Indústria
Zona Franca deve assumir protagonismo na indústria de defesa
Com a chegada do IME à Amazônia, indústria de defesa deve ganhar base tecnológica para se estruturar em Manaus
A implantação em Manaus do Instituto de Pesquisas do Exército na Amazônia (Ipeam), extensão do Instituto Militar de Engenharia (IME), tem potencial para ser um grande marco para a Zona Franca. O movimento sinaliza que a indústria de defesa, até então periférica no Amazonas, passa a ganhar estrutura acadêmica, base tecnológica e articulação institucional onde a economia é ancorada no Polo Industrial de Manaus (PIM) e, em menor escala, em outros segmentos.
Em janeiro, o Exército Brasileiro e o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) firmaram acordo para viabilizar o instituto. A iniciativa prevê oferta de graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado em áreas estratégicas como Inteligência Artificial, Tecnologias Quânticas, Transição Energética e Biotecnologia.
Para o comandante Militar da Amazônia, general Luiz Gonzaga Viana Filho, a formação local tende a beneficiar diretamente o ambiente produtivo regional. “O Exército pode absorver essa mão de obra, mas quem mais vai se beneficiar dela é a própria indústria local, a própria academia, as universidades do estado”, afirmou em entrevista exclusiva à PIM Amazônia.

General Viana Filho, Comandante do CMA
O próprio Exército considera a pauta como uma das mais relevantes dos últimos anos para a Amazônia. Não à toa o andamento está em ritmo acelerado, com as mobílias e equipamentos já adquiridos e em processo de recebimento e implantação. Até a construção de prédio próprio, a unidade de ensino já começará nas dependências do Censipam.
“Estamos em fase de implantação. A partir de julho, no segundo semestre, teremos as primeiras turmas. O primeiro semestre será dedicado à instalação de equipamentos, como computadores e mobiliário. No segundo semestre, sob coordenação do IME, iniciarão as seleções para cursos de pós-graduação, mestrado e doutorado”, afirmou o general.
Mais do que um novo campus, o projeto aponta para a consolidação de um ecossistema de defesa na Amazônia, integrando indústria, forças armadas e centros de pesquisa. A primeira turma está estimada entre 20 e 40 alunos, dependendo da demanda, com professores do Instituto Militar de Engenharia.
Uma fala importante neste contexto é a do comandante do IME, General Galdino. “O IME está de corpo e alma envolvido nesse projeto. É o IME em Manaus, com programas de mestrado, doutorado e pesquisas em temas estratégicos para o Exército e para a defesa”.
O ministro da Defesa, José Múcio, destacou a dimensão regional da iniciativa. “Nós estamos levando oportunidades para regiões do país onde existem poucas oportunidades. Uma obra dessa serve para que aqueles que têm raízes lá finquem suas raízes, estudem lá e possamos corrigir as diferenças que separam os brasileiros”.

Já o diretor-geral do Censipam, General Richard Fernandez Nunes, destaca a integração prática da parceria. “Temos um instituto reconhecido mundialmente na formação científica e tecnológica e um órgão responsável pela proteção da Amazônia. No final, quem sai ganhando é a Amazônia e o Brasil”.
Da formação à Base Industrial de Defesa na Zona Franca
A presença do IME na Amazônia dialoga diretamente com o avanço da Base Industrial de Defesa (BID), estrutura criada para fortalecer a soberania tecnológica nacional.
Historicamente associado à produção de eletroeletrônicos, motocicletas e bens de informática, o Polo Industrial de Manaus começa a abrir uma nova frente estratégica: a indústria de defesa.
No Amazonas, o setor não é massivo como no eixo Sudeste-Sul, mas tem ganhado relevância pela combinação entre incentivos fiscais da Zona Franca, interesse federal em descentralizar polos estratégicos e crescimento do credenciamento como Empresa Estratégica de Defesa (EED).
O credenciamento é pré-requisito para participação em compras militares. Diferentemente das licitações comuns, em que prevalece o critério de menor preço, o segmento de defesa opera sob regras específicas, voltadas à segurança e confiabilidade nacional. Apenas indústrias nacionais podem integrar a BID.
Além das empresas, o ecossistema inclui Institutos de Ciência e Tecnologia (ICTs), universidades, startups, forças armadas e instituições financeiras públicas.
Empresas que abriram caminho na Zona Franca
No Amazonas, o processo de credenciamento começou em 2017 com a Trópico Sistemas e Telecomunicações, startup nascida em Campinas com unidade em Manaus voltada à fabricação de equipamentos para telecomunicações. Em 2019, a Bicho de Seda Confecções (BDS), instalada no PIM desde 1988, tornou-se a primeira empresa brasileira do setor têxtil a obter reconhecimento como Estratégica de Defesa e autorização de Termo de Licitação Especial (TLE).
A empresa apresentou como Produto Estratégico de Defesa o Conjunto Camuflado desenvolvido para o Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha, com proteção anti-infravermelho, ação antimicrobiana, bloqueio solar, repelência a vetores e nanotecnologia aplicada.

Para o CEO da BDS, Luiz Augusto Rocha, o credenciamento corrigiu uma distorção. Antes, empresas nacionais competiam em desvantagem frente a importadores. “Se eu não permitir que empresas nacionais façam pelo mesmo uniforme do Exército, eu nunca vou ter empresas com expertise de empresas de fora. Então eu preciso fazer reserva de mercado”, afirmou ao Portal Cieam.
Em setembro de 2024, o tema ganhou institucionalidade com a criação do Conselho de Indústria da Defesa da Amazônia (Condefesa), articulado pelo Exército, Fieam e Cieam.
“A tecnologia se mostra mais presente, haja vista a concentração de grandes institutos tecnológicos junto ao Polo”, ressalta o presidente da Fieam, Antonio Silva.
Tecnologia dual e sofisticação produtiva
O que diferencia o segmento de defesa no PIM não é volume, mas densidade tecnológica. São produtos de menor escala e maior complexidade, frequentemente com uso dual — militar e civil.
Um exemplo é o Dispositivo Vestível Biossensoriado Geolocalizável (DVB-GEO), desenvolvido pela Fama Tech. O equipamento reúne sensores fisiológicos e sistemas de geolocalização para monitoramento em tempo real.

Imagem ilustrativa | Divulgação
“O produto tem versão militar e versão civil. Quase todas as empresas convidadas a integrar a BID pensam seus projetos com essa dualidade”, explica o CEO Alexandro da Silva.
Entre outras soluções estão o SINGEAR (rastreamento de armamento), o STI (simulador tático imersivo) e o REACT (realidade aumentada para coordenação tática).
Fora do ambiente militar, tecnologias semelhantes já são usadas em mineração, esporte de alto rendimento e missões de resgate.
Desafios de escala e soberania
O segmento de defesa enfrenta um desafio estrutural no Amazonas: escala produtiva. Enquanto as indústrias de Manaus operam tradicionalmente com milhões de unidades, a indústria de defesa trabalha com lotes menores e alta customização.

Alexandro da Silva, CEO da Fama Tech
Além disso, há a limitação de empresas estrangeiras instaladas na Zona Franca. Companhias multinacionais não podem ser classificadas como Empresas Estratégicas de Defesa no Brasil. “A gente pode ficar sem GPS se o detentor apertar um botão. A BID é importante porque reduz essa dependência”, afirma Alexandro da Silva.
Ao mesmo tempo, a indústria de defesa tende a demandar mão de obra mais qualificada, com maior presença de engenheiros e especialistas.
Radar industrial e futuro
A estatal Indústria de Material Bélico (Imbel) estuda instalar unidade em Manaus e prospecta fornecedores de placas eletrônicas. A decisão depende da viabilidade produtiva e da capacidade de integrar fornecedores locais.
Outras iniciativas incluem soluções energéticas para pelotões de fronteira, como sistemas fotovoltaicos e bancos de baterias desenvolvidos pela UCB Power, também credenciada como Empresa Estratégica de Defesa.
Hoje, o Amazonas não abriga grandes montadoras de sistemas bélicos pesados. Mas começa a estruturar nichos de alto valor tecnológico, conectados a comunicações críticas, sensores, têxteis técnicos, energia estratégica e soluções digitais.
A chegada do IME à Amazônia pode ser o elo que faltava para integrar formação, pesquisa e indústria sob uma mesma estratégia regional. Se consolidado, o movimento transforma o Polo Industrial de Manaus não apenas em plataforma de produção incentivada, mas em ambiente de desenvolvimento tecnológico voltado à soberania nacional.
