Economia
Crise na Venezuela reforça clima de cautela para empresários e governos na Região Norte
Especialistas ouvidos pela PIM Amazônia lembram que crise no país vizinho já afetava as relações comerciais
A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump, inaugura um novo e tenso capítulo na geopolítica da América do Sul e acende alertas imediatos para a economia brasileira. O episódio eleva o grau de incerteza regional, especialmente nos estados da região Norte, apontam especialistas ouvidos pela PIM Amazônia.
Com Roraima como principal porta de entrada da fronteira terrestre, os reflexos da crise ultrapassam o campo político e passam a preocupar o setor econômico, com impactos que podem alcançar diretamente outros estados, como o Amazonas. O aumento da tensão internacional levou ao reforço das medidas de segurança na fronteira entre a Venezuela e Roraima, acendendo um sinal de alerta para o comércio regional.
A preocupação recai sobre o fluxo de mercadorias, já que o Amazonas mantém uma relação comercial direta com Roraima, tanto na compra quanto na venda de produtos. Especialistas avaliam que eventuais restrições, atrasos na circulação de cargas ou até o fechamento temporário da fronteira podem encarecer a logística, afetar o transporte e influenciar as importações e exportações que passam pelo estado, ainda que de forma indireta.
Impacto econômico

Para o coordenador do curso de Economia da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Armando Clóvis Marques de Souza, a crise na Venezuela já vinha impactando o comércio regional antes mesmo dos episódios mais recentes, mas o agravamento da tensão política e militar amplia a instabilidade e reforça o clima de cautela para empresários e governos locais.
Segundo o economista, o comércio bilateral entre Brasil e Venezuela sofreu uma queda acentuada nas últimas décadas, saindo de um fluxo de cerca de US$ 5 bilhões anuais para aproximadamente US$ 1 bilhão, uma retração próxima de 80%. O recuo é reflexo direto da crise econômica venezuelana, da instabilidade política e da adoção de barreiras tarifárias.
A relação comercial entre os dois países, que chegou a ser regida pelo Acordo de Complementação Econômica nº 69 (ACE-69), firmado em 2014 e que previa isenção tarifária, passou a enfrentar instabilidade a partir de julho de 2025. Naquele período, a Venezuela impôs tarifas que variam de 15% a 77% sobre produtos brasileiros, medida que afetou principalmente exportadores de Roraima e gerou protestos do setor produtivo e ações diplomáticas por parte do Brasil.
Ainda em 2025, dados divulgados pela Farsul indicam que o comércio bilateral seguiu em retração, com queda de 13% no valor exportado e de 4% no volume. As exportações brasileiras para a Venezuela voltaram a cair, evidenciando a fragilidade da relação comercial entre os dois países.
Armando Clóvis explica que os impactos são desiguais entre os estados da região Norte. Roraima, por ser fronteiriço, sente os efeitos de forma mais intensa. Em 2025, a Venezuela foi o principal destino das exportações roraimenses, respondendo por 34% do total das vendas externas do estado. No período, Roraima exportou cerca de US$ 225 milhões, com a maior parte desse volume direcionada ao mercado venezuelano.
No caso do Amazonas, os reflexos tendem a ser mais moderados. A economia do estado é fortemente baseada na Zona Franca de Manaus, que possui uma pauta produtiva diversificada e voltada principalmente ao mercado nacional e a outros países.
“O Amazonas pode sentir algum impacto, sobretudo no comércio regional e na logística, mas não em uma escala capaz de afetar significativamente a Zona Franca de Manaus”, avalia o economista.
Segundo ele, o maior risco no curto prazo é a manutenção do cenário de incerteza, que pode frear investimentos e adiar decisões comerciais enquanto não houver clareza sobre os rumos políticos da Venezuela.
Crise política acende alerta para escalada regional

Para o cientista político Paulo Roberto Siberino, a retirada de Nicolás Maduro do poder representa um divisor de águas na história recente da Venezuela, mas não configura, neste momento, um colapso institucional. Segundo ele, a rápida posse da vice-presidente preserva a previsibilidade jurídico-institucional do país e evita um vácuo imediato de poder.
“Não se trata de um poder acéfalo. Pelo contrário, há uma linha sucessória clara, com a vice-presidente no comando e a Suprema Corte atuante, o que impede um colapso instantâneo das instituições”, explica.
O especialista destaca que a crise venezuelana é resultado de um processo histórico que se arrasta há décadas, marcado por disputas geopolíticas, sanções internacionais, bloqueios financeiros e falhas administrativas internas. Apesar de deter uma das maiores reservas de petróleo e minérios do mundo, o país enfrenta, há mais de 25 anos, restrições econômicas que impactaram diretamente sua capacidade de crescimento e a qualidade de vida da população.
“A Venezuela foi empurrada para a pobreza material mesmo sendo um país extremamente rico em recursos naturais. Houve erros de gestão, mas também um bloqueio financeiro internacional que reteve ativos, moeda e equipamentos”, afirma.
O cientista político ressalta que os próximos dias serão decisivos para definir os rumos da Venezuela, incluindo possíveis negociações políticas, reorganização institucional e até a convocação de eleições, fatores que influenciam diretamente a segurança, o comércio e a dinâmica econômica na fronteira brasileira.
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