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O que ficou depois da COP

Belém avançou em estrutura, mas ainda tem desafios gigantes pela frente

Sediar a principal conferência climática do mundo, a COP, atraiu investimentos, acelerou obras e movimentou a economia de Belém, capital do Pará. O esforço deixou resultados visíveis na infraestrutura e no comércio, mas passado o evento, muitos se perguntam: qual o legado concreto no estado que lidera o desmatamento no Brasil?

A COP30 colocou o Brasil e, mais especificamente, Belém no centro do debate ambiental – pela primeira vez o encontro foi realizado na Amazônia. O anúncio mobilizou uma corrida contra o tempo para preparar a cidade para receber chefes de Estado, diplomatas, pesquisadores e organizações internacionais.

Ao longo de dois anos, a capital paraense virou canteiro de obras, concentrou investimentos públicos e privados e viu setores como construção civil e turismo ganharem fôlego. Mas também enfrentou polêmicas, como atraso de obras e a alta no preço das hospedagens.

O Pará ainda lidera os índices de desmatamento da Amazônia. Neste início de 2026, o estado é seguido por Mato Grosso, Maranhão, Roraima e Rondônia. Historicamente convive com gargalos de saneamento, mobilidade e desigualdade urbana. Sediar a principal cúpula climática do planeta, por si só, não resolve problemas acumulados há década.

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Arte: Suellen Fonseca/ Pim Amazônia

 

Obras e requalificação urbana

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Em nota, a Prefeitura de Belém apontou que o legado da COP30 pode ser visto em diversos pontos da capital paraense, com intervenções urbanas em praças, feiras, mercados e áreas de convivência, que passaram por revitalizações. As obras contaram com recursos municipais e federais voltados à melhoria da infraestrutura e ao fortalecimento do turismo.

Distritos como Mosqueiro e Icoaraci receberam reformas de praças e áreas de convivência, com instalação de equipamentos de lazer, iluminação e acessibilidade. A proposta foi recuperar espaços degradados e estimular a ocupação cotidiana pela população.

A estratégia seguiu um padrão comum a grandes eventos: concentrar investimentos em áreas de circulação turística e simbólica da cidade, apostando no efeito duradouro dessas melhorias.

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Mercados populares e economia local

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A requalificação do Mercado de São Brás transformou o espaço em um complexo gastronômico e cultural, reunindo bares, restaurantes e feira permanente. Desde a reinauguração, segundo a prefeitura, o local já recebeu centenas de milhares de visitantes.

O tradicional complexo do Ver-o-Peso também passou por intervenções. O Mercado de Peixe foi reformado e, pela primeira vez, a área recebeu sistema de saneamento básico — uma demanda histórica de trabalhadores e comerciantes.

Mais do que estética, a melhoria sanitária reduz riscos à saúde pública. Nesse caso, o legado é menos simbólico e mais funcional.

 Parque da Cidade: o novo cartão-postal

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Principal vitrine física da COP30, o Parque da Cidade foi construído na área do antigo aeroporto e sediou as plenárias e exposições do evento. Com cerca de 500 mil metros quadrados, o espaço reúne ciclovias, áreas esportivas, trilhas e estruturas de lazer.

Após a conferência, o parque foi incorporado ao uso cotidiano da população e passou a funcionar como novo polo de convivência urbana.

 Bioeconomia e inovação

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No campo econômico, uma das apostas do governo estadual é o Parque de Bioeconomia e Inovação da Amazônia, instalado na região portuária. O espaço foi criado para abrigar startups, laboratórios, projetos de pesquisa e negócios ligados ao uso sustentável da biodiversidade.

A proposta é agregar valor a produtos florestais, aproximando ciência, tecnologia e saberes tradicionais. O desafio é transformar o projeto em atividade contínua, e não apenas em vitrine institucional criada para o evento.

 

Turismo e efeitos econômicos

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A preparação para a COP30 também impulsionou o setor de turismo. A rede hoteleira foi ampliada, o aeroporto modernizado e o porto adaptado para receber cruzeiros.

Programas de capacitação profissional treinaram milhares de trabalhadores para atuar em áreas como hospitalidade, gastronomia e serviços.

Estudo da Fundação Getúlio Vargas estima que os investimentos e a realização da conferência tenham gerado mais de 60 mil empregos e movimentado bilhões de reais em efeitos diretos e indiretos na economia local.

A agenda ambiental

No plano internacional, a COP30 foi palco do lançamento do TFFF (Fundo Florestas Tropicais Para Sempre), proposta brasileira para financiar a manutenção de florestas em pé. A ideia é remunerar países pela preservação, criando uma alternativa ao modelo baseado apenas em doações ou créditos de carbono.

Apesar do avanço institucional, os recursos anunciados ainda estão abaixo da meta prevista, e especialistas apontam que a efetividade dependerá da adesão de mais países e investidores.

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Pesquisadora do Imazon

A engenharia financeira que foi desenvolvida para esse fundo exige a necessidade de captar em torno de mais de 100 bilhões de dólares. E no lançamento, aqui na COP, houve por enquanto, um comprometimento de quase 7 bilhões de dólares”, disse Brenda Brito, pesquisadora do Imazon.

Somando anúncios feitos no evento e compromissos adicionais confirmados por diversas nações, o total de compromissos públicos alcançou aproximadamente US$ 6,7 bilhões, o que representa uma fração do que é necessário para o fim proposto.

 Participação social

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A conferência também ampliou a presença de povos indígenas, comunidades tradicionais e movimentos sociais no debate climático. A Cúpula dos Povos reuniu lideranças e organizações em uma agenda paralela às negociações oficiais, pressionando por justiça climática, demarcação de territórios e políticas públicas mais inclusivas.

Esse protagonismo social foi um dos diferenciais de sediar o evento na Amazônia, aproximando o debate global das populações diretamente afetadas pela crise ambiental.

 O que realmente ficou

Se, por um lado, Belém ganhou infraestrutura, visibilidade internacional e impulso econômico, por outro, os desafios estruturais permanecem. O estado ainda registra altas taxas de desmatamento e enfrenta déficits históricos de saneamento, mobilidade e serviços básicos.

O legado concreto da COP30, portanto, é ambíguo: deixou obras, equipamentos urbanos e aquecimento econômico, mas ainda depende de continuidade administrativa e políticas públicas consistentes para produzir mudanças duradouras.

Mais do que transformar Belém em vitrine momentânea, o desafio agora é fazer com que os investimentos se convertam em qualidade de vida permanente.

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 Arrecadação é comemorada

O Governo do Pará, hoje com o governador Helder Barbalho à frente, destacou o que chamou de legado econômico significativo para a capital e para o estado. Entre os dias 1º e 24 de novembro, período que abrangeu a realização da conferência, foram emitidas mais de 42 milhões de notas fiscais, totalizando R$ 4,4 bilhões em arrecadação, o que representa um crescimento de 7% em relação ao mesmo intervalo de 2024.