Economia
Tarifaço Trump mostra oportunidades de exportação para a Amazônia
Dentre os produtos que podem ser impactados, os eletroeletrônicos e motocicletas ganham destaque
No início do mês de abril (dia 2), o presidente Donald Trump anunciou novas regras para os países que mantém exportação de produtos para os Estados Unidos, o que ficou conhecido como “Tarifaço Trump”. Dentre as medidas, a cobrança de taxas entre 10% e 50% sobre produtos importados, englobando mais de 180 países. Apesar do anúncio, oito dias depois o republicano voltou atrás e congelou essa medida por 90 dias, com exceção da China, um rival histórico do país, que passou a ser taxada em 135%.
Desde o período eleitoral, Trump já divulgava a implementação dessas novas taxas como uma forma estratégica de proteger a indústria dos Estados Unidos. Ele diversificou em dois tipos de taxação: recíprocas, aplicadas a países com os quais os EUA consideram que existem práticas comerciais desleais ou desequilíbrio comercial severo (no caso da China), e, as básicas, aplicadas de forma mais generalizada, com base em motivos de segurança nacional ou para proteger setores industriais estratégicos, como o aço e o alumínio (onde o Brasil se enquadra).
O tarifaço foi criado como uma medida protecionista, para corrigir déficits comerciais e isolar a economia norte-americana. Em seu discurso, o presidente afirmou que essas tarifas promovem mais empregos para os estadunidenses e maior produtividade local. Essas recentes tarifas acenderam um sinal de alerta para o Polo Industrial de Manaus (PIM) e para a Zona Franca de Manaus (ZFM). Ainda em fase de negociação e sem definição conclusiva, as taxas foram adotadas como uma estratégia de pressionar acordos comerciais, principalmente com países asiáticos.

A Economia Amazônica
Brasil permanece com a taxa básica de 10% sobre as importações, sendo um dos países com a menor taxação. No contexto Amazônico, onde está localizada a Zona Franca de Manaus, dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) demonstram que os EUA foram o terceiro país consumidor das exportações do Amazonas, no ano de 2024, com destaque para os produtos automobilísticos, em especial veículos de duas rodas. A ZFM está sujeita a ser impactada, não exatamente de forma negativa.
“Na economia amazonense, está o Polo Industrial de Manaus (PIM), que faturou R$204,4 bilhões em 2024. Apenas 1,6% desse valor correspondeu a exportações, relevando uma estrutura produtiva voltada para majoritariamente ao mercado interno. O setor de duas rodas, um dos mais tradicionais da ZFM, representa 23% das exportações locais e é justamente o mais integrado ao mercado norte-americano”, explica o economista Roderick Castello Branco. O Amazonas exportou cerca de US$ 1 bilhão no ano passado, sendo que apenas US$ 104 milhões foram para os Estados Unidos.
Os principais produtos enviados foram motocicletas (26%) e óleos de petróleo ou minerais betuminosos (24%). Apesar da perda da competitividade frente aos produtos fabricados em território americano, há um ganho relativo em relação a países como a China, Japão e Vietnã – que agora enfrentam tarifas mais pesadas. Mesmo assim, o impacto é restrito. Das quase 1,84 milhões de motocicletas produzidas no ano passado, apenas 44 mil unidades foram exportadas – pouco mais de 2% da produção total. “O impacto direto no Polo tende a ser limitado. Mas há reflexos indiretos: estamos inseridos em cadeias globais de valor, e distorções no comércio internacional afetam custos, insumos e planejamentos de empresas”, avalia Roderick.
Novas Portas se abrem para a ZFM
Apesar de instabilidade gerada pelas novas tarifas norte-americanas, representantes dos setores industriais e de desenvolvimento do Amazonas veem possibilidades de crescimento e modelagem produtiva na região.

De acordo com a Sedecti (Secretaria de Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação do Amazonas), a taxação elevada sobre os setores eletroeletrônicos, automotivo, metalúrgico e têxtil, aliada à permanência das alíquotas reduzidas para produtos brasileiros, pode favorecer o fortalecimento da base industrial amazonense, impulsionando as exportações regionais para os Estados Unidos. A Zona Franca de Manaus entra como um caminho para empresas globais que desejam fugir do Tarifaço, pois seus atributos de competitividade, incentivos fiscais e capacidade de produção são fatores definitivos para escapar desse tarifaço.
Para abraçar novos países negociantes, a Sedecti ratifica a importância de ações estratégicas para combater problemas e aumentar a competitividade nacional. Entre as recomendações, encontram-se: investimento nas infraestruturas de logística; capacitação de melhor mão-de-obra, auxiliando trabalhadores para atender demandas de exportação e promover, sempre, a ZFM e o Brasil como alternativas viáveis para empresas internacionais exportadoras. Empresas asiáticas já consultaram a Sedecti, Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus) e Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia) para entenderam a dinâmica dos incentivos fiscais, a fim de utilizar a ZFM como uma ferramenta de venda para os Estados Unidos.
Para o presidente executivo da Eletros (Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos), Jorge Nascimento, a nova taxa de importação pode ser positiva para o Brasil. “O tarifaço acaba favorecendo a política industrial do país, desde que nós tenhamos condições, de fato, a partir do Brasil e da Zona Franca, de atender o mercado americano”. Ele explica que, para melhor participação desse mercado internacional na Zona Franca de Manaus, existem algumas regras a serem modificadas e atualizadas para que acelere o processo de entrada de insumos no país, já que aumentariam as relações de negociações e a ascensão da ZFM. Existem vários pontos estratégicos para a região norte entrar como um caminho de investimento para novas empresas.
A ZFM possui anos de experiencia no processo industrial, mão-de-obra qualificada e a Amazônia está bem-posicionada geograficamente, já que o país norte-americano é perto do norte brasileiro. “Porto Seguro do investidor”, Jorge afirma que o Norte acaba alcançando o olhar do mercado estadunidense devido às questões estratégicas de território e resultados das melhorias contínuas da ZFM. A Amazônia possui recursos naturais que são um diferencial na hora da escolha. E é uma grande oportunidade, também, o Brasil ser fornecedor de produtos, caso essa guerra comercial não cesse.
As empresas estão monitorando a situação para tomar decisões estratégicas. Há muito a ser analisado ainda, pois essas tarifas estão em fase de adaptação, já que Trump ainda não concretizou, de fato, essas tarifas. Para o Cieam (Centro da Industria do Estado do Amazonas), o atual cenário representa um ponto de virada. Além de pensar em soluções emergenciais, o polo industrial deve reavaliar seu modelo produtivo. “É uma janela estratégica para fortalecer a resiliência da indústria local, pensar em inovação, sustentabilidade e remodelagem de toda cadeia produtiva”, concluiu o presidente executivo, Lúcio Flávio.
Possíveis desafios a serem enfrenados
Preocupações entram em cena. O presidente da Eletros pontua que, com esse isolamento agressivo da indústria estadunidense, consequentemente aumenta o potencial das fábricas norte-americanas. Além disso, o valor da moeda cresce de maneira esporádica dificultando os custos de produção e a necessidade de constante aprimoração da infraestrutura e logística das empresas para receberem os investidores.
Um desafio é a forte dependência de insumos estrangeiros. Com a elevação do dólar, o custo desses materiais sobe, pressionando a cadeia produtiva. “A indústria local importa para transformar. Qualquer distorção no fluxo global de insumos impacta significamente nos custos, prazos e competitividade”, afirma Lúcio Flávio. Segundo ele, algumas empresas já avaliam a revisão de contratos e buscam alternativas logísticas para driblar possíveis gargalos. “Mas substituir fornecedores globais não é algo que se faz do dia para noite. É um processo complexo e lento”, completou.
O atual cenário internacional também gera um ambiente de incerteza prejudicial à tomada de decisões. O temor é que, diante da instabilidade, empresas adiem investimentos, segurem contratações e evitem apostar em novos mercados. “Ambientes voláteis dificultam o planejamento de longo prazo e aumentam o risco das operações”, diz o economista Roderick Castello Branco.
Resiliência e adaptações
Apesar dos desafios, a indústria amazonense tem histórico de adaptações e contextos adversos – como mostrou durante crises econômicas e as recentes estiagens severas. O momento exige articulação com o Governo Federal, investimento em inovação e reestruturação da matriz produtiva local.
“O tarifaço impõe desafios, mas também, força uma reflexão estratégica. É hora de fortalecer a resiliência, buscar sustentabilidade e explorar novos mercados com inteligência” – finaliza Lúcio Flávio.
Enquanto o cenário internacional continua em movimento, o Amazonas precisa equilibrar ousadia e cautela para transformar instabilidade em estratégia, e reafirmar seu papel como polo dinâmico na economia brasileira.
predomina em nossa sociedade e que limita o avanço de mudanças mais profundas para o sexo feminino”, comenta a jornalista, escritora e empreendedora Cristina Monte.
Segundo a especialista em empreendedorismo, superar essa desigualdade de base é essencial para que o empreendedorismo feminino ganhe força na Amazônia Legal. Cristina Monte aponta como caminho, para garantir que as mulheres tenham acesso equitativo a oportunidades, uma mudança estrutural, que envolva não apenas políticas públicas, mas também transformações culturais e sociais.
Nesse contexto, o estímulo ao empreendedorismo feminino pode ser um vetor estratégico. Para isso, é fundamental facilitar o acesso a linhas de crédito e programas de financiamento específicos para mulheres empreendedoras; expandir a oferta de creches e escolas públicas de qualidade, o que libera tempo para que as mães possam se dedicar aos seus negócios; valorizar as competências femininas em programas de capacitação e liderança, reconhecendo o olhar mais holístico e sensível que muitas mulheres trazem à gestão e à tomada de decisão; estimular redes de apoio e mentorias voltadas ao fortalecimento de negócios liderados por mulheres.
Cristina Monte avalia que quando a sociedade reconhece a potência do empreendedorismo feminino e cria condições reais para que ele floresça, todos ganham: a mulher, sua família, sua comunidade e a economia regional.
