Mineração
Minerais da Amazônia entram no radar global por recursos estratégicos
A corrida global por minerais estratégicos coloca a região no centro da transição energética e expõe desafios de governança, licenciamento e desenvolvimento regional
A corrida internacional pelos minerais estratégicos transformou o Norte do Brasil em um dos territórios mais observados pelo mercado global. Em um contexto de transição energética, reindustrialização e reorganização das cadeias produtivas, a Amazônia entra em cena como protagonista, com seus riscos e potenciais benefícios.
O protagonismo da região decorre tanto da presença de Elementos Terras Raras (ETRs), utilizados na produção de ímãs permanentes e componentes tecnológicos, quanto da abundância de minerais como ferro, estanho e potássio – todos considerados críticos para setores como energia, agricultura e indústria de transformação.
Ao mesmo tempo em que as pesquisas mostram um amplo potencial na região, especialistas do setor discutem como traçar um planejamento com foco no respeito à terra, no licenciamento ambiental e na governança participativa, a fim de que os bens sejam aproveitados de modo sustentável e tragam retorno econômico aos povos que habitam a região.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), organização que representa as principais empresas do setor brasileiro, a Amazônia Legal abriga aproximadamente um terço das reservas de minerais críticos do Brasil.

Toda essa riqueza ganha relevância em um momento em que países e blocos econômicos buscam reduzir a dependência de fornecedores concentrados, especialmente da China, que domina a produção e o processamento de terras raras. Aqui, o Brasil surge como alternativa potencial, ainda que com desafios estruturais a serem superados.
Potencial mapeado
O Serviço Geológico do Brasil (SGB) mapeou, em plano decenal, o potencial dos minerais críticos e estratégicos do País para os próximos dez anos.

Entre os destaques está o projeto Ema, da empresa BBX do Brasil (subsidiária da australiana BCM), no município de Apuí (AM), com recurso estimado em 943 milhões de toneladas em terras raras – o segundo maior do Brasil.
“Fora destas áreas, há pesquisas no Estado de Rondônia, na região de Costa Marques e – em fase inicial – no Pará e no Tocantins. O potencial da região da Amazônia Legal (referente às terras raras) ainda requer aprofundamento técnico e avaliação detalhada, respeitando a legislação e os compromissos socioambientais”, informa o órgão.
Os investimentos já anunciados pela BBX do Brasil para a exploração de terras raras são de aproximadamente R$ 200 milhões, com início das operações previsto para 2027. O projeto, no entanto, ainda depende de etapas críticas, como licenciamento ambiental e regularização fundiária.
Segundo o gerente de recursos minerais do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), José Rabelo, a instalação da empresa ainda depende da autorização da Agência Nacional de Mineração (ANM).
“Há demora na comunicação com os órgãos federais para a regularização fundiária. O processo para obtenção de resposta da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), por exemplo, é moroso”, comenta Rabelo.
A corrida para operar na região
Os chamados Elementos Terras Raras formam um grupo de 17 elementos químicos com ampla aplicação em tecnologias de ponta, como motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, sistemas de defesa, equipamentos eletrônicos e outros materiais tecnológicos.
Já os minerais críticos são aqueles considerados estratégicos para o desenvolvimento econômico e industrial, com risco de interrupção no fornecimento global. A lista brasileira inclui insumos essenciais para a transição energética e para a segurança alimentar, como cobre, potássio e nióbio.
A classificação completa dos minerais estratégicos para o Brasil está descrita na Resolução 18 de junho de 2021, do Ministério de Minas e Energia (MME).
As pesquisas mais recentes do Serviço Geológico do Brasil destacam, entre os recursos existentes na região Norte, minerais como: ouro, ferro, níquel, alumínio e cobre (Pará); nióbio, potássio, estanho (Amazonas); e tântalo (Amazonas e Rondônia).
A relevância desse potencial traduz-se no interesse de empresas de grande, médio e pequeno porte, bem como de pessoas físicas.
O interesse crescente se reflete na movimentação regulatória. Levantamento da Agência Nacional de Mineração (ANM) obtido pela reportagem indica que, em 2025, o órgão regulatório recebeu 736 requerimentos de autorização de pesquisa nos sete Estados da região Norte, totalizando a área de 2,4 milhões de hectares.
Nesse período, a ANM outorgou 14 concessões de lavra, modalidade de exploração praticada pelas maiores empresas do setor, em escala industrial. Atualmente, aproximadamente 15 empresas dessa categoria possuem autorização para operar na região.
Perspectiva para o Amazonas
No Amazonas, o setor mineral apresenta sinais de expansão, com destaque para a exploração de cassiterita (minério de estanho), tântalo e nióbio em Presidente Figueiredo e para o projeto de potássio em Autazes.
A Mineração Taboca, uma das líderes do mercado de estanho no País e produtora de ligas metálicas de nióbio e tântalo, anunciou investimentos de US$ 100 milhões até 2028 voltados à pesquisa mineral, modernização de plantas e ampliação da capacidade produtiva.

Foto: Divulgação/Mineração Taboca
A empresa opera a Mina de Pitinga, onde mantém cerca de 3 mil empregos diretos. Em nota à revista PIM Amazônia, informou que o novo ciclo de aportes está alinhado ao objetivo de ampliar a competitividade da operação em Presidente Figueiredo. A empresa confirmou, ainda, a existência de terras raras na região em que atua.
“A ocorrência de terras raras na mina de Pitinga apresenta um potencial para o desenvolvimento tecnológico e econômico da região. Nossa estratégia vai além da extração; transformamos o potencial geológico brasileiro em vantagem tecnológica ao integrar Institutos de Ciência e Tecnologia locais que desenvolvem processos industriais, desde o tratamento do mineral até novas aplicações para esses metais”, comunica a empresa, que em 2024 foi adquirida pela chinesa CNMC.
No Amazonas desde 1969, a Mineração Taboca representa historicamente a maior produção mineral do Estado, segundo avaliação do titular da Secretaria de Estado de Energia, Mineração e Gás (Semig), Ronney Peixoto. Segundo ele, a atividade mineral também tem impacto crescente na arrecadação pública.
Todos os anos, o setor de mineração gera para os cofres públicos a Compensação Financeira de Recursos Minerais (CFEM), que nos últimos cinco anos evoluiu de R$ 10,2 milhões (2020) para R$ 24,7 milhões (2025). Desse total, 60% são destinados aos municípios produtores, 15% ao Estado, 10% à União e 15% para os órgãos de regulação e fiscalização.
“Isso significa que a maior parte desses recursos permanece nos municípios onde ocorre a atividade mineral, contribuindo diretamente para o desenvolvimento local, investimento público e dinamização da economia do interior do Amazonas”, explicou Peixoto.
Brasil como candidato a player global
Para especialistas, o Brasil reúne condições para assumir papel mais relevante no mercado internacional de minerais críticos.
O professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e pós-doutor em Geoconservação, Humberto Cavalcante Lima, afirma que as terras raras são o “coqueluche” da indústria de alta tecnologia e da transição energética.
Ao avaliar o potencial nacional, ele afirma que o Brasil tem a obrigação de se tornar um player global nesse mercado, já que abriga o 2º maior depósito de terras raras do mundo, atrás apenas da China, que concentra mais de 80% dos recursos. Ele ressalta, no entanto, que projetos ainda enfrentam incertezas técnicas e ambientais.
“Projetos como o Ema, que utiliza a tecnologia de extração por adsorção iônica (ISR), mostram o caminho possível de se explorar com tecnologia de ponta e menor impacto superficial, mas ainda está no campo da experimentação quando se fala em explorar no Amazonas. É um processo mais compatível com áreas de floresta, mas precisamos de melhores estudos. De onde virá a água para alimentar o processo de lixiviação, recurso hídrico tão importante nesse modelo de explotação?”, questiona.

Professor Humberto Lima/Foto: Arquivo Pessoal
A técnica mencionada (ISR) funciona por meio da irrigação da terra com soluções lixiviantes (água com magnésio, por exemplo), que são bombeadas para o depósito mineral. O fluido se espalha pelas rochas, dissolvendo os minérios desejados, e a substância enriquecida é bombeada para a superfície para o processamento.
Projeto da silvinita mostra amadurecimento
Entre os projetos mais avançados está o de exploração de silvinita em Autazes, voltado à produção de potássio, insumo essencial para fertilizantes. A silvinita é a rocha da qual se extrai o cloreto de potássio utilizado na produção de fertilizantes.
Ao avaliar o potencial para a próxima década, o professor da Ufam cita que o projeto Autazes, da empresa Potássio do Brasil, reduziria o custo da produção agrícola brasileira e a vulnerabilidade geopolítica.
“O grande diferencial para a próxima década é que esses projetos, especialmente os de potássio e terras raras, estão desenhados com um olhar para a sustentabilidade e o desenvolvimento regional, com métodos que buscam minimizar impactos e com a geração de benefícios duradouros. Será que teremos suficientemente fiscalização ambiental e jurídica para acompanhar os processos minerários que virão?”, reflete o geólogo.
Exploração sustentável
A transformação dos bens minerais em valor agregado para a região e seus habitantes, de modo sustentável, é tarefa complexa mas inegociável, exigindo novos padrões de governança.
Para o Ibram, o Brasil tem a oportunidade de propor um pacto sobre a rastreabilidade dos minerais críticos e estratégicos da Amazônia, garantindo que os insumos extraídos cumpram critérios rígidos de responsabilidade socioambiental. Além disso, o setor demanda melhorias logísticas e maior celeridade no licenciamento ambiental, que pode ultrapassar cinco anos, de acordo com a gerente de Pesquisa e Desenvolvimento do instituto, Cinthia Rodrigues.
“Deve-se considerar especialmente o envolvimento das populações tradicionais. As boas práticas em ESG (Meio Ambiente, Sociedade e Governança) têm tudo para levar investimento social relevante a essas populações da região amazônica, desde que cumpridas todas as etapas de licenciamento ambiental e instalação de projetos sustentáveis”, enfatiza Cinthia.
Impactos ambientais já são observados
Estudos indicam que a mineração já provoca efeitos relevantes na região, como desmatamento, fragmentação de habitats e contaminação de recursos hídricos.
O doutorando Marcello Ádamis, do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Sanitária e Ambiental da Universidade Federal do Pará (UFPA), avalia os prejuízos ambientais promovidos pela mineração no Estado do Pará.
Segundo ele, já é possível observar os efeitos sobre a biodiversidade, como o desmatamento, a fragmentação dos habitats, a mudanças nos solos e a contaminação da água por metais pesados, que afeta toda a população ao redor.
Marcelo afirma, ainda, que a coexistência da mineração com a floresta e com os povos da Amazônia depende de soluções mais seguras na gestão de rejeitos, governança territorial, planejamento voltado à recuperação ambiental e alternativas como a bioeconomia.
“Colocaria três prioridades muito claras: proteger os recursos hídricos, preservar a biodiversidade e garantir que as populações tradicionais sejam respeitadas e participem das decisões”, conclui.
Geoparques nas áreas mineradas

Jazida de ouro explorada pela mineradora Mina Tucano/Foto: Mina Tucano
Uma das propostas em debate é a criação de geoparques em áreas mineradas, com foco em conservação e turismo sustentável.
É o que aponta o professor Humberto Lima, da Ufam, para quem um projeto como este pode transformar a mineração como aliada da geoconservação. O conceito tem a chancela da Unesco e consiste em um território que promove a proteção do patrimônio geológico aliado ao desenvolvimento sustentável das comunidades, através do turismo científico, da educação e da valorização da cultura local.
“Portanto, o caminho para fortalecer a mineração sustentável no Amazonas é tratar o território com respeito, ou seja, respeitar seus limites legais (fundiários), suas regras de uso (licenciamento), seu valor intrínseco (geoconservação) e, acima de tudo, respeitar as pessoas que nele vivem (participação social). É um caminho mais complexo e demorado, mas é o único que transforma um recurso finito em um legado permanente para a região”, pondera Lima.
