, iniciativas desse tipo deveriam estar no centro da estratégia da Zona Franca. “Esse deveria ser o motivo inicial da Zona Franca, identificar quais setores do Polo Industrial podem ser alinhados às atividades desenvolvidas no interior e, a partir disso, orientar formuladores de políticas públicas e pesquisadores a estimular o desenvolvimento da cadeia produtiva “para trás”, para além da área de processamento”, pontua.

Renda e capacitação

Para a extrativista Sandra Oliveira, a mudança começou de forma quase silenciosa, mas concreta. Antes, a renda dependia de períodos específicos e desaparecia com a mesma rapidez.

Com o beneficiamento da castanha, passou a ter maior regularidade. Pela primeira vez, passou a ter uma renda constante, capaz de passar meses sem depender exclusivamente da safra.

“Era sempre assim: quando tinha, resolvia o que dava. Quando não tinha, a gente só esperava. Hoje eu sei que no outro mês vai entrar alguma coisa. Isso muda a rotina, porque a gente deixa de viver só apagando incêndio”, relata.

O impacto não foi apenas financeiro. Inserida em uma rotina com padrões de qualidade e organização produtiva, Sandra passou por treinamentos e adquiriu novas habilidades.

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Periodicamente, trabalhadores das comunidades são levados a Manaus para treinamento, onde têm contato com o processo industrial e adoção de boas práticas, contribuindo para o aumento da produtividade e organização local.

“No começo, eu achava que não ia dar conta. Era muita coisa diferente, muita regra. Mas com o tempo, vi que aquela insegurança deu lugar a uma autonomia maior”.

Ela passou a entender processos, identificar falhas, organizar tarefas e trabalhar em equipe de forma mais estruturada. “A gente começa a perceber que não é só fazer, é fazer bem feito. E isso vai dando confiança”.

A mudança se reflete fora do trabalho. “Hoje eu me sinto mais preparada. Se aparecer outra oportunidade, eu sei que consigo aprender também”, afirma.

A renda estável permitiu mudanças simbólicas no dia a dia, desde compras planejadas até decisões que antes eram adiadas indefinidamente. “Não é que ficou fácil, mas ficou possível”, diz.

Em Lábrea, permanecer no território deixa de ser falta de opção e passa a ser uma alternativa concreta para trabalhadores como Rogério Rocha.

 

>>>Confira o vídeo de apresentação do projeto