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A ilusão verde da Inteligência Artificial

Ciência, tecnologia e as consequências do nosso tempo

Foto: Divulgação

Vivemos um momento em que a Inteligência Artificial (IA) se consolidou como símbolo de progresso. Ela representa eficiência, automação e vantagem competitiva. Tornou-se quase sinônimo de modernidade. No entanto, por trás do entusiasmo que domina eventos e relatórios corporativos, há uma questão incômoda que raramente ganha espaço. A expansão acelerada da IA também cria uma nova pressão ambiental, com impactos energéticos, hídricos e climáticos relevantes.

Estudos recentes indicam que sistemas baseados em grandes infraestruturas de processamento produziram, em 2025, cerca de 80 milhões de toneladas de CO₂. Trata-se de um volume comparável às emissões anuais de grandes metrópoles. O consumo de água também é significativo. Bilhões de litros podem ser utilizados apenas para resfriar os equipamentos que mantêm esses sistemas operando continuamente.

Esses números desafiam a ideia de que a IA será, automaticamente, uma aliada no combate às mudanças climáticas. Relatório divulgado em fevereiro de 2026 por organizações como Beyond Fossil Fuels, Stand.Earth e Friends of the Earth apontou que 74% das alegações da indústria de tecnologia sobre benefícios climáticos da IA não apresentam comprovação consistente. O discurso avança mais rápido que as evidências.

Muitas empresas destacam ganhos ambientais associados à inteligência artificial, mas raramente demonstram redução efetiva de emissões ou impacto líquido positivo, especialmente no caso das ferramentas generativas, hoje amplamente difundidas.

O problema é estrutural. Os data centers que sustentam a IA consomem grandes volumes de energia e água. Demandam eletricidade de forma contínua e, em diversas regiões, essa energia ainda depende de fontes fósseis. Além disso, o resfriamento permanente dos servidores exige uso intensivo de recursos hídricos.

No Brasil, a expansão desses centros ocorre sem um marco regulatório ambiental específico. Isso pode significar maior pressão sobre redes elétricas já tensionadas e competição por água em regiões sujeitas à escassez.

Há também um paradoxo evidente. A eficiência prometida pela IA, como a otimização de redes de energia ou o aprimoramento de previsões climáticas, muitas vezes é usada para justificar novos investimentos e ampliação de infraestrutura. O efeito imediato pode ser o aumento do consumo de recursos naturais antes que qualquer ganho ambiental se concretize. Reforça-se, assim, a lógica do crescimento ilimitado em um planeta que tem limites claros.

Países e empresas disputam investimentos em tecnologia como sinal de desenvolvimento. A instalação de data centers tornou-se parte dessa corrida. Sem regras claras de sustentabilidade, porém, o risco é transformar territórios em polos de externalidades ambientais severas, com uso intensivo de água potável, sobrecarga energética e maior demanda por minerais raros cuja extração impõe alto custo ecológico. Os sistemas inteligentes podem contribuir para enfrentar desafios climáticos. Entretando, não é solução automática. Até agora, o que se observa é uma distância considerável entre promessas e compromissos estruturais.

Talvez seja hora de abandonar a crença de que toda inovação tecnológica resolve problemas complexos por si só. A IA não nasce sustentável. Sem regulação adequada, métricas transparentes e compromisso real com a transição energética e o uso responsável da água, corremos o risco de apenas reproduzir no ambiente digital o mesmo padrão de exploração ambiental que marcou outros setores.

A revolução tecnológica seguirá avançando. A questão é como escolhemos medi-la. Apenas em investimentos e capacidade de processamento ou também em responsabilidade ambiental e justiça climática.

A autora é jornalista, pós-doutora em Divulgação Científica e Cultura pela Unicamp, onde pesquisou Inteligência Artificial e Jornalismo. Doutora em Ciências da Informação, é docente do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Amazonas e do Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação da Ufam. Apaixonada por ciência, tecnologia e inovação, tem se dedicado a investigar os impactos dessas transformações na sociedade.