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Na Amazônia, a economia pesa mais do que ideologia

Estruturas locais de poder, território e questões econômicas pesam mais que a polarização nacional e devem orientar novamente o voto em 2026

A polarização que domina o debate político no Brasil não explica, sozinha, o comportamento eleitoral na Amazônia Legal. Na região, o voto não é homogêneo e segue outra lógica: é menos ideológico do que parece e mais condicionado a interesses econômicos e arranjos políticos locais, apontam analistas ouvidos pela PIM Amazônia.

A análise das últimas três eleições para presidente da República e governos estaduais revela um padrão de baixa variação política.

Para especialistas, o que pesa não é tanto o alinhamento político entre direita e esquerda, mas a capacidade de responder a demandas concretas, como aquelas que envolvem emprego, infraestrutura e presença do Estado.

O cientista político, sociólogo, filósofo e advogado Carlos Santiago afirma que as divisões ideológicas que marcam o debate nacional têm efeito limitado no Norte do País.

“Essas ideologias foram capturadas pela prática política dos caciques regionais, com o fortalecimento do patrimonialismo, que é o uso do Estado por famílias e grupos políticos para aumentar o poder e a riqueza”, diz Santiago.

Carlos Santiago Reproducao

Carlos Santiago, filósofo e advogado/Foto: Reprodução

 

Segundo ele, há convergência em pautas econômicas consideradas estratégicas para a região, como a Zona Franca de Manaus e a exploração mineral, independentemente do campo político. Governos de diferentes perfis ideológicos tendem a defender projetos semelhantes quando se trata de atrair investimentos, ampliar receitas e sustentar suas bases políticas.

“Não há divergência com relação à exploração dos minerais da região”, afirma Santiago.

Essa leitura é reforçada pela doutora em Direito Constitucional, advogada e professora da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Luziane Figueiredo, que aponta o peso das questões econômicas concretas na decisão do voto.

“Na prática, o voto na nossa região é fortemente condicionado por temas econômicos territoriais muito específicos. Então, Zona Franca de Manaus, mineração, infraestrutura, logística, tudo isso não é só uma pauta econômica, é uma pauta de sobrevivência. É emprego, é renda, circulação de mercadorias, é presença do Estado ou a falta da presença do Estado”, afirma.

De acordo com ela, a polarização funciona mais como elemento do discurso do que como fator determinante. “A polarização nacional entra muito mais como narrativa, como linguagem política. Ela organiza o discurso, cria uma identidade, consegue mobilizar emocionalmente as pessoas. Mas a decisão final do voto, sobretudo aqui na Amazônia, é muito mais pragmática e territorial do que a gente imagina”, explica.

 

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Luziane Figueiredo, doutora em Direito Constitucional, advogada e professora da Universidade do Estado do Amazonas (UEA)

Estabilidade não é fidelidade

O levantamento considera o resultado das urnas nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e Maranhão.

Nas duas últimas eleições, houve mudanças partidárias e rearranjos locais, mas o campo político permaneceu praticamente inalterado, com os governadores ajustando suas relações com o governo federal.

Para Luziane, essa estabilidade não deve ser interpretada necessariamente como fidelidade ideológica do eleitor. “Essa aparente estabilidade precisa ser analisada com muito cuidado. É fato que a gente tem uma estabilidade centrada mais no campo da direita, mas eu não penso que seja só por conta de convicção ideológica. Na verdade o que a gente observa é uma combinação de fatores”, avalia.

Ela explica que a população é muito impactada por questões como o avanço das facções e o medo que isso gera, bem como há uma forte adaptação a estruturas locais de poder.

Desta forma, a política na Amazônia Legal acaba sendo muito influenciada por lideranças regionais, redes econômicas, bancadas temáticas, entre outros fatores. “Isso cria uma lógica de voto mais personalizada”, diz.

Para o cientista político Paulo Racoski, no estado de Roraima, por exemplo, o eleitor “é muito mais volúvel e vulnerável frente às relações econômicas e pelo sistema de mídia, às vezes até pela carência material da população que está vulnerável às relações econômicas”.

Cenários

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Arte: Suellen Fonseca/PIM Amazônia

 

O voto na Amazônia Legal passou por uma mudança na última década. O cenário que variava entre o centro e a esquerda passou por uma virada forte para a direita com a onda do bolsonarismo, em 2018, que se manteve em 2022.

Nas eleições de 2014, havia maior equilíbrio entre os campos políticos. Estados como Acre e Maranhão estavam sob governos de esquerda, com Tião Viana (PT-AC) e Flávio Dino (PT-MA), respectivamente. Já Pará e Roraima se alinhavam à direita, com Simão Jatene (PSDB-PA) e Suely Campos (PP-RR). Nos demais, predominavam posições de centro.

O cenário mudou em 2018, com a eleição de Jair Bolsonaro à Presidência. A maior parte dos estados da região viu uma guinada à direita. Acre, Amazonas, Mato Grosso, Rondônia, Roraima e Tocantins migraram para esse campo, enquanto o Maranhão permaneceu à esquerda. O Amapá elegeu um governo também de esquerda, enquanto o Pará se posicionou no centro.

Em 2022, o mapa político regional manteve configuração semelhante. A direita continuou predominante em seis dos nove estados: Acre, Amazonas, Mato Grosso, Rondônia, Roraima e Tocantins.

Pará e Amapá ficaram no centro, enquanto o Maranhão seguiu como o principal reduto de esquerda.

Ao cruzar os dados das eleições presidenciais e estaduais, apenas dois estados mantiveram o perfil político nas três últimas eleições: Roraima, à direita, e Maranhão, à esquerda.

Em Roraima, os votos foram para Aécio Neves e Jair Bolsonaro (duas vezes). No Maranhão, a maioria dos votos foi para Dilma Rousseff, Fernando Haddad e Lula.

Para Carlos Santiago, a leitura estritamente ideológica é insuficiente para explicar o comportamento político da região. “Essas ideologias nacionais que dividem o Brasil entre direita e centro-esquerda, na região norte estão apenas no campo dos discursos”, afirma.

Na avaliação dele, o que prevalece são interesses econômicos e arranjos locais.

2026 será um teste

A principal incógnita é se esse padrão será mantido ou alterado.

A polarização que marcou as últimas eleições presidenciais tende a se repetir no debate deste ano, mas pode não ser determinante na região.

Nesse cenário, o pleito de 2026 deve funcionar como um teste de consistência do padrão político que se desenhou na última década.

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>>>Confira a entrevista com a Drª Luziane no Youtube da PIM Amazônia