Revista PIM Amazônia
O preço da integração
Roraima entra de vez na lógica tarifária nacional — e sente o impacto
Torres de transmissão de energia elétrica atravessam uma extensa área de floresta na região da Amazônia |
Roraima começa a sentir, de forma concreta, os efeitos da integração ao Sistema Interligado Nacional (SIN). Desde 25 de janeiro, a conta de energia elétrica está, em média, 24,13% mais cara, após reajuste autorizado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
O aumento atinge os 218 mil consumidores atendidos pela concessionária Roraima Energia e marca uma nova etapa para o estado: o fim do modelo isolado, sustentado por subsídios federais, e a entrada definitiva na lógica tarifária nacional.
O percentual varia conforme o perfil do consumidor. Para clientes de alta tensão (Grupo A), o reajuste chega a 28,93%. Já para residências e pequenos comércios (Grupo B), a alta média é de 22,90%. Os novos valores permanecem até o próximo ciclo tarifário anual e ainda podem variar conforme o sistema de bandeiras tarifárias.
O reajuste superou com folga a inflação oficial do período e provocou reação imediata da bancada federal.
Fim da Conta de Consumo de Combustíveis
A principal mudança não está apenas no percentual aplicado, mas no modelo de financiamento da energia no estado.
Até então, Roraima operava majoritariamente com geração termelétrica movida a diesel, um sistema caro e dependente de subsídios. Para evitar que o custo fosse integralmente repassado à população, o governo federal cobria a diferença por meio da Conta de Consumo de Combustíveis (CCC), encargo rateado entre consumidores de todo o País.
Com a consolidação da integração ao SIN, o subsídio foi encerrado em 1º de janeiro. A partir daí, os custos de transmissão e geração passaram a compor integralmente a tarifa local.
“Mas o reajuste e o fim dos subsídios estão associados justamente ao fato de estarmos interligados. Esse reajuste remunera os serviços de transmissão e as geradoras que fazem parte do sistema. Para a população de baixa renda, isso pode significar um choque no orçamento”, afirma a economista e professora da Universidade Federal de Roraima, Ingrid Caldas.
Segundo ela, a integração trouxe ganhos estruturais, mas a transição exige adaptação.

“A principal vantagem da integração ao Sistema Interligado Nacional é a segurança no fornecimento. Antes, qualquer falha em uma usina ou falta de combustível podia provocar apagões em grande parte do estado. Agora há maior previsibilidade para o comércio, para a indústria e para quem quer investir”, acrescenta.
Impacto no consumo e na economia local
O aumento ocorre em um estado de renda média inferior à nacional e clima quente, que exige uso constante de equipamentos de refrigeração.
“Por causa do calor e da renda mais baixa, as famílias não conseguem reduzir muito o consumo. Mesmo com a conta mais cara, continuam pagando. Mas cortam gastos com alimentação, transporte e outras necessidades básicas”, diz Ingrid Caldas.
O impacto também atinge o setor produtivo. Em julho de 2025, durante período de instabilidade no fornecimento, relatos colhidos pela revista PIM Amazônia já apontavam prejuízos.
“Muitas vezes passamos duas ou três horas sem energia. Na comunidade indígena Darôra, já ficamos até três dias no escuro. Quando falta luz à noite, é impossível dar aula”, relatou o professor Jecksivan Bento.
“Tanto o microempreendedor quanto o próprio empresário sofrem bastante. A primeira coisa que acontece é a queda da internet. Hoje, o mercado gira em torno de pix e cartão. A falta de energia afeta muito essa parte”, afirmou o empreendedor Marcus Almeida.
Debate político e compensações
A bancada federal reagiu ao reajuste. O senador Mecias de Jesus (Republicanos-RR) apresentou o Projeto de Lei nº 170/2026, que prevê regime especial de compensação tarifária para Roraima pelos dez anos seguintes à integração.
“Muitas famílias já pagam contas altas. Agora, com este reajuste, pagar luz, água e comprar comida torna-se uma escolha impossível para quem ganha um salário mínimo”, afirmou o senador à Agência Senado.
O senador Dr. Hiran (Progressistas-RR) solicitou que o diretor-geral da Aneel preste esclarecimentos no Senado.
“O reajuste anunciado penaliza famílias de baixa renda e impõe novos obstáculos ao desenvolvimento econômico e social do nosso estado”, declarou.
Dependência ainda parcial

Arte: Suellen Fonseca/ PIM Amazônia
Apesar da integração, o estado ainda mantém parcela significativa da geração em usinas térmicas.
Segundo a Roraima Energia, o modelo adotado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) prevê que cerca de 55% da carga seja atendida pelo SIN e 45% permaneça sob geração térmica local, como medida de segurança.
Isso significa que Roraima já está conectado, mas ainda não totalmente dependente do sistema nacional.
Tarifas ainda abaixo da média?
Para o engenheiro elétrico Frederick Lins, mesmo após o reajuste, o estado deve continuar com tarifa média abaixo da nacional.
“Antes do reajuste, estávamos na faixa de 61 a 64 centavos por kWh, enquanto a média do país era de cerca de 78 centavos. Devemos permanecer abaixo da média nacional”, afirma.
Ele ressalta que os encargos que compõem a tarifa são definidos por lei federal, e não pela Aneel.
Um novo ambiente energético
A entrada definitiva de Roraima na lógica tarifária nacional representa uma mudança estrutural. O estado deixa de operar sob um regime excepcional, sustentado por subsídios, e passa a seguir as mesmas regras aplicadas aos demais entes federativos.
Para a economia local, o novo cenário combina maior segurança no fornecimento com custos mais transparentes — e mais expostos às oscilações do setor elétrico brasileiro.
O desafio agora é equilibrar previsibilidade para investidores com capacidade de pagamento das famílias, em um estado que busca consolidar novos ciclos de crescimento.
